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ESPECISMO

Silêncio humanista, Estado penal e violência como palanque no assassinato do cão Orelha

28 de janeiro de 2026
Anna Viana
7 min. de leitura
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Foto: Reprodução/Redes Socias

No pêndulo político entre a direita e a esquerda, os animais nunca puderam ocupar o centro do debate.

Escrevo este texto no dia 26 de janeiro de 2026. Há 10 dias, o caso Orelha, cão brutalmente assassinado por adolescentes de classe alta em Florianópolis (SC), chega ao conhecimento da Polícia Civil e da imprensa. Desde então, acompanhar as investigações através das redes sociais tem me levado a portais jornalísticos, influenciadores e perfis de políticos ligados ao discurso securitário, cuja pauta da “proteção animal” se associa diretamente à da punição pelo cárcere.

Pouquíssimos dias atrás, o caso ganhou ampla repercussão dentro e fora do Brasil, com notas de repúdio assinadas por representantes de múltiplas nuances do espectro ideológico. Ainda assim, pré-candidatos conservadores e policiais midiáticos lideraram as informações sobre o caso, muitas vezes com exclusividade, sob a prerrogativa de tornar pública uma pauta que parece “unir” lados opostos do jogo político. Afinal, quem não sente o ímpeto de justiça quando se trata de uma violência cometida contra um cachorro?

Um cachorro, este ser inocente pertencente a mais uma espécie que, há 40.000 anos, violentamos, comercializamos, criamos “raças” forçando seus cruzamentos e reproduções, e ainda damos a isso o nome de domesticação, aproximando etimologicamente esta tradição cruel ao conceito de “lar”.

Um argumento muito utilizado por aqueles que corretamente defendem a responsabilização dos agressores é o de que “se fazem isso com um cachorro, amanhã farão com crianças, depois com mulheres, depois com [insira aqui outro grupo humano minorizado]”. O raciocínio se embasa na Teoria do Link (ou Teoria do Elo), que aponta a correlação entre a violência interpessoal e a iniciação através de torturas em não-humanos. Maus-tratos a outros animais na infância sugerem a tendência à repetição para com mulheres, crianças e idosos. A questão fundamental aqui é que, estruturalmente, recorremos a um tipo de “escalada moral” em cujo ápice está nossa própria espécie, reforçando uma empatia ainda condicionada à nossa capacidade de humanização.

A verdadeira alteridade, necessária ao sentimento empático, pressupõe o reconhecimento da diferença, não da semelhança. Mais uma vez, projetamos nossos reflexos em outros seres e anulamos suas distinções fundamentais, estas que são inerentes a quaisquer dois sujeitos, independentemente da espécie à qual pertencem. O efeito disso é o que alguns de nós têm apontado como empatia seletiva.

Enquanto sociedade, a compaixão que, em tese, carregamos pelos animais “domesticados” por nós (isto é, continuamente forçados a se adaptar ao modo de vida humano) jamais se estendeu a outros animais entendidos como produtos para diversas finalidades, sejam elas entretenimento, locomoção, o dito “conhecimento científico” ou, liderando os assassinatos em massa, a alimentação.

Quero dizer que a ética abolicionista não faz concessões, nem entre grupos, nem entre espécies. Ou seja, um ideal de liberdade que não está disposto a assumir suas próprias hipocrisias entrega voz e poder ao conservadorismo. Há quem defenda a não-exploração de grupos e identidades humanas, mas se cala diante da objetificação e violência cometidas contra sujeitos de outras espécies. No meu entendimento, para quem realmente se opõe a um sistema de opressão, a libertação animal deve ser um valor inegociável. Estamos falando de simples coerência.

Acontece que, no caso Orelha, a omissão dessa responsabilidade é o que projeta os discursos de ódio que até então se voltam aos quatro agressores, mas, no segundo seguinte, são recalibrados para sustentar uma narrativa que vai muito além do conceito traiçoeiro de “justiça”. O que está em disputa pelos segmentos que lideram a mobilização deste caso está longe de ser a proteção animal. O caso reacende um tema (este, sim) muito caro a alguns setores.

Em síntese, nosso silêncio permite que Orelha mais uma vez seja objetificado, agora para se transformar em emblema da retomada da discussão sobre a maioridade penal no Brasil. Não à toa, as manifestações organizadas em todo Brasil pedindo justiça por Orelha estão sendo amplamente divulgadas – mais que isso, capturadas – por personalidades reconhecidas por defender interesses armamentistas e glorificar o sistema carcerário.

