O relatório mensal produzido pelo C3S, Serviço de Mudança Climática do observatório espacial europeu, Copernicus, alerta que o mar esteve aquecido de forma preocupante em março, chegando perto do recorde histórico de 2024. O mês passado teve a segunda temperatura da superfície do mar (TSM) mais alta já registrada, refletindo uma provável transição para condições de El Niño durante o ano, afirma o boletim.
A TSM média na zona fora dos polos foi de 20,97°C. O março mais quente já registrado foi em 2024, durante o último evento El Niño. Em fevereiro daquele ano, os oceanos enfrentaram temperaturas acima dos 21°C.
“Os dados do Copernicus para março de 2026 contam uma história preocupante: 1,48°C acima dos níveis pré-industriais, a menor extensão de gelo marinho no Ártico já registrada para março e temperaturas da superfície do mar se aproximando novamente de máximas históricas. Cada dado é impressionante por si só — juntos, eles retratam um sistema climático sob pressão constante e crescente”, afirmou Carlo Buontempo, diretor do C3S.
No Brasil, a temperatura alta dos mares mostra impactos na economia. Em Santa Catarina, que cultiva 91% da produção nacional de ostras, produtores relatam perdas que chegam a 80% ou até 90% dos cultivos, em um evento considerado inédito e que já impacta a oferta do produto no mercado.
Em relação à temperatura do ar, março de 2026 foi o quarto mais quente já registrado, com aquecimento global de 1,48°C acima dos níveis pré-industriais (registros meteorológicos feitos no período 1850-1900). A temperatura média global do ar na superfície foi de 13,94°C.
O aquecimento dos oceanos impacta a formação de gelo nos polos. No Ártico, que é formado majoritariamente por um oceano congelado, a extensão média do gelo marinho em março foi 5,7% abaixo da média, a menor já registrada para o mês.
A extensão diária do gelo marinho no continente atingiu seu menor máximo de inverno, empatada com o máximo de inverno registrado em março de 2025.
Na Antártida, o impacto tornou a extensão mensal do gelo marinho 10% inferior à média para o mês. A notícia não é boa, mas ainda assim um alívio após quatro anos de anomalias negativas muito maiores em março (de 20% a 33% abaixo da média), ressalta o Copernicus.
O degelo no polo sul vem afetando espécies icônicas. Nesta quinta-feira (9), a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza declarou o pinguim-imperador e o lobo-marinho-antártico ameaçados de extinção, devido ao impacto sobre a formação de gelo, necessária para abrigar filhotes do pinguim, e também na diminuição de alimento disponível para os lobos-marinhos.
El Niño à vista
A mudança do fenômeno ENSO (La Niña-El Niño), que regula temperaturas do Oceano Pacífico na região do Equador, deve trazer uma nova temporada de El Niño a partir do segundo semestre, segundo diversas agências científicas. No Brasil, o El Niño normalmente aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece grandes volumes de chuva no Sul do País, como ocorrido em 2024.
De acordo com boletim da NOAA (Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), divulgado em 16 de março, há 62% de probabilidade do estabelecimento do fenômeno no trimestre de junho-julho-agosto. A partir do mês de agosto, essa chance aumenta, com probabilidade superior a 80% até o fim de 2026.
Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), a agricultura é um dos setores mais sensíveis aos efeitos climáticos associados ao El Niño, uma vez que alterações nos padrões de chuva e temperatura impactam lavouras e sua produtividade.
Durante esses episódios, que podem durar mais de um ano, “observa-se nas regiões Norte, Nordeste e na porção norte do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, uma tendência de redução das chuvas e maior frequência de períodos de estiagem, o que compromete o desempenho das lavouras e a disponibilidade hídrica”, aponta o instituto.
Na Região Sul, o El Niño costuma estar associado ao aumento dos volumes de precipitação, sobretudo durante o inverno e a primavera, resultando em excesso de umidade no solo. “Esse cenário também pode afetar o manejo agrícola, favorecendo a ocorrência de problemas fitossanitários”, como pragas, destaca o Inmet.
Fonte: Um só Planeta