Mais de 200 tartarugas marinhas foram encontradas mortas no trecho entre a Lagoa do Peixe, em Mostardas, e o Chuí, na fronteira com o Uruguai, no Rio Grande do Sul, em uma área considerada estratégica para a biodiversidade marinha brasileira. O registro foi feito por pesquisadores que atuam no monitoramento da região pela Universidade Federal de Rio Grande (Furg) e do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Nema).
De acordo com organizações ambientais que acompanham o caso, há suspeita de que os animais tenham sido vítimas de captura acidental em redes de pesca industrial. Como não possuem valor comercial, as tartarugas acabam descartadas no mar.
A pesquisadora Angela Kuczach, que participou das expedições na área, afirma que há indícios de irregularidades na atividade pesqueira. Segundo ela, embarcações foram avistadas operando “a cerca de 1,5 milha da costa”, apesar de a legislação proibir a pesca de arrasto a menos de 12 milhas náuticas.
Para a professora Silvina Bota, do Instituto de Oceanografia da Furg, o volume é considerado alto, mas não é incomum no verão, quando há presença dos animais na região e aumento da atividade pesqueira. “Infelizmente é bastante comum encontrar números elevados de tartarugas mortas em janeiro e durante o verão em geral, porque ocorre uma sobreposição entre a área onde elas estão se alimentando e as operações de pesca. Muitas acabam caindo nas redes e se afogam, porque precisam subir à superfície para respirar “, disse ela ao portal GZH.
O episódio ocorre em um momento preocupante. No mês anterior, foram registradas 139 toninhas (pequenos golfinhos costeiros) mortas na mesma região. Em novembro, outras 82 carcaças do pequeno golfinho haviam sido contabilizadas.
O período entre primavera e verão concentra maior intensidade de atividade pesqueira e coincide com fases sensíveis do ciclo reprodutivo de espécies marinhas.
Ecossistema raro
O Albardão integra uma extensa faixa contínua de praia que combina dunas, lagoas, banhados e áreas. Há espécies como tartaruga-cabeçuda, tartaruga-de-couro, toninha, golfinho-de-Lahille, além de tubarões, raias e aves marinhas.
Apesar da relevância ecológica, a área ainda não possui proteção formal como parque nacional. A formalização da unidade de conservação é estratégica para fortalecer a fiscalização e garantir equilíbrio entre conservação e outras atividades.
O processo para criação do Parque Nacional do Albardão tramita desde 2008. A proposta prevê a implementação de uma unidade de proteção integral e de uma Área de Proteção Ambiental (APA). A demora ocorreu por conta de alterações solicitadas pelo governo do Rio Grande do Sul, já incorporadas ao projeto, que estaria na fase final antes de envio à Casa Civil.
Fonte: Um só Planeta