O aumento da temperatura dos oceanos pode causar uma pane no sistema usado pelos corais para difundir oxigênio por seu organismo, indicam experimentos feitos por uma equipe internacional de pesquisadores. Resultado: é como se esses invertebrados marinhos, que formam recifes são essenciais para a biodiversidade, fossem asfixiados, correndo risco de morrer rapidamente.
Publicados na última edição do periódico especializado Science Advances, os dados nem um pouco animadores revelam mais um desafio sério para os corais diante da emergência climática global. Já se sabia que ondas de calor colocam esses animais em risco ao ameaçar a relação simbiótica que eles têm com algas, e as novas descobertas sugerem que outros fatores podem estar exacerbando o problema.
A pesquisa foi coordenada por Cesar Pacherres, do Departamento de Biologia da Universidade de Copenhague, em parceria com colegas da instituição dinamarquesa e de centros de pesquisa na Alemanha, Arábia Saudita e Austrália. Eles analisaram o metabolismo do Porites lutea, uma espécie de coral que está presente nos oceanos Índico e Pacífico, de Madagáscar à Austrália. Ele vive em águas muito rasas, tem aparência pedregosa e forma estruturas semicirculares de até 4 m de largura.
Embora possa lembrar um pedaço de rocha de cor creme ou amarelada, a “pele” do P. lutea está coberta por uma camada finíssima de estruturas ciliares. Esses cílios, com um comprimento de no máximo 15 micrômetros (milionésimos de metro), agitam de forma rítmica a água em volta do coral. Isso faz com que o oxigênio da água, partículas de alimento e outros recursos do ambiente sejam direcionadas para dentro do organismo do invertebrado.
Pacherres e seus colegas queriam testar o efeito de mudanças ambientais sobre o funcionamento dos cílios e, para isso, cultivaram em laboratório uma colônia de P. lutea. O coral foi colocado numa câmara de observação que incluía um microscópio equipado com uma câmera de alta velocidade, ideal para acompanhar os movimentos das estruturas ciliares. Os pesquisadores também empregaram um método que permitia acompanhar como o animal ia absorvendo oxigênio ao longo do tempo.
No experimento, que durou 11 horas, a temperatura inicial era de 27°C (comparável à das águas tropicais onde a espécie vive) e ia aumentando gradativamente, até chegar perto dos 40°C, simulando uma onda de calor.
De início, os cílios “batiam” de forma sincronizada a uma frequência de 21 hertz (ou seja, 21 movimentos por segundo). O que os pesquisadores verificaram é que, conforme a temperatura da água ia aumentando, esses batimentos iam se intensificando, quase como se o invertebrado estivesse “arfando”.
Faz sentido, considerando que o aumento do calor tenderia a aumentar a taxa de metabolismo do coral, intensificando seu consumo de oxigênio. Portanto, as estruturas ciliares tinham de trabalhar mais para carregar o gás, dissolvido na água, até as diferentes partes do corpo do coral.
“No entanto, esse mecanismo compensatório não consegue se manter em temperaturas mais elevadas”, explicou Pacherres em comunicado oficial.
No experimento, num calor de até 35°C, o processo continua funcionando, mas o consumo de oxigênio pelo coral se torna tão alto que a concentração do gás dissolvido na água em torno dele vai ficando empobrecida.
Por fim, a partir dos 37°C, os cílios começam a “bater” mais devagar e perdem sua sincronia, que é necessária para que o fluxo de água produzido por eles transporte corretamente as substâncias pelo organismo do invertebrado. Por fim, eles param de bater e, em torno dos 40°C, o coral morre.
Os experimentos foram feitos em condições sem iluminação —a ideia era simular as condições noturnas, em que os corais não contam com a ajuda de algas que realizam fotossíntese para obter oxigênio e, por isso, precisam usar apenas o gás dissolvido naturalmente na água do oceano.
No entanto, há boas razões para acreditar que a situação poderia ser preocupante também durante o dia. Nesse caso, com as algas que vivem em relação simbiótica com os corais produzindo oxigênio, os cílios ainda assim trabalhariam dobrado por conta do calor, e isso poderia trazer um excesso do gás para os tecidos do coral. O risco, nesse caso, seria o chamado estresse oxidativo, que acontece quando formas tóxicas dos átomos de oxigênio causam danos aos componentes das células.
Por outro lado, o calor também expulsa as algas simbióticas, e há cada vez mais regiões oceânicas com falta de oxigênio na água, o que significa que algo mais parecido com o cenário noturno poderia estar acontecendo inclusive de dia.
Para os pesquisadores, mais estudos, com outras espécies do grupo, devem investigar se a pane nos cílios também é uma causa significativa de mortalidade para os corais. De qualquer modo, a urgência de diminuir emissões de gases estufa para minimizar o aumento da temperatura dos mares continua sendo indiscutível.
Fonte: Folha de S.Paulo