O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã fortaleceu a urgência de acelerar a transição energética, senão pelo clima, ao menos pela segurança dos países. No entanto, o cientista Carlos Nobre teme um efeito inverso, com a expansão da exploração de petróleo e gás e o estímulo ao consumo. Algo que será trágico para a Humanidade, já que resultará em um aumento ainda maior da temperatura média global.
Nobre participou do seminário “O papel dos países e da cooperação multilateral no roteiro global” (assista aqui), o primeiro da série “Mapa do Caminho para longe dos combustíveis fósseis”, promovida pela parceria entre Observatório do Clima, ClimaInfo e Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis. E alertou que o prazo para eliminar petróleo, gás e carvão encurtou. Ou zeramos as emissões dos combustíveis fósseis até 2045, ou o planeta poderá aquecer 2,5°C até 2050.
“A elevação das temperaturas nos últimos anos indica que vamos atingir 1,5°C de forma permanente até 2030. Se formos zerar as emissões dos combustíveis fósseis somente em 2050, vamos passar de 2°C, possivelmente chegando a 2,5°C. Por isso, precisamos zerar essas emissões até 2040, no mais tardar em 2045. Ainda assim, o aumento da temperatura chegaria a 1,7°C”, disse.
Nobre integra o grupo científico que apoia a presidência da COP30 na elaboração do mapa do caminho para além dos combustíveis fósseis, bem como a organização da conferência de Santa Marta, na Colômbia, que discutirá o tema em abril. Também no seminário, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e a ministra do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, reforçaram o papel da ciência como guia nas discussões, bem como a sinergia entre as iniciativas.
“Estamos começando um movimento extremamente positivo, que é buscar também caminhos econômicos. Além disso, as duas iniciativas vão permitir que todos possam se manifestar nesse tema. Santa Marta conclamou a sociedade civil. E vai ser um dos inputs mais importantes do mapa do caminho global”, afirmou Corrêa do Lago.
Até o momento, 45 países já confirmaram presença na conferência colombiana, e metade deles enviará representantes de alto nível, segundo Irene. Entre as confirmações há nações produtoras de petróleo e gás, incluindo países da Europa e da América do Norte, de acordo com a ministra.
“Santa Marta chega em um momento de crise máxima, que põe a dependência dos combustíveis fósseis na crista da onda. Esperamos mover a agenda, já que o tema era tabu, tanto pela dependência econômica dos países quanto pelo lobby das petroleiras. E desenhamos uma metodologia que possa contribuir com o roadmap. Produziremos um relatório focado na superação da dependência econômica, em um novo balanço da matriz energética mundial e no multilateralismo, e o entregaremos à presidência da COP30”, explicou Irene.
O que torna o momento atual tão particular e perigoso é que a crise geopolítica e a crise climática não se somam linearmente, destaca o Neomondo. A instabilidade nos mercados de petróleo e gás seria, em tese, uma oportunidade histórica para acelerar a transição. Mas, como alertou Nobre, a resposta imediata de muitos governos tem sido aumentar a produção, ampliar os subsídios e garantir o abastecimento pelo caminho mais curto. Irene nomeou a contradição com precisão: “Este momento pode ser uma oportunidade – mas não automaticamente. Depende das decisões políticas que se tomem.”
Por isso, André de Andrade, diretor de Programa da Secretaria-Executiva do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e responsável pelo mapa do caminho global na pasta, destacou no seminário a necessidade do roadmap ter uma trajetória clara, previsível e com marcos indicativos para subsidiar políticas públicas. Além disso, ressaltou que a eliminação dos combustíveis fósseis precisará de financiamento e exigirá o redirecionamento dos fluxos de capital.
Andrade ainda reforçou que a transição energética precisa ser justa e garantir segurança econômica aos países. “Ela precisa proteger empregos e receitas que não gere ruído na estabilidade econômica global dos países. Sem segurança econômica, é muito difícil sustentar politicamente uma transição.”
Fonte: ClimaInfo