As exigências da maternidade não são exclusivas dos seres humanos. Um estudo publicado na revista científica Mammalian Biology sugere que fêmeas de baleia-franca-austral (Eubalaena australis) desenvolveram um comportamento incomum para lidar com o elevado custo energético da criação de seus filhotes. Segundo os pesquisadores, descansar de barriga para cima pode permitir que as mães interrompam temporariamente a amamentação, preservando energia durante um dos períodos mais exigentes de seu ciclo de vida.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Austrália Ocidental e da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que investigaram um comportamento observado repetidamente em fêmeas na área protegida de Head of Bight, importante berçário da espécie no sul da Austrália. Durante a temporada de reprodução, as baleias-francas permanecem meses sem se alimentar, dependendo exclusivamente das reservas de gordura acumuladas nas áreas de alimentação para sustentar a gestação, produzir leite e realizar a longa migração de retorno.
Os pesquisadores destacam que a lactação representa um gasto energético ainda maior do que a própria gestação. Para compreender como as mães administram esse desafio fisiológico, a equipe analisou dezenas de pares de fêmeas e filhotes utilizando observações comportamentais em um ambiente com mínima interferência humana.
“A distância remota dessa área e o fato de ela ser protegida da atividade humana durante a temporada de parição proporcionaram uma perspectiva única para observar os comportamentos de conservação de energia das baleias em um ambiente intocado e sem perturbações”, afirmou Kate Sprogis, uma das coordenadoras do estudo, em comunicado divulgado pelas instituições.
As observações mostraram que as mães permaneceram em repouso, em média, durante 33% do tempo monitorado, enquanto os filhotes descansaram cerca de 13% do período. O dado que mais chamou a atenção da equipe foi que aproximadamente um quarto das fêmeas passou parte significativa do tempo descansando completamente de barriga para cima.
Segundo a pesquisadora Renae van Noort, esse comportamento parece ser exclusivo das fêmeas em fase reprodutiva. “Até onde sabemos, esse comportamento não foi registrado em nenhuma outra espécie de baleia de grande porte. Só observamos isso em mães em lactação e em uma fêmea bastante prenhe — nunca em outros adultos, jovens ou filhotes.”
A análise estatística identificou uma relação consistente entre esse tipo de repouso e a redução do tempo dedicado à amamentação. Quanto mais tempo a mãe permanecia de barriga para cima, menor era a frequência com que o filhote mamava.
Para os autores, a posição pode dificultar o acesso do filhote às fendas mamárias, localizadas na região ventral do corpo da mãe. “Esse comportamento pode ser uma forma de a mãe limitar a frequência com que seu filhote mama, já que as fendas mamárias, por onde o filhote se alimenta, ficam fora de alcance. Isso pode permitir que ela administre melhor suas reservas de energia”, explicou Van Noort.
Os pesquisadores levantam ainda uma segunda hipótese. Como a baleia-franca-austral não possui nadadeira dorsal, estrutura presente em outros cetáceos, como os golfinhos, que auxilia na dissipação de calor, permanecer com o ventre voltado para cima também pode contribuir para a regulação da temperatura corporal, reduzindo o superaquecimento durante o período reprodutivo.
Ao mesmo tempo, o estudo chama atenção para uma possível desvantagem desse comportamento. Nessa posição, as mães podem levar mais tempo para reagir a ameaças, tornando-se mais vulneráveis a colisões com embarcações, uma das principais causas de mortalidade de grandes baleias em diversas regiões do mundo.
Os autores ressaltam que compreender o comportamento materno da espécie pode contribuir para aprimorar estratégias de conservação, especialmente em áreas de reprodução. Medidas como a redução da velocidade de embarcações, o monitoramento de zonas de descanso e o estabelecimento de áreas de exclusão para o tráfego marítimo durante a temporada de parição podem diminuir o risco de acidentes envolvendo fêmeas e filhotes.





