As mudanças climáticas estão remodelando a vida na Terra em um ritmo sem precedentes. Em todo o mundo, as espécies estão mudando seus habitats, alterando rotas migratórias e se reproduzindo mais cedo em resposta ao aumento das temperaturas. Mas, embora algumas dessas mudanças pareçam adaptativas, os cientistas estão descobrindo cada vez mais que custos ocultos podem comprometer a sobrevivência a longo prazo.
Um novo estudo de 17 anos sobre a nidificação de tartarugas-cabeçudas em Cabo Verde revela exatamente essa tensão. Pesquisadores da Queen Mary University of London e ambientalistas da ONG Associação Projeto Biodiversidade relatam que o aquecimento dos oceanos está antecipando a nidificação em uma das populações de tartarugas-cabeçudas mais importantes do mundo. Contudo, ao mesmo tempo, a diminuição da produtividade oceânica está reduzindo a frequência com que as fêmeas se reproduzem e o número de ovos que põem.
O estudo, publicado na revista Animals , mostra que as mudanças climáticas impactam a reprodução das tartarugas marinhas por meio de múltiplas vias interativas.
“As tartarugas marinhas estão ajustando seu ciclo reprodutivo às temperaturas mais quentes, o que demonstra uma notável capacidade de flexibilidade”, afirma Fitra Nugraha, autora principal do estudo e professora da Queen Mary University de Londres. “Mas, ao mesmo tempo, a parte do Oceano Atlântico da qual elas dependem para se alimentar está se tornando menos produtiva — e isso está silenciosamente reduzindo sua capacidade reprodutiva.”
Nidificação mais precoce, intervalos mais curtos, mas esperas mais longas entre as épocas de reprodução
Os pesquisadores descobriram que temperaturas mais elevadas da superfície do mar fazem com que as tartarugas cheguem e façam seus ninhos mais cedo na temporada. Temperaturas mais altas também reduzem o intervalo entre ninhos sucessivos, provavelmente porque o calor acelera o desenvolvimento dos ovos.
No entanto, a história muda quando as tartarugas deixam as praias. Com a diminuição da produtividade oceânica em suas áreas de alimentação na África Ocidental, as fêmeas agora fazem pausas mais longas entre as temporadas de reprodução: ao longo de 17 anos, os intervalos entre as ninhadas aumentaram de cerca de 2 anos para 4 anos. Quando retornam, põem menos ninhadas e menos ovos por ninho.
“Da praia, tudo parece um sucesso para a conservação: mais ninhos, desova mais precoce, muita atividade”, diz Kirsten Fairweather, coautora principal e coordenadora científica da Associação Projeto Biodiversidade. “Mas quando se acompanha tartarugas individualmente ao longo de muitos anos, surge um quadro mais complexo. As tartarugas estão se esforçando mais para obter menos retorno.”
Por que a comida é tão importante quanto a temperatura?
As tartarugas marinhas são “reprodutoras de capital”: elas dependem da energia armazenada durante os anos passados se alimentando no mar para impulsionar a reprodução. O estudo mostra que o declínio da produtividade oceânica — medida por meio de estimativas de clorofila via satélite — está fortemente ligado a intervalos de remigração mais longos, ninhadas menores e menos eventos de nidificação.
Isso significa que as mudanças climáticas afetam as tartarugas por meio de múltiplas vias simultaneamente: o aquecimento altera o momento de reprodução, enquanto as mudanças nas cadeias alimentares marinhas reduzem a capacidade reprodutiva.
“A temperatura sozinha não conta toda a história”, diz Christophe Eizaguirre, autor principal do estudo e professor de Genética Evolutiva e da Conservação na Queen Mary University de Londres. “É preciso proteger as tartarugas marinhas nas praias de desova, mas não só. O que acontece a milhares de quilômetros de distância, em suas áreas de alimentação, determina diretamente quantos ovos elas podem produzir e, portanto, a próxima geração de tartarugas.”
Implicações para a conservação
Cabo Verde abriga dezenas de milhares de fêmeas de tartaruga-cabeçuda em fase de nidificação todos os anos, o que a torna uma população de importância global. O estudo destaca o valor dos esforços de monitoramento de longo prazo liderados por ONGs, que possibilitam a detecção de mudanças biológicas sutis, porém significativas, que estudos de curto prazo não conseguiriam identificar.
Para os ambientalistas, a mensagem é clara: proteger as praias de nidificação continua sendo essencial, mas já não é suficiente.
“Para proteger as tartarugas marinhas em um mundo em aquecimento, precisamos de estratégias de conservação que vão além da costa”, diz Fairweather. “Isso inclui proteger os habitats de alimentação, reduzir as pressões sobre os ecossistemas marinhos e reconhecer que as mudanças climáticas podem prejudicar a reprodução, mesmo em populações que parecem estar prosperando.”
Com o aquecimento contínuo dos oceanos e as mudanças na produtividade, o estudo sugere que o futuro das tartarugas marinhas dependerá não apenas de sua capacidade de adaptação, mas também da rapidez com que a conservação conseguir se adaptar a elas.
Traduzido de Phys.org.