Depois de anos de denúncias de maus-tratos, os portões enferrujados do antigo Zoológico de Luján, na Argentina, finalmente se abriram para um novo começo. Gordo e Florencia, dois ursos-pardos que chegaram ainda filhotes ao local, e Flora, uma tigresa-de-bengala, deixaram para trás jaulas de concreto e anos de confinamento para iniciar uma jornada rumo a santuários especializados na Europa.
O fechamento do espaço, decretado em 21 de fevereiro de 2020 após a constatação de graves irregularidades, deixou dezenas de animais em uma espécie de limbo. Paralelamente, ativistas pelos direitos animais e veterinários começaram a correr atrás de dar a possibilidade de uma vida digna para os animais.
“Hoje, restam cerca de sessenta grandes felinos no antigo zoológico de Luján. Há muito trabalho a ser feito, mas essas primeiras transferências são uma mensagem de esperança para todos aqueles que já se manifestaram em defesa desses animais”, afirmou Luciana D’Abramo, diretora de programas da Four Paws, ONG responsável pela operação.
A transferência, realizada na segunda-feira (23/02), foi o resultado de semanas de preparação, exames médicos e articulação entre equipes argentinas e internacionais. A missão de emergência se fortaleceu após uma avaliação veterinária abrangente, em novembro de 2025, identificar doenças crônicas, estresse prolongado e condições incompatíveis com padrões mínimos de bem-estar.
Gordo, de 16 anos, pesando quase 350 quilos, apresentava obesidade severa decorrente de sedentarismo e alimentação inadequada. Florencia, de 17, vivia isolada em um pequeno recinto de concreto, com estímulos praticamente inexistentes. Ambos sofriam de problemas dentários e necessitavam de monitoramento constante.
Flora, de dez anos, enfrentava um quadro ainda mais delicado, com unhas encravadas que pressionavam o osso e um canino fraturado. Submetida a cirurgia emergencial durante a missão veterinária, apresentou melhora visível logo após o procedimento. “Treinamos os três animais para entrarem nas caixas com calma. Queremos que eles redescubram a alegria e a brincadeira em seus novos lares”, destacou Amir Khalil, veterinário e líder da missão.
Para evitar mais sofrimento, a equipe investiu em treinamento comportamental baseado em reforço positivo. O objetivo era que os animais entrassem voluntariamente nas caixas de transporte, reduzindo o estresse e dispensando anestesia. “Eles embarcaram sem problemas, sem estresse e sem necessidade de sedação. Hoje foi a confirmação de que todo esse esforço valeu a pena”, comemorou D’Abramo.
A operação contou com o acompanhamento do Ministério do Meio Ambiente argentino e apoio de autoridades nacionais. “Esses animais agora se tornam símbolos de mudança positiva para a proteção animal na Argentina. Mas ainda há muito a ser feito”, reforçou D’Abramo. Segundo ela, a meta é garantir que os cerca de 60 grandes felinos que permanecem no local também sejam transferidos.
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Dois santuários, novas possibilidades
Gordo e Florencia seguiram para o Santuário de Belitsa, na Bulgária, administrado pela Fundação Brigitte Bardot em parceria com a Four Paws. Com mais de 120 hectares de floresta, lagos e áreas naturais, o local oferece condições próximas ao habitat dos ursos-pardos.
“Espero que no ano que vem possamos comemorar o fato de Gordo e Florencia terem hibernado pela primeira vez. A hibernação é uma parte essencial da biologia deles, mas em cativeiro e sob estresse constante isso não acontece”, explicou D’Abramo. Para a equipe, a primeira hibernação será o sinal mais claro de que os ursos finalmente se sentem seguros.
Flora foi encaminhada ao Santuário de Grandes Felinos Felida, nos arredores de Amsterdã, especializado em reabilitação de felinos que sofreram em cativeiro. Lá, terá espaço para se movimentar, estímulos que simulam comportamentos naturais e acompanhamento veterinário contínuo. “O foco será na reabilitação individual, respeitando seu temperamento e priorizando sua estabilidade física e emocional”, declarou a diretora.
“Esta é uma mensagem de esperança para aqueles que entendem que a verdadeira proteção e o bem-estar animal só existem na natureza. Nosso objetivo é que nenhum outro animal tenha que esperar tanto tempo por uma vida digna e que, como sociedade, possamos abraçar essa mudança”, finalizou D’Abramo.