CRUELDADE INTRÍNSECA            

Maus-tratos no hipismo vão além da agressão de treinadora alemã contra cavalo

Os maus-tratos ao cavalo Saint Boy, agredido pela treinadora alemã Kim Raisner, são apenas uma parte de todo o sofrimento vivido pelos animais explorados no hipismo            
(Foto: Stanislav KrasilnikovTASS via Getty Images)

O caso de Saint Boy, o cavalo agredido com um soco pela treinadora alemã Kim Raisner, é apenas uma das tantas situações de maus-tratos as quais os animais são submetidos no hipismo. Raisner foi expulsa dos Jogos Olímpicos de Tóquio por conta da agressão cometida no sábado (07) durante a competição feminina do pentatlo moderno. A expulsão tem como objetivo puni-la pelos maus-tratos, mas não altera em nada a exploração imposta aos cavalos, tampouco os liberta de serem maltratados de inúmeras outras formas em nome do lucro e do entretenimento humano.

Saint Boy não só foi agredido com um soco, como foi chicoteado pela alemã Annika Schleu, que o montava durante a prova. Os chicotes, no entanto, não são vistos pelos organizadores e praticantes do hipismo como ferramentas de maus-tratos, assim como acontece com os “estribos”, usados para o apoio do pé do cavaleiro, que frequentemente os utiliza – como fez Schleu durante a prova – para agredir o cavalo, batendo os estribos de aço contra a barriga do animal para fazê-lo andar em resposta ao incomodo gerado pela dor.

Ao analisar estritamente o momento em que Saint Boy levou um soco de Raisner, sem considerar as outras situações de maus-tratos que são padrão do hipismo, o Comitê Executivo da União Internacional do Pentatlo Moderno (UIPM) decidiu expulsar a alemã da competição. Em um comunicado, a instituição informou que a ação da treinadora é considerada “uma violação das regras de competição da UIPM aplicáveis a todas as competições reconhecidas pela organização, incluindo os Jogos Olímpicos”.

Um vídeo que registrou os maus-tratos ao cavalo (confira ao final da reportagem) mostra o momento em que a treinadora incentiva Schleu a chicoteá-lo. “Acerte, acerte”, grita Raisner ordenando a competidora a chicotear o animal. A alemã atende e agride Saint Boy repetidas vezes com o chicote. Em um determinado momento, o animal, visivelmente assustado, aproxima-se da cerca ao redor da pista, a treinadora consegue alcançá-lo e desfere contra ele o golpe com o punho fechado que levou a sua expulsão do campeonato.

Foto que viralizou nas redes sociais mostra cavalo Saint Boy com expressão de dor (Foto: Reprodução/DCM)

O sofrimento imposto ao cavalo teve como motivação a recusa de Saint Boy a saltar obstáculos da prova hípica de saltos. Além de ter sido fisicamente agredido, o animal também foi desrespeitado e submetido a sofrimento psicológico visível em seu comportamento agitado. O tempo todo, Saint Boy demonstra estar desconfortável com as circunstâncias cruéis nas quais foi envolvido, mas não consegue fazer nada além de rodar em círculos e se debater, levantando as patas dianteiras enquanto é chicoteado, segurado pelas rédeas ligadas ao bridão que machuca sua boca e língua, e agredido com golpes desferidos não só pela treinadora, mas também por Annika Schle, que usa os pés para acertar a barriga de Saint Boy com os estribos enquanto demonstra, aos prantos, estar bastante nervosa por não conseguir finalizar a prova que poderia lhe garantir pontos para a classificação final do pentatlo.

Ainda no sábado (7), as provas masculinas realizadas durante as olimpíadas não contaram com a participação da treinadora Kim Raisner, que foi expulsa da competição logo após agredir Saint Boy. Segundo o presidente da Federação Olímpica da Alemanha (DOSB, na sigla em alemão), Alfons Hörmann, expulsá-la era a “melhor solução” para evitar “mais questionamentos” a seu respeito. A decisão, de acordo com o presidente, foi tomada em conjunto após o caso ser discutido entre Schleu, Raisner e Susanne Wiedemann, diretora de esportes da Federação Alemã de Pentatlo Moderno.

A crueldade do hipismo vai além de socos a cavalos

Os cavalos explorados pelo hipismo vivenciam extremo sofrimento não só quando são deliberadamente agredidos, mas também ao serem submetidos a treinamentos exaustivos e cruéis e a competições com regras desumanas que são consideradas padrão nesse segmento.

Embora seja vista como inofensiva, até mesmo a regra da competição que estabelece apenas 20 minutos como tempo limite para o competidor conhecer o cavalo – escolhido por sorteio – sobre o qual irá montar e que, até o momento, lhe era desconhecido, pode ser prejudicial para o animal. Isso porque essa regra, considerada um elemento-chave na competição, pode deixar o cavalo ainda mais desconfortável. Além dos maus-tratos típicos do hipismo, o ato de obrigar um animal a participar de uma prova com uma pessoa que ele desconhece pode assustá-lo, submetendo a sofrimento psicológico. Não é atoa que a maioria dos cavalos se sente mais segura diante da aproximação de seus tutores e fica desconfiada ao ter que lidar com um desconhecido se aproximando. Isso ocorre por conta da confiança ou da falta dela nas relações com humanos.

Foto: Reprodução/Instagram/Rafael Tortella

Ser obrigado a competir carregando sobre si um desconhecido, no entanto, é apenas “a ponta do icerberg” de toda a crueldade do hipismo – parte dela, escondida nos treinamentos fechados ao público, e o restante exposta em competições que tentam naturalizar a exploração animal e romantizar práticas que submetem cavalos à crueldade. Dentre elas, o uso de instrumentos de tortura como o bridão, os estribos, as esporas e os chicotes.

