
Algumas trajetórias são construídas por escolhas que, repetidas ao longo dos anos, acabam definindo um propósito. A de Roberto e Betto é uma delas.
Há 25 anos, os dois se encontraram em São Paulo. Roberto vivia na região da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Betto morava na Pompeia.
A sintonia surgiu de forma imediata. Dias depois do encontro, Betto o convidou para permanecer algum tempo em seu apartamento. O que seria uma breve visita prolongou-se naturalmente.
Pouco depois, uma labradora resgatada entrou em suas vidas e mudou para sempre o rumo daquela história. Chamava-se Endora.
Carinhosa, dócil e extraordinariamente afetuosa, ela parecia compreender as emoções de quem se aproximava. Recebia visitantes com entusiasmo, distribuía carinho sem reservas e transformava qualquer ambiente em um lugar mais acolhedor. Sua presença tornou-se o ponto de partida de uma jornada que nenhum dos dois imaginava viver.
Mais tarde chegou Thor, um doberman retirado de uma situação de abandono. Depois vieram filhotes e outros animais necessitando de ajuda. Sem perceber, Roberto e Betto estavam dando os primeiros passos de uma missão que se tornaria central em suas vidas.
A rotina urbana acabou ficando para trás.
O casal mudou-se para uma pequena chácara às margens da Rodovia Dom Pedro. A mudança trouxe uma nova realidade. Animais feridos, abandonados ou vítimas de maus-tratos começaram a cruzar seus caminhos com frequência. Cada resgate conduzia a outro. Cada história de sofrimento despertava o desejo de fazer mais.
Ao longo dos anos, quase 80 cães foram acolhidos.
Muitos chegaram debilitados pela idade ou pelas marcas deixadas pelo abandono. Alguns permaneceram apenas os últimos meses ou anos de suas vidas. Ainda assim, encontraram algo que talvez nunca tivessem experimentado antes. Segurança, proteção, respeito e afeto.
A trajetória passou por diferentes propriedades rurais até alcançar o local onde vivem atualmente. Foi nesse espaço que nasceu oficialmente o Recanto Endora, nome escolhido em homenagem à cadela que deu origem a tudo.
Quando Endora partiu, após 11 anos de convivência, deixou uma ausência difícil de preencher. O sentimento da perda foi profundo, mas sua memória permaneceu viva. Dar seu nome ao sítio tornou-se uma forma de eternizar a importância que ela teve naquela construção coletiva de amor e cuidado.
Hoje, o Recanto Endora representa muito mais do que um espaço para lazer, encontros e celebrações. Tornou-se um verdadeiro abrigo para vidas que um dia foram esquecidas.
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Atualmente, Roberto e Betto cuidam de 34 cães, sete gatos, um cavalo, um jegue e dois jabutis. Todos chegaram carregando histórias de abandono, negligência ou violência. Todos encontraram acolhimento.
Mais do que resgatar animais, os dois defendem uma causa baseada na conscientização. Acreditam que nenhuma vida deve ser tratada como objeto descartável. Entendem que cães, gatos e tantos outros seres estabelecem vínculos, sentem saudade, experimentam medo e dependem inteiramente das escolhas humanas.
Enquanto mantêm essa missão, Betto segue exercendo a profissão de cabeleireiro há 37 anos. Sua trajetória inclui trabalhos na televisão, no teatro e em produções artísticas. O trabalho continua sendo uma ferramenta importante para sustentar o projeto e garantir a continuidade dos cuidados oferecidos aos animais.
Nem sempre existem recursos suficientes. Nem sempre há espaço para acolher todos os casos que aparecem. Ainda assim, a disposição para ajudar permanece inalterada.
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Muitas pessoas enxergam exagero onde Roberto e Betto enxergam responsabilidade. Para eles, quando um animal vulnerável cruza seu caminho, surge também uma oportunidade de fazer a diferença.
Ao completar 25 anos de união, os dois celebram uma história que ultrapassa a dimensão do relacionamento. Eles comemoram ainda uma construção baseada em companheirismo, generosidade e dedicação à vida.
Uma história que começou em uma pista de dança e que, décadas depois, continua sendo escrita diariamente por patas, latidos, reencontros e incontáveis gestos de cuidado.
Uma história que segue adiante.
Sempre em nome daqueles que dependem da compaixão humana para recomeçar.




