Cidades ao redor do mundo estão enfrentando o agravamento de mais uma consequência do aquecimento do planeta: o hydroclimate whiplash (ou efeito de chicote hidroclimático, em português), caracterizado pelas mudanças extremas e imprevisíveis entre períodos de seca e chuvas intensas. Esse fenômeno, inclusive, foi um dos responsáveis pelos incêndios que devastaram Los Angeles, nos Estados Unidos, no começo do ano.
Uma pesquisa liderada pela Universidade da Califórnia, dos Estados Unidos, e publicada em janeiro na Nature Reviews, mostra que registros climáticos globais destacam que o hydroclimate whiplash registrou alta de 31% a 66% desde meados do século XX. E modelos climáticos potencialmente conservadores projetam que ele mais que dobrará se as temperaturas globais subirem 3ºC acima dos níveis pré-industriais.
Um fator-chave para essa alta é a “esponja atmosférica em expansão”, ou seja, a crescente capacidade da atmosfera de evaporar, absorver e liberar 7% mais água para cada grau Celsius que o planeta aquece.
“O problema é que a esponja cresce exponencialmente, como juros compostos em um banco. A taxa de expansão aumenta com cada fração de grau de aquecimento”, disse o autor principal do trabalho, Daniel Swain, em comunicado.
Em razão disso, o mundo tem registrado mais chuvas torrenciais quando chove e seca mais severas quando está seco.
Um estudo recente conduzido pela WaterAid com acadêmicos da Universidade de Cardiff, do País de Gales, e da Universidade de Bristol, da Inglaterra, analisou as 100 cidades mais populosas do mundo, além de 12 onde trabalha, e constatou que 15% delas mostraram uma tendência distinta para um clima mais úmido ou mais seco.
Além disso, 20% estão sofrendo uma inversão climática, ou seja, lugares acostumados a chuvas pesadas agora estão enfrentando secas, enquanto regiões historicamente áridas agora lutam com inundações inesperadas.
“As descobertas do nosso estudo ilustram o quão diferente e dramaticamente as mudanças climáticas estão se expressando ao redor do globo – não existe uma solução única para todos”, disse Katerina Michaelides, cientista-chefe da Universidade de Bristol. “Uma compreensão mais profunda dos riscos climáticos localizados pode dar suporte a um planejamento mais inteligente e personalizado nas principais cidades.”
Michael Singer, cientista-chefe da Universidade de Cardiff, acrescentou que um resultado interessante do estudo é como “muitas das tendências de riscos climáticos parecem se espalhar por grandes regiões, sugerindo que pode haver desafios significativos de adaptação a novos regimes de riscos, mas também oportunidades regionais de colaboração entre nações para se tornarem mais resilientes às mudanças climáticas em centros urbanos”.
Cidades mais afetadas
Segundo o relatório da WaterAid, cidades do sul da Ásia estão se tornando extremamente propensas a inundações e cidades europeias estão apresentando tendências significativas de seca, o que pode impactar o acesso das pessoas à água limpa e a segurança hídrica.
Os locais que registraram as maiores chicotadas climáticas foram Hangzhou (China), Jacarta (Indonésia) e Dallas (Estados Unidos). Outras cidades onde o fenômeno também aumentou foram Xangai (China), Bagdá (Iraque), Hefei (China), Camberra (Austrália), Surabaya (Indonésia), Bangkok (Tailândia) e Addis Ababa (Etiópia).
A análise também descobriu que 24 cidades tiveram mudanças climáticas dramáticas neste século. As mais bruscas de condições úmidas para secas ocorreram no Cairo (Egito), em Madri (Espanha) e em Riad (Arábia Saudita). Hong Kong e San Jose, na Califórnia (EUA), também ficaram no top 10.
Já as mudanças mais bruscas de condições secas para úmidas ocorreram em Lucknow (Índia), Surat (Índia), e Kano (Nigéria). Outras cidades quem entraram na lista foram Bogotá (Colômbia), Hong Kong e Teerã (Irã).
Enquanto secas prolongadas podem levar à escassez de água, interrupção do fornecimento de alimentos e apagões de eletricidade onde a energia hidrelétrica é confiável, chuvas intensas podem causar inundações repentinas, destruindo casas e estradas e espalhando doenças mortais transmitidas pela água.
Reportagem do The Guardian destaca que os pesquisadores também avaliaram o nível de vulnerabilidade social e a qualidade da infraestrutura nas cidades. As cidades com os maiores aumentos em riscos climáticos combinados com a maior vulnerabilidade – e, portanto, os lugares enfrentando os maiores perigos – foram Cartum (Sudão), Faisalabad (Paquistão) e Amã (Jordânia).
Mesmo nas cidades onde as mudanças no clima foram menos drásticas, tendências claras foram vistas em quase todas elas. Os lugares que ficaram mais secos nos últimos 40 anos incluíram Rio de Janeiro (Brasil), Paris (França), Los Angeles (Estados Unidos) e Cidade do Cabo (África do Sul). Muitas dos que ficaram mais úmidas estão no sul da Ásia, como Mumbai (Índia), Lahore (Paquistão) e Cabul (Afeganistão).
“[A pesquisa] destaca as mudanças devastadoras nos padrões climáticos extremos em todos os continentes, com o impacto sentido mais claramente em países de baixa renda, onde a ausência de água se torna não apenas um desafio, mas uma questão de vida ou morte”, avaliou Tim Wainwright, diretor executivo da WaterAid UK.
O hydroclimate whiplash ainda não afeta o mundo completamente, mas Swain, da Universidade da Califórnia, observou à Sky News que pode se espalhar por toda parte à medida que o ar continua esquentando devido às mudanças climáticas.
“Na verdade, esperamos que quase todos os locais populosos da Terra acabem vendo um aumento substancial desse efeito chicote”, completou.
Fonte: Um Só Planeta