A crueldade desses instrumentos e do hipismo em si foi exposta em um estudo realizado por Alexander Nevzorov, ex-cavaleiro e fundador da escola de equitação Nevzorov Haute Ecole. Conforme exposto nas redes sociais do ativista vegano Rafael Tortella, Nevzorov abandonou o hipismo em 2008 “após uma série de estudos que fez junto com Lydia Nevzorov que demonstraram o sofrimento dos cavalos nas atividades equestres”.

Foto: Reprodução/Instagram/Rafael Tortella

A publicação do ativista, embasada no estudo de Lydia e Alexander, revelou que em frente às câmeras, nas competições, “as rédeas curtas e a pressão do bridão mantêm a postura não natural de flexão do pescoço” do cavalo, que caminha com a cabeça abaixada para compor a cena padronizada do hipismo e entreter o público. O que muitos fãs dessa modalidade cruel não sabem, no entanto, é que por detrás das câmeras os cavalos costumam ter o pescoço amarrado à boca – como expõe a imagem acima – com uma corda que os mantêm curvados de maneira dolorosa e desconfortável.

“O bridão (ou freio) aperta a língua, bate no céu da boca, nos dentes e na gengiva justo nas terminações do nervo trigêmeo. O cavalo para/obedece porque está com muita dor. A língua presa pelo bridão dificulta a deglutição da saliva e a garganta seca. O aparelho digestório é estimulado a secretar suco gástrico sempre que há algo na boca. O resultado é uma espuma branca na boca durante as competições ou treinos”, relata a publicação de Tordella ao expor uma foto do focinho de um cavalo com a boca repleta de espuma.

Foto: Reprodução/Instagram/Rafael Tortella

“A epiderme do cavalo é mais fina e tem mais terminações nervosas que a humana. Portanto, é mais sensível à dor. Esporas e chicotes causam lesões, dor e sofrimento”, explica o ativista, que disponibiliza em rede social as fontes do estudo que embasaram sua publicação.

Rafael Tordella aborda também os problemas de coluna sofridos por cavalos em decorrência da montaria praticada por pessoas que sobem nas costas desses animais muitas vezes acreditando, de maneira equivocada, que o peso de um único ser humano não é capaz de causar dor e adoecer um cavalo. “A anatomia do cavalo não foi projetada pela natureza para suportar o peso de um ser humano sobre sua coluna”, diz o ativista ao publicar imagens de uma termografia da coluna de cavalos explorados em provas de salto e em adestramentos. Nas imagens (confira acima) são vistas áreas roxas, vermelhas e laranjas que “indicam inflamação crônica no dorso do animal, decorrente do trauma gerado pela montaria”.

Foto: Reprodução/Instagram/Rafael Tortella

Além disso, lesões, quedas, fraturas e ataques cardíacos também são comuns no hipismo. “Muitas vezes, os animais sofrem lesões fatais durante as competições ou nos treinamentos. Quando sobrevivem, mas a performance é prejudicada, é muito comum matarem o animal, pois geram mais custos do que resultados”, expõe o ativista, que teve sua fala confirmada por atos ocorridos nas Olimpíadas de Tóquio quando o cavalo suíço Jet Set foi morto após sofrer uma lesão durante a apresentação de uma prova de equitação.

O sofrimento animal, no entanto, não se restringe aos treinamentos e às provas cruéis, mas também ao sistema que existe por trás do hipismo e que é responsável por mantê-lo. “Há um mercado valioso de sêmen e ventre. Animais de ‘boa genética’ são como máquinas de reprodução, sempre envolvendo abusos sexuais. A coleta do sêmen pode ser por masturbação manual, monta em manequim [foto de número 1 abaixo] ou em fêmea (amarrada), e uma ‘vagina artificial'”, expõe a publicação do ativista.

Foto: Reprodução/Instagram/Rafael Tortella

No caso da inseminação artificial, o procedimento é realizado “introduzindo o braço e uma mangueira na vagina da fêmea presa e indefesa”. E mesmo quando há monta – ou seja, um cavalo sobe sobre uma égua para ocorrer a reprodução – a fêmea é amarrada e “não pode escolher a hora ou se aceita o parceiro”. Esse mercado de reprodução de éguas e cavalos também leva à “separação precoce de potros e mães para venda”. Além de serem objetificados e tratados como mercadorias, esses animais são submetidos a intenso sofrimento emocional ao serem separados.

Ex-cavaleiro, ex-treinador e ex-domador, David Castro, autor do livro “El Silencio de los Caballos” acredita que “nenhuma atividade que obrigamos o cavalo a fazer constitui parte de sua natureza”. “Nenhum cavalo permite que um ser humano monte nas suas costas sem que seja violentado física e psiquicamente. A embocadura é um instrumento criado para gerar dor na boca do cavalo. Essa é sua função. Durante a execução das atividades equestres, temos de entender que o cavalo sempre é conduzido pela dor”, asseverou Castro.

O ex-cavaleiro Alexander Nevzorov também defende que o hipismo é uma prática cruel, tendo passado a se dedicar a expor a realidade dessa modalidade tão bem conhecida por ele, que a praticou por anos no passado. “O cavalo, para sua infelicidade, evoluiu de tal modo que ele pode disfarçar qualquer dor, exceto a mais insuportável, até o fim, sem demonstrá-la de modo algum. Na natureza selvagem, o cavalo que demonstra dor, fraqueza ou uma enfermidade, ao mesmo tempo se condena a ser devorado, ou a ser rebaixado na escala hierárquica do seu rebanho”, pontuou Nevzorov.

Passe as imagens abaixo para o lado e confira o vídeo dos maus-tratos a Saint Boy:

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