
Antes de a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) voltar à Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, mais de uma década de esforços de conservação haviam permitido que a espécie deixasse essa condição. Agora, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) voltou a classificá-la como Vulnerável à Extinção, em decisão publicada em junho, refletindo os impactos dos grandes incêndios no Pantanal e de outros fatores que vêm comprometendo sua sobrevivência.
Segundo a bióloga Neiva Guedes, presidente e fundadora do Instituto Arara Azul, a reclassificação foi baseada em um conjunto de evidências obtidas por décadas de monitoramento. Os pesquisadores registraram redução da população, alterações no habitat e queda no sucesso reprodutivo das aves após as grandes queimadas.
“Nós tivemos um grupo monitorado há mais de 20 anos que reduziu cerca de 60% dos indivíduos que ocupavam um dormitório tradicional há mais de 60 anos. Houve uma redução significativa da sobrevivência dos indivíduos e do sucesso reprodutivo”, afirma.
Ela explica que a decisão não foi motivada por um único indicador, mas pela combinação da redução de indivíduos, da perda de habitat e dos efeitos dos incêndios sobre a reprodução.
A arara-azul-grande é altamente especializada. Depende de poucas espécies vegetais para alimentação e de árvores específicas, como o manduvi, para se reproduzir. Quando o fogo atinge o Pantanal, destrói ninhos, ovos, filhotes e árvores utilizadas para abrigo e reprodução, além de reduzir a oferta de alimento. Os impactos persistem por anos. O Instituto Arara Azul também registrou diminuição do número de casais reprodutivos e menor sucesso na criação de filhotes após as queimadas.
A recuperação da população é lenta porque a espécie leva entre sete e nove anos para atingir a maturidade reprodutiva.
Apesar do retorno à lista de ameaçadas, Neiva Guedes destaca que os resultados obtidos desde 1990 continuam sendo fundamentais. O monitoramento de ninhos, a instalação de ninhos artificiais e o manejo das áreas reprodutivas permitiram que a espécie saísse da lista em 2014.
“Não significa que todo o avanço foi perdido. Muito pelo contrário. A situação só não é mais crítica porque houve um trabalho ininterrupto de conservação durante todos esses anos”, afirma.
Segundo ela, a nova classificação deve ampliar a atenção dedicada à espécie por autoridades, pesquisadores e pela sociedade. Entre as prioridades estão o fortalecimento do combate aos incêndios, a proteção do habitat, o enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, a redução dos impactos dos agrotóxicos, além da ampliação da educação ambiental e da ciência cidadã.
Embora diferentes ameaças afetem a espécie, os incêndios continuam sendo o principal risco. Diante das previsões climáticas, a preocupação é ainda maior.
“Sem as árvores utilizadas para reprodução e sem os recursos alimentares de que necessita, ela simplesmente não consegue se manter na natureza”, conclui Neiva Guedes.




