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LEVANTAMENTO

Tutores de cães não reconhecem sinais sutis de dor nos animais, aponta estudo

Pesquisa mostrou que comportamentos como agitação noturna e apego excessivo são confundidos com tédio ou desobediência. Falha pode atrasar tratamento e até aumentar risco de mordidas.

2 de abril de 2026
Roberto Peixoto
6 min. de leitura
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Foto: Adobe Stock

Metade dos tutores de cães não consegue identificar que seus animais estão com dor quando os sinais são discretos.

É isso o que aponta um estudo publicado nesta quarta-feira (1º/04) na revista científica “PLOS One”, conduzido por pesquisadores da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos.

O levantamento avaliou 647 pessoas:

  • 530 tutores de cães
  • e 117 que não tinham o animal.

O estudo concluiu que sinais como agitação à noite, apego excessivo ao tutor e encurtamento do passeio raramente são associados à dor.

E problema não é exclusivo de quem nunca conviveu com cães. Na maior parte dos casos analisados, tutores e não tutores erraram na mesma proporção ao julgar comportamentos sutis.

A diferença apareceu apenas nos sinais mais óbvios: quando o cachorro manquejava ou mantinha uma pata levantada, quase todo mundo acertou.

O que passou despercebido foi justamente o que não chama tanto atenção, o animal que se cola ao tutor, que acorda inquieto de madrugada, que encurta o passeio sem razão aparente.

No estudo, os participantes receberam a descrição de três casos hipotéticos e precisavam indicar a causa mais provável do comportamento.

No caso do cão com dor sutil, as respostas mais comuns apontaram para tédio ou comportamento aprendido — não para dor.

No caso do animal que mancava, o resultado foi o oposto: quase todos identificaram a dor imediatamente.

O estudo também testou os 17 sinais comportamentais listados na literatura veterinária como possíveis indicadores de dor.

Mudança de personalidade, alteração de humor e redução da brincadeira foram os mais reconhecidos.

Já bocejo, farejamento no ar e lambida do focinho foram os menos associados à dor, embora constem na literatura científica como sinais relevantes.

“Um caso mostrando dor por meio de mudanças comportamentais, como se grudar ao tutor e ficar agitado à noite, foi muito menos reconhecido como um caso de um cão com dor — com tédio sendo indicado como razão mais provável para as mudanças de comportamento”, disse ao g1 a professora Ineke van Herwijnen, da Universidade de Utrecht e autora principal do estudo.

Uma hipótese levantada pela pesquisa é que tutores experientes podem estar sendo prejudicados pelo próprio conhecimento.

Sinais como congelar no lugar ou virar a cabeça para o lado são ensinados em cursos de adestramento como indicativos de medo ou estresse, e essa associação pode fazer com que a dor nem passe pela cabeça do tutor.

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