Em um cenário de crescentes desafios climáticos, as cidades brasileiras estão atrasadas na adaptação ao novo clima. A constatação é do físico Paulo Artaxo, professor da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Artaxo tem defendido a implementação de políticas públicas efetivas. Ele alerta que áreas costeiras já sofrem com erosões e o avanço do mar. Para ele, até pontos emblemáticas como o Copacabana Palace e o Santos Dumont podem sofrer impactos.
O cientista, que se destaca pela pesquisa em áreas como física atmosférica e poluição urbana, com foco no meio ambiente da Amazônia, reforça que “é fundamental garantir condições dignas para os milhões de brasileiros que vivem na região amazônica, que ainda tem alguns dos piores índices de desenvolvimento humano do país. Não é apenas uma questão ambiental, mas também social e econômica”.
Artaxo irá participar dos debates na COP30, em Belém. Ele é reconhecido por prêmios nacionais e internacionais, e já colaborou com instituições como a NASA e a Universidade de Harvard com contribuições sobre sustentabilidade.
Os estudos apontam que o Brasil deve ser um dos países mais impactados pelas mudanças climáticas. Como isso afeta a segurança alimentar, a saúde pública e o cotidiano das pessoas?
Quando falamos de aumento de temperatura, maior frequência de eventos climáticos extremos e mudanças no regime de chuvas, estamos falando diretamente de impactos profundos no dia a dia das pessoas. A produtividade agrícola vai diminuir, e isso tem consequências socioeconômicas muito graves, sobretudo para as populações mais vulneráveis, que são sempre as mais atingidas.
No caso das cidades, poucas têm hoje estratégias de adaptação consistentes ao novo clima, que já mudou e continuará mudando. Vamos precisar reestruturar redes de drenagem para reduzir o risco de enchentes, investir em infraestrutura e rever o planejamento urbano.
Para se ter uma ideia, em São Paulo, a rede de drenagem foi projetada com base nas chuvas da década de 1950 — completamente inadequadas para a intensidade das chuvas atuais. Isso exige recursos, tecnologia e uma ação muito mais forte das prefeituras e governos estaduais.
Os estudos que o senhor aborda citam que o nível do mar pode subir até 1,5 metro neste século. Quais seriam os impactos para as cidades costeiras do Brasil?
O Brasil tem 8.500 km de áreas costeiras que já estão sendo afetadas. Nos últimos 50 anos, o nível do mar subiu em média 23 a 24 cm. Esse processo não é uniforme: em algumas regiões, como Recife, os efeitos são ainda mais intensos e já vemos erosão significativa.
Isso significa que cidades como Rio de Janeiro, Santos, Vitória e Recife precisam se preparar desde já para mudanças estruturais. No Rio, por exemplo, áreas emblemáticas como o Copacabana Palace, o Santos Dumont e até o Galeão podem ser diretamente impactadas.
Não há dúvida: todas as regiões costeiras serão severamente afetadas. O que precisamos é de planejamento de longo prazo e investimentos para enfrentar essa ameaça, que não é futura — já está acontecendo.
Os compromissos do Acordo de Paris são suficientes?
Infelizmente, não. O que observamos é que a indústria do petróleo, responsável por cerca de 90% das emissões globais, continua ampliando sua produção e suas emissões, colocando em risco 7,7 bilhões de pessoas.
Isso significa que, se não limitarmos a exploração e o uso de combustíveis fósseis, estaremos condenando o planeta a um cenário cada vez mais instável. A COP30 e as próximas conferências do clima precisam criar mecanismos mais duros para frear essa expansão. Esse é um ponto estratégico para o Brasil e para o mundo.
Qual é o papel da Amazônia no equilíbrio climático?
A Amazônia é absolutamente central. É uma área gigantesca, com uma evapotranspiração enorme, responsável por regular o balanço de vapor d’água da atmosfera e, consequentemente, o regime de chuvas em várias partes da América do Sul.
Além disso, concentra uma biodiversidade única, essencial para o equilíbrio do planeta. Por isso, o Brasil precisa estruturar políticas que acabem com o desmatamento até 2030, como está comprometido no Acordo de Paris.
Mas não basta preservar a floresta: é fundamental garantir condições dignas para os milhões de brasileiros que vivem na região amazônica, que ainda tem alguns dos piores índices de desenvolvimento humano do país. Não é apenas uma questão ambiental, mas também social e econômica.
O que a comunidade científica espera da COP30?
A ciência já cumpriu seu papel: temos cenários muito confiáveis sobre o futuro do clima, sabemos os riscos e conhecemos as alternativas. O que falta é vontade política. O que a comunidade científica espera é que os governos finalmente escutem mais a ciência e menos a indústria do petróleo e do desmatamento.
Hoje, os interesses econômicos dessas indústrias ainda pesam mais do que as necessidades da população. Se quisermos um planeta minimamente sustentável nas próximas décadas, precisamos mudar essa dinâmica e colocar os interesses da sociedade em primeiro lugar.
Fonte: CNN