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AQUECIMENTO DO OCEANO

Tubarão raro é filmado pela primeira vez nas profundezas da Antártida

Registro feito em água próxima de 1°C levanta hipóteses sobre a presença desses peixes em regiões onde antes se acreditava que eles não existiam

20 de fevereiro de 2026
Ligia Moraes
3 min. de leitura
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Foto: Minderoo-UWA Deep-Sea Research Centre, Inkfish, Kelpie Geoscience via AP/Reprodução

Pela primeira vez, um tubarão foi filmado por uma câmera científica em águas profundas próximas à Península Antártica. O animal, identificado como um tubarão-dorminhoco, apareceu nas imagens a cerca de 490 metros de profundidade, onde a temperatura da água era próxima de 1,27°C.

Pesquisadores afirmam que a presença do tubarão nesse ambiente foi surpreendente porque existe, entre especialistas, uma regra geral de que esses animais não seriam encontrados em águas tão frias e extremas. O exemplar registrado tinha entre 3 e 4 metros de comprimento, o que reforça a relevância do achado.

Segundo o pesquisador Alan Jamieson, diretor fundador do centro de pesquisa responsável pelo equipamento, não há registros anteriores documentando tubarões tão ao sul no Oceano Antártico.

O animal foi filmado sobre um fundo marinho profundo e pouco iluminado, em uma zona onde a luz solar praticamente não chega. Nas imagens, uma arraia aparentada aos tubarões aparece imóvel no leito oceânico, sem reação à passagem do predador, espécie cuja presença já era conhecida em latitudes tão austrais.

Como esses tubarões conseguem viver em águas quase congelantes?

Os pesquisadores observaram que o tubarão se mantinha em uma faixa considerada relativamente mais “quente” dentro das camadas de água do oceano, que são estratificadas. Isso significa que diferentes camadas possuem temperaturas e densidades distintas, com pouca mistura entre elas, especialmente devido ao contraste entre águas frias profundas e o aporte de água doce do gelo derretido na superfície.

Esse ambiente altamente estratificado pode criar nichos térmicos que permitem a sobrevivência de espécies adaptadas ao frio extremo. Os tubarões-dorminhocos, conhecidos por seu comportamento lento e metabolismo adaptado a águas frias, podem encontrar nessas profundidades condições mais estáveis do que nas camadas superiores.

Mudanças climáticas podem estar influenciando a distribuição das espécies?

Especialistas consideram que o aquecimento dos oceanos pode, em tese, influenciar a distribuição de espécies marinhas em direção a regiões mais frias, embora ainda haja poucos dados sobre mudanças de alcance próximas à Antártida. A principal dificuldade é a própria falta de monitoramento contínuo na região, que permanece isolada e com poucos equipamentos de observação instalados em grandes profundidades.

Outra hipótese levantada pelos pesquisadores é que esses tubarões sempre tenham habitado a região, mas tenham passado despercebidos por décadas devido à baixa densidade populacional e à escassez de câmeras operando nessas profundidades específicas. A maioria dos equipamentos científicos na Antártida funciona apenas durante o verão do hemisfério sul, entre dezembro e fevereiro, deixando grande parte do ano sem observação direta.

Os cientistas ainda avaliam que outros tubarões podem viver em profundidades semelhantes, alimentando-se de carcaças de baleias, lulas gigantes e outros organismos que afundam até o fundo do oceano.

Fonte: Revista Veja

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