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MERECEM LIBERDADE

Vaca usa ferramenta de forma estratégica e nos obriga a rever a subestimação cognitiva e a exploração da espécie

20 de janeiro de 2026
Redação ANDA
2 min. de leitura
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Veronika descansando enquanto segura um graveto com a boca. Foto: Antonio J. Osuna Mascaró

As vacas tem sido reduzidas a números em planilhas da indústria e vistas apenas como corpos destinados ao consumo. Um novo estudo científico obriga a sociedade a olhar para esses animais com mais honestidade e menos arrogância.

Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena acompanharam por quase dez anos uma vaca doméstica chamada Veronika, que vive em uma fazenda na Austrália. O que observaram rompe a negação sistemática sobre a inteligência delas.

Veronika utilizava uma vassoura para aliviar incômodos do próprio corpo, escolhendo partes diferentes do objeto de acordo com a região a ser coçada. Para áreas mais altas e rígidas, recorria às cerdas. Para regiões sensíveis, optava pelo cabo liso.

O gesto pode parecer simples a olhos treinados para desconsiderar a complexidade dos animais explorados. Ainda assim, envolve planejamento, controle motor, memória e adaptação. Trata-se do uso estratégico de uma ferramenta, algo raramente reconhecido na espécie pela ciência tradicional.

Essa constatação provoca um desconforto necessário. Existem cerca de 1,5 bilhão de vacas no planeta. Humanos convivem com esses animais há pelo menos dez mil anos. Mesmo assim, a narrativa dominante sempre foi a da inferioridade cognitiva, construída para justificar confinamento, mutilações, separações forçadas e morte precoce.

O caso de Veronika mostra um viés antigo. Quando um animal é classificado como mercadoria, qualquer traço de inteligência, sensibilidade ou autonomia se torna inconveniente.

A ciência, muitas vezes influenciada por esse olhar utilitarista, demorou a prestar atenção em comportamentos que sempre estiveram presentes.

A pergunta central deixa de ser se vacas são inteligentes o suficiente. A questão real passa a ser outra. Quantas capacidades seguem ignoradas porque reconhecer sua existência exigiria rever práticas naturalizadas de exploração.

Animais não humanos resolvem problemas, sentem como nós, criam estratégias para lidar com desconfortos físicos e ambientais. A diferença entre eles e outras espécies mais celebradas pela ciência reside menos na cognição e mais no lugar que lhes foi imposto pela exploração econômica.

Veronika não realizou um espetáculo. Apenas tentou aliviar um incômodo, como qualquer ser senciente faria. O extraordinário está no fato de que, pela primeira vez, alguém decidiu observar sem desprezo.

Esse estudo amplia uma discussão importante. Ao reconhecer a complexidade cognitiva de animais explorados obriga a sociedade a repensar políticas públicas, modelos de produção e a própria ética que sustenta a relação entre humanos e outras espécies.

Ignorar descobertas como essa já não cabe mais. O que está em jogo não é curiosidade científica. É o direito básico de bilhões de indivíduos que seguem sendo tratados como coisas, apesar de demonstrarem, todos os dias, que estão longe disso.

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