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INTOLERÂNCIA

Quando a fé se afasta da compaixão: Padre afirma que igreja “não é lugar de cachorro” durante missa em Várzea Alegre (CE)

Durante a celebração, o religioso também afirmou que não está na igreja para salvar cães e disse que quem discordar de sua posição deveria levar o animal para casa.

11 de março de 2026
Redação ANDA
4 min. de leitura
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Foto: Divulgação

O padre Cícero da Silva, vigário paroquial de Várzea Alegre (CE), fez uma declaração durante a missa que contraria valores centrais do cristianismo ao comentar a presença de um cachorro dentro da Igreja Matriz de São Raimundo Nonato.

Ele criticou a presença de um cão que, segundo afirmou, teria quase mordido uma criança e disse que já havia retirado o animal do altar em outras ocasiões. Durante a fala, declarou que não está na igreja para salvar cães, mas a alma das pessoas, e acrescentou que quem não concordar deveria levá-lo para casa. Em outro momento assegurou que a igreja não é lugar de cachorro e sim de gente.


A Bíblia valoriza a misericórdia e o cuidado com toda a criação. Afastar um animal de um espaço religioso como se fosse uma presença indigna ignora a compaixão presente nas Escrituras.

No livro do Gênesis, Deus cria os animais e declara boa toda a criação. O ser humano recebe a responsabilidade de cuidar da Terra e de tudo o que nela vive. Essa responsabilidade é um dever de proteção e não de dominação.

O livro dos Provérbios afirma que o justo cuida da vida de seus animais. O ensinamento é simples e profundo. A justiça também se expressa na maneira como os seres humanos tratam outras criaturas. Crueldade ou indiferença não aparecem como virtudes.

Nos Salmos surge outra referência importante. O texto afirma que Deus salva pessoas e animais e que todos aguardam dele o alimento. A vida animal não está fora do olhar divino. Ela faz parte da mesma ordem da criação.

O livro de Jonas traz um exemplo ainda mais claro. No final da narrativa, Deus demonstra preocupação com os habitantes de Nínive, inclusive os muitos animais presentes na cidade. A compaixão divina alcança todos os seres que compartilham aquele espaço.

Essa consciência está presente na tradição de muitos santos. Francisco de Assis tornou-se símbolo universal de fraternidade com os animais e com a natureza. Em seus ensinamentos chamava as criaturas de irmãos e irmãs e via nelas sinais da presença divina. O Cântico das Criaturas celebra o sol, a água, a terra e todos os seres vivos como parte de uma mesma comunidade da vida.

Outras figuras da espiritualidade cristã também demonstraram cuidado semelhante. São Filipe Néri defendia animais com extrema doçura e dizia que mereciam respeito e carinho por glorificarem a Deus apenas por existirem. João Bosco ensinava jovens a tratar outras criaturas com bondade Hildegarda de Bingen escreveu sobre o equilíbrio entre humanidade, natureza e vida animal.

Essas referências mostram que dentro do cristianismo existe uma longa tradição de respeito pela vida não humana. A fé que nasce da compaixão amplia o olhar e reconhece toda criatura. Quando esse princípio é esquecido, perde-se algo essencial do ensinamento bíblico e da herança espiritual de tantos que compreenderam que a misericórdia não termina nas fronteiras da espécie humana.

Procurado, o padre preferiu não se posicionar sobre o assunto.

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