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COSTUMES

Como o home office vem mudando o comportamento dos cães

Especialista aponta os impactos da maior presença dos tutores na rotina dos animais domésticos e os cuidados necessários para evitar sedentarismo e problemas de saúde

18 de maio de 2026
3 min. de leitura
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Foto: Freepik

O avanço do home office redefiniu a rotina de milhões de brasileiros e, de forma indireta, também transformou o dia a dia dos animais domésticos. Com tutores mais presentes em casa, diminuíram os períodos de separação, mas também mudaram os padrões de passeio, gasto de energia e estímulo físico dos cães. O resultado desse novo arranjo tem preocupado especialistas: o aumento dos casos de obesidade canina.

Antes associado principalmente à alimentação inadequada, o excesso de peso em cães passou a ser entendido como um problema multifatorial, que envolve rotina, comportamento e nível de atividade. Em consultórios veterinários, os impactos já são observados de forma recorrente e vão além da estética, afetando diretamente a saúde e o bem-estar dos animais.

Para a médica veterinária Poliana D’arcenção, a mudança de hábitos dos tutores foi determinante nesse cenário. “Com o trabalho remoto, muitos tutores passaram a sair menos de casa, reduzir os passeios e oferecer mais petiscos ao longo do dia. Esse cenário mais sedentário diminuiu o gasto energético dos animais e favoreceu o ganho de peso”, explica.

Ela chama atenção também para uma percepção comum entre os tutores, de que a presença constante seria suficiente para garantir qualidade de vida. “O vínculo afetivo é positivo, mas qualidade de vida está muito mais ligada à rotina que o cão leva. Quando há pouca atividade física e baixa estimulação, o resultado pode ser justamente o contrário do esperado”, afirma.

O problema, segundo a veterinária Raissa Stehling, é que o ganho de peso costuma ocorrer de maneira gradual, o que dificulta a identificação precoce. Alterações como perda da cintura, dificuldade para sentir as costelas, cansaço em atividades simples e menor interesse por brincadeiras estão entre os sinais mais frequentes.

“Muitas vezes, essas mudanças acontecem de forma lenta e progressiva. O tutor convive diariamente com o animal e acaba não percebendo o ganho de peso logo no início”, pontua.

Além da alimentação desregulada, a nova dinâmica doméstica contribuiu para a adoção de hábitos que favorecem o sedentarismo. Passeios mais curtos, longos períodos sem estímulos dentro de casa, uso frequente de petiscos como forma de interação e ausência de atividades estruturadas fazem parte dessa rotina mais restrita.

Raissa acrescenta que a falta de estímulo mental também tem impacto direto no comportamento. “A ausência de desafios mentais e estímulos reduz o gasto de energia e pode aumentar o tédio e a ansiedade”, destaca.

Com a maior humanização dos animais domésticos, outro comportamento tem chamado atenção nos consultórios: o uso da comida como principal forma de demonstrar afeto. Embora seja um gesto comum entre tutores, ele pode contribuir para o desequilíbrio alimentar.

“Cães precisam de movimento, estímulo mental e oportunidades de explorar o ambiente. A presença do tutor não substitui exercício físico e uma rotina ativa”, reforça Poliana.

Apesar do alerta, veterinários destacam que o cenário pode ser revertido com ajustes simples no cotidiano. Caminhadas mais longas e regulares, brincadeiras dentro de casa, brinquedos interativos, controle na oferta de petiscos e acompanhamento veterinário fazem parte das principais recomendações.

Atividades que envolvem busca, farejamento e aprendizado de comandos também ajudam a aumentar o gasto energético, além de contribuir para reduzir ansiedade e comportamentos compulsivos.

Para os especialistas, o home office não precisa ser um fator negativo para os animais. Com organização e equilíbrio, a maior convivência entre tutores e animais domésticos pode fortalecer vínculos e até melhorar a qualidade de vida. O desafio está em garantir que a presença em casa venha acompanhada de uma rotina mais ativa e estimulante.

Fonte: O Globo

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