Na complexa teia política, um espaço de luta não ocupado se torna apropriável, e temas a princípio desconexos são rapidamente enjambrados numa falsa lógica argumentativa que sustenta uma posição final que parece óbvia. Em outras palavras, o palanque do punitivismo como mecanismo de controle só se monta quando não há quem derrube seus alicerces. Impedir que isso ocorra através da presença e da voz ativa seria o papel revolucionário de quem defende a democracia.

Sobre este tema, para além da dosimetria da pena a ser aplicada, mas ainda considerando que a ampla maioria de cidadãos concorde que os adolescentes devam ter sua liberdade restringida, cabe dizer que, como regra geral, a legislação brasileira prevê a internação como medida socioeducativa possível apenas quando há ameaça grave a pessoas. Perceba: seja um indivíduo favorável ou não à redução da maioridade penal, há que se admitir a fragilidade dos direitos animais em nossa Constituição.

Infelizmente, esse não é o ponto central da narrativa que envolve a responsabilização dos assassinos. O que interessa é instaurar um novo capítulo político em ano eleitoral, agora se apropriando de uma crueldade indefensável, reconhecida por todos os espectros ideológicos.

Neste episódio do fazer político brasileiro da última quinzena, nossos heróis arquetípicos (os justiceiros, os protetores, os mantenedores do bem e da ordem) reafirmam o poder da comunicação dando voltas retóricas para dizer que não se sentem “intimidados por influência”, e que, “mesmo sendo de família rica, esses jovens precisam pagar pelos seus crimes”. Em paralelo, outro cachorro, o Caramelo, que consegue escapar da tentativa de afogamento praticada pelos mesmos adolescentes, é virtuosamente adotado pelo delegado que está à frente do caso. Assumindo protagonismo, suas vozes se alinham aos veículos tradicionais de mídia, sustentados pela mesma elite que agora tenta comprar seu silêncio.

O sentido público do acontecimento é então forjado na órbita da punição isolada como solução moral. Mais uma vez, o discurso securitário é reinflamado, abrindo precedentes para o endurecimento penal. É quando irrompe o campo humanista (tardiamente, como de costume), apresentando-se como libertário e emancipatório, na tentativa de atenuar a assimetria. Cientes de suas responsabilidades na disputa de narrativas, seus representantes reafirmam com contundência o caráter seletivo da justiça brasileira: aos pobres e às pessoas não-brancas, pena de morte normalizada. À branquitude e à elite econômica, a impunidade. Que fique registrado, também sou signatária dessa leitura.

Mas há uma vacância onde deveria se posicionar o holofote neste palco. Quem fala pelo grupo a que pertence a real vítima deste caso? O silêncio diante da opressão animal, ou, no máximo, a consideração dos direitos animais como pauta secundária, é o retrato perfeito da raiz estrutural da violência agora que tanto nos revolta. Excluindo a nossa relação com os animais do debate, continuamos hierarquizando vidas, decidindo quais merecem viver e, principalmente, sob o domínio de quem.

Para preservar a memória coletiva da história do cão Orelha e não permitir sua captura por agendas ideológicas discriminatórias, será indispensável ir além da reorientação do discurso. Novamente, vemos as bases da exploração permanecerem intactas enquanto a indignação segue instrumentalizada em meio a comoções tão seletivas quanto efêmeras.

Orelha não precisa de heróis. Animais não-humanos, sem exceção, precisam de respeito.

O imperativo é que tenhamos uma prática condizente com o ideal de justiça que enfaticamente bradamos. “Justo”, portanto, seria a consideração de seres sencientes não-humanos como sujeitos merecedores de direitos, cujo reflexo social conduza a um ordenamento jurídico que efetivamente assegure a dignidade desses indivíduos, seja em tradições a serem abolidas (ou, no mínimo, revisadas), seja em fiscalização e responsabilização rigorosa no cumprimento de leis de proteção animal. Quanto à conduta individual, será igualmente necessário abandonar hábitos culturais e recusar qualquer costume cotidiano que envolva sofrimento, tortura e morte de seres inocentes. Aqui, não há limite ético aceitável. Nenhum projeto emancipatório será possível sem libertação animal.

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