A promotora que exige ser amada incondicionalmente

           

Já faz um tempo. Estava lendo a reportagem sobre a prisão da procuradora aposentada Vera Lúcia de Sant’anna Gomes, acusada de torturar uma menina de apenas 2 anos de idade. Na matéria, uma frase da procuradora me chamou a atenção. A frase era assim: “os cães são mais amigos e leais do que muito ser humano por aí”. E em seguida ela complementava: “tenho um poodle e dois gatos siameses que crio como gente”.

A promotora presa falava aquilo na tentativa de convencer os leitores de que ela é uma pessoa boa. E os jornalistas, por sua vez, tinham publicado a declaração como indicativo de desequilíbrio daquela senhora. Confesso que fiquei incomodado tanto com a fala da mulher, quanto com a insinuação da revista. Para mim, os dois lados estavam me enganando.

Não acredito que seja louco quem gosta mais de animais do que de gente. Também não acho que, só pelo fato de gostar de animais, uma pessoa pode ser considerada boa. Porque é fácil conviver com os animais. Os bichos são transparentes, são inocentes e amam incondicionalmente. Ao contrário dos seres humanos. O amor dos animais é constante e permanente.

O amor na relação dos animais com os homens é de total confiança. É por isso que, mesmo sofrendo maus-tratos, mesmo quando não têm nem o que comer, é comum que eles continuem fiéis, defendendo e fazendo companhia aos seus tutores. Muitas pessoas acabam gostando de cachorros e gatos, porque os bichos as conquistam.

O problema é que muitas pessoas, a exemplo da promotora presa, acreditam que a relação que elas têm com os animais é de amor. E que é delas a iniciativa dessa relação, apenas porque oferecem comida e moradia. Essa compreensão distorcida de que amar é dar algo material para alguém carrega em si a expectativa de retorno, como o de receber em troca reconhecimento na forma de obediência e submissão.

O episódio da senhora que cometeu violência inaceitável contra uma menina de apenas 2 anos é  um alerta de que essa incompreensão do que é amar deságua em tragédias. Ela se enfureceu, porque não conseguiu entender que os seres humanos só amam condicionalmente. Ela enlouqueceu quando a criança se comportou, como ela mesma se comportaria, sinalizando que só amaria a mãe adotiva se ela a amasse primeiro.

Não há dúvida de que a promotora Vera Lúcia de Sant’anna Gomes, como qualquer outra pessoa que se sente à vontade em cometer violência contra crianças ou seres vivos inocentes e indefesos, sofre de grave e perigoso desequilíbrio emocional. Mas, ao contrário do que a revista insinua, a doença mental não está no fato de essas pessoas acharem que muitos bichos, como os cachorros, são amigos mais fiéis do que os seres humanos. A promotora é apenas uma síntese de onde se pode chegar quando os equívocos dos sentimentos humanos se aprofundam.

A revista poderia ter alertado que o crime maior no caso específico da promotora enfurecida contra uma criança indefesa foi cometido, não só pela mente doentia daquela senhora, mas pelos representantes da justiça e pelos legisladores, que permitem jogar uma vida indefesa no cárcere de uma pessoa com evidentes sinais de desequilíbrio. Os jornalistas poderiam ter prestado um serviço de fundamental importância para a reflexão da sociedade.

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