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ESTUDO

Seca no Acre revela recifes de ostra da água doce e um habitat aquático inédito

Formações inéditas foram identificadas no rio Muru durante a estiagem de 2024 e acendem alerta sobre impactos das mudanças climáticas na biodiversidade aquática amazônica

24 de fevereiro de 2026
Karina Pinheiro
5 min. de leitura
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Detalhe da superfície totalmente coberta pelas ostras de água doce. Foto: Fabio Olmos.

Durante a seca extrema de 2024, no estado do Acre, foram expostas plataformas de calcário (calcrete) cobertas por agregações densas da ostra de água doce Bartlettia stefanensis, formando pequenos recifes em diversos trechos do rio Muru. A descoberta foi publicada na Revista científica Acta Amazonica, feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e descreve agregações densas da ostra Bartlettia stefanensis, espécie nativa da Amazônia ocidental, aderidas a plataformas naturais de calcário, conhecidas como calcrete, que se estendem pelo leito do rio.

Até então, a espécie era conhecida por viver fixada em cavidades de rochas debaixo d’água ou em lateritas ao longo das margens dos rios, o que dificultava a observação direta de suas populações. A formação de estruturas semelhantes a recifes, comparáveis às de ostras marinhas, representa um comportamento ecológico ainda não documentado para a fauna de água doce amazônica.

A identificação dos recifes ocorreu durante uma expedição de campo realizada em 22 de agosto de 2024, quando o rio Muru apresentava níveis excepcionalmente baixos. Segundo o biólogo Fábio Olmos, primeiro autor do estudo, a descoberta foi casual e resultado da observação atenta em um cenário de seca extrema.

“O rio estava muito baixo e os afloramentos de calcrete chamavam a atenção, até que notei que havia conchas em alguns. Sou do litoral de São Paulo e conheço bem bancos de ostras e mexilhões. Quando vi aquilo, pensei: ‘o que isso está fazendo aqui?’”, relata.

Segundo Olmos, que também é colunista de ((o))eco, a ausência de registros semelhantes na literatura científica reforçou o ineditismo do achado.

“Eu nunca havia ouvido falar em bancos ou recifes de ostras na Amazônia. Documentamos o achado e, ainda em campo, consultamos colegas e a literatura científica. Não encontramos nada sobre esses recifes de ostras expostos ali. Foi daí que surgiu a ideia de publicar uma nota científica”, explica

De acordo com dados da Agência Nacional de Águas (ANA), o Acre entrou em um quadro progressivo de seca a partir de abril daquele ano, atingindo a classificação de “seca excepcional” entre agosto e outubro. No auge da estiagem, o nível do rio Tarauacá, utilizado como referência hidrológica para a região, variou entre 2,1 e 2,4 metros, bem abaixo da média registrada no período de cheia, quando ultrapassou nove metros.

Durante o trabalho de campo, os pesquisadores encontraram trechos do rio onde o calcrete aparece na superfície e avança sobre o leito, com muitas conchas grudadas. Esses pontos chamaram a atenção de aves como o chupim-grande (Molothrus oryzivorus) e a jaçanã (Jacana jacana), que eram vistas bicando o local em busca de alimento.

“Não é todo dia que se encontra um habitat amazônico ainda não descrito. Espero que essa descoberta estimule mais pesquisas por parte de malacólogos e ecólogos”, afirma Olmos. “Essas ostras dependem de peixes para completar seu ciclo de vida e, ao mesmo tempo, criam habitats que devem ser utilizados por peixes, crustáceos e outros organismos.”

No dia seguinte, ao observar um desses pontos com mais detalhe, a equipe percebeu que a área estava coberta por muitas ostras de água doce mortas ou quase mortas, da espécie Bartlettia stefanensis. As conchas formavam uma camada contínua sobre o fundo do rio, parecida com bancos de ostras do mar. Ao redor, em áreas de sedimento mais mole, também apareceram conchas de outros moluscos mortos, da espécie Mycetopoda soleniformis.

Alguns desses exemplares foram recolhidos e levados para a Coleção de Moluscos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Ao longo do percurso, os pesquisadores encontraram outras áreas semelhantes, algumas com mais de 20 metros de comprimento e cerca de três metros de largura. Não foram vistas ostras presas a troncos submersos ou a estruturas metálicas próximas, o que, segundo o estudo, indica que elas dependem diretamente desse tipo de solo para se fixar.

Mudanças climáticas e risco à biodiversidade

O artigo relaciona diretamente a descoberta e a mortalidade observada ao aumento da frequência de eventos climáticos extremos na Amazônia, associados às mudanças climáticas e ao desmatamento. Estudos recentes indicam que secas severas e cheias intensas têm se tornado mais comuns na região, alterando de forma significativa o regime hidrológico dos rios.

Segundo Gabriel Caram, engenheiro ambiental e membro da equipe da desenvolvedora, do ponto de vista da conservação, a descoberta é muito relevante especialmente em um contexto de intensificação das mudanças climáticas. “O avanço do desmatamento na região amazônica vem alterando o regime dos rios, a qualidade da água e a estabilidade dos habitats aquáticos”.

Caram destaca que muitos desses ambientes que eram historicamente pouco estudados justamente por sua baixa acessibilidade, mas hoje estão mais expostos a pressões ambientais e eventos climáticos extremos. “Isso aumenta o risco de perda de espécies sensíveis ou até endêmicas antes mesmo de serem plenamente conhecidas pela ciência”.

Nesse contexto, os autores alertam que a repetição de secas prolongadas pode comprometer a sobrevivência da espécie a médio e longo prazo.

“Essas mudanças na hidrologia local não apenas aumentam a frequência de eventos de mortalidade, como também podem dificultar a recolonização dos habitats afetados”, afirma o estudo.

Conservação fora do radar

A ostra Bartlettia stefanensis já foi classificada como Vulnerável no Brasil e atualmente consta como “Dados Insuficientes” em avaliações nacionais, enquanto é considerada “Quase Ameaçada” em listas internacionais. A descoberta de populações densas no rio Muru amplia a área de ocorrência conhecida da espécie, mas, segundo os autores, isso não reduz necessariamente seu risco de extinção.

“É provável que o status de conservação de Bartlettia stefanensis e de outras espécies de fauna de água doce, até então consideradas pouco ameaçadas, precise ser reavaliado”, conclui o artigo.

Fonte: O Eco

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