Cerca de 440 gatos selvagens foram mortos durante a edição deste fim de semana da Competição de Caça de North Canterbury, na Nova Zelândia, um evento anual que normaliza a matança de animais sob a justificativa de controle populacional. Realizada na região de Canterbury, a competição ganhou repercussão internacional em 2023 ao anunciar uma categoria destinada à caça de gatos selvagens por crianças, posteriormente cancelada após forte reação pública. Mesmo sem essa modalidade, a presença de menores na atividade ainda acontece e continua a ser criticada por organizações de proteção animal, que veem na iniciativa um mecanismo de dessensibilização à violência.
Entre as vozes que condenam a competição está Anne Batley-Burton, representante da NZ Cat Foundation. Em entrevista ao programa Breakfast, ela afirmou ter ficado “absolutamente horrorizada” com o resultado do evento e defendeu que crianças não devem ser expostas à violência contra animais, sobretudo em uma fase da vida em que a formação da empatia ainda está em desenvolvimento.
Segundo Batley-Burton, pesquisas em psicologia do desenvolvimento indicam que a exposição precoce à violência pode reduzir a empatia e naturalizar comportamentos agressivos. Para ela, envolver crianças em atividades de caça afeta a forma como elas aprendem a se relacionar com outros seres vivos.
A ativista também contestou a forma como os gatos selvagens são tratados no debate público. Ela argumentou que esses animais pertencem à mesma espécie dos gatos que vivem como animais doméstico e que a condição de vida nas ruas ou em estado feral decorre, em grande parte, da irresponsabilidade humana.
“São os mesmos gatos. O problema é que, por falta de responsabilidade dos tutores, muitos acabam abandonados ou vivendo sem controle reprodutivo. Com o tempo, tornam-se animais selvagens tentando sobreviver por conta própria”, afirmou.
Batley-Burton acrescentou que existe uma deficiência de educação pública sobre as diferenças entre gatos domiciliados, gatos em situação de rua e gatos selvagens. Na avaliação dela, essa falta de compreensão favorece episódios de violência contra felinos, incluindo o assassinato de animais pertencentes a vizinhos, abandono, armadilhas e outras formas de crueldade.
Ao ser questionado sobre como diferenciar um gato doméstico de um gato selvagem, Mat Bailey, organizador da Competição de Caça de North Canterbury, descreveu os gatos selvagens como “o próprio diabo sob efeito de metanfetamina”, uma formulação que reforça a demonização desses animais em vez de esclarecer critérios objetivos de manejo. Também rejeitou as críticas sobre o envolvimento de crianças na caça, alegando que famílias da zona rural neozelandesa tradicionalmente ensinam caça, pesca e atividades agropecuárias desde a infância.
O enfrentamento do crescimento populacional dos gatos selvagens deve priorizar medidas preventivas, como esterilização em larga escala, identificação obrigatória, guarda responsável, combate ao abandono e programas de manejo ético das populações de gatos.





