Conhecidos pela coloração vermelha intensa e exuberante, os guarás-vermelhos voltaram a ser avistados, sobrevoando Bertioga, na Baixada Santista, em grandes bandos, nas proximidades dos rios Jaguareguava e Itapanhaú. Áreas costeiras e de manguezal compõem o habitat dessas aves que deixaram de ser avistadas na região, e segundo pesquisadores, o reaparecimento está associado às melhorias das condições ambientais do litoral paulista.
Os primeiros registros de observação das aves nos manguezais da cidade ocorreram no fim de 2021, de acordo com a Prefeitura de Bertioga. Com o passar do tempo, foi notado o aumento gradual dos guarás, incluindo indivíduos mais jovens, com plumagem mais escura e em processo de troca de penas, reunidos em bandos maiores ao lado de adultos que já apresentam a intensa coloração vermelha característica da espécie, segundo a Prefeitura.
Os guarás-vermelhos, cujo nome científico é Eudocimus ruber, que significa “vermelho glorioso”, pertencem à mesma família das garças e dos pelicanos. A espécie se alimenta de pequenos crustáceos, como caranguejos e camarões, além de peixes, e adquire a coloração vermelha característica das penas na fase adulta devido a pigmentos naturais presentes nesses animais.
A bióloga Ana Paula Assis, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), cujas pesquisas contam com apoio do Instituto Serrapilheira, explicou que os guarás habitavam originalmente áreas de Mata Atlântica no Sul e Sudeste, regiões costeiras do Nordeste e até outros países da América do Sul, como Guiana, Venezuela e Suriname. Segundo ela, a espécie desapareceu do Sul e Sudeste na década de 1970 em razão da redução dos manguezais e da caça intensiva, motivada pelo uso de suas penas como adornos.
“Há uns 20 anos começamos a ver alguns bandos de guará especialmente perto da Ilha Comprida e Cananéia [no litoral sul do Estado de São Paulo]. Acredita-se que eles são descendentes de 18 casais que foram coletados no Maranhão e soltos na Região Sudeste e felizmente estão conseguindo estabelecer colônias e prosperar por aqui”, diz Ana Paula.
Para o zoólogo André Casas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista, o reaparecimento em Bertioga só foi possível porque houve uma melhoria das condições ambientais dos manguezais, além de uma conscientização das pessoas que acessam esses espaços. “Isso possibilitou que essas populações se restabelecessem e pudessem desenvolver seus papéis biológicos, como reprodução e alimentação, com plenitude. Protegendo os mangues você protege o habitat e recursos desses animais.”
Entre as ações promovidas pela Prefeitura de Bertioga estão iniciativas com estudantes da rede pública e a comunidade, incluindo mutirões de limpeza, ações de sensibilização ambiental e fiscalizações frequentes.
“O retorno dessa espécie mostra que estamos no caminho certo. Os manguezais são ambientes fundamentais para a biodiversidade e para o equilíbrio ecológico da região. As ações de proteção, fiscalização e educação ambiental são contínuas e integradas, e o guará-vermelho é um símbolo vivo dos avanços que Bertioga vem alcançando na proteção de seus recursos naturais”, afirma o secretário de Meio Ambiente, Fernando Poyatos.
Sob pressão
Ao mesmo tempo em que os biólogos comemoram a presença das aves, relatam a necessidade de uma vigilância constante para proteção da espécie. Tendo em vista que elas precisam dos manguezais para formar os ninhos e acabam sendo muito visadas para a caça pela beleza e coloração das penas. “Temos que manter nossos esforços para que essa realidade mude de um dia para o outro. Que a gente consiga preservar mais os manguezais para termos mais guarás no Sul e Sudeste”, afirma Ana Paula.
Segundo a Prefeitura de Bertioga, as ações voltadas à proteção do guará-vermelho estão inseridas em uma estratégia mais ampla de proteção dos manguezais e da biodiversidade associada. A Prefeitura informou que “seguirá fortalecendo iniciativas permanentes de educação ambiental, manejo adequado dessas áreas e incentivo à participação da comunidade, garantindo condições favoráveis para a permanência e o sucesso reprodutivo da espécie.”
Turismo de observação
O retorno do guará-vermelho também movimentou as saídas organizadas mensalmente pelo Clube de Observação de Aves de Bertioga (COAB), que leva turistas e amantes de pássaros para avistar as aves em pontos turísticos da cidade como os Parque Estadual Restinga e da Serra do Mar.
Claudia Regina Piveta Minelli, uma das integrantes do clube, conta que os guarás sempre aparecem nas beiras dos rios e quando sobrevoam criam uma paisagem que se torna a grande atração do passeio. “A cor vermelha meio alaranjada deles contrasta com o azul do céu, o verde do rio e das árvores, com a Serra do Mar ao fundo. Vira um espetáculo que os turistas se impressionam e filmam. Esse retorno dos guarás é uma grande alegria para nós.”
Ela diz que é possível avistar os filhotes que ainda não têm a pigmentação vermelha junto às famílias e identificar as espécies que possuem as pontas e meio das asas mais avermelhadas, que estão transicionando para a vida adulta. “Uma fase é bem diferente da outra, ficam parecendo até outras espécies.”
Segundo Claudia Regina, Bertioga possui mais de 300 espécies de aves e é um destino muito procurado pelos pesquisadores, ornitólogos e observadores. Além dos guarás, outros destaques da cidade são o tiê-sangue e o pássaro conhecido popularmente por colhereiro porque possui um bico em formato de colher todo furado que despeja água quando ele pega um peixe, por exemplo.
Fonte: Estadão