Uma cena transmitida ao vivo em uma plataforma digital sintetiza a escalada de crueldade contra animais em ambientes virtuais fechados. Cerca de duzentas pessoas acompanhavam, em tempo real, um homem que mantinha um cachorro com patas e focinho amarrados enquanto comentários incentivavam que a violência fosse intensificada. O animal acabou morto a tiros. O episódio, segundo o delegado Alesandro Barreto, permanece como um dos mais perturbadores já acompanhados pelo órgão.
Barreto é coordenador-geral do Ciberlab, setor do Ministério da Justiça responsável pelo combate a crimes no ambiente digital. Ele relata que transmissões desse tipo têm se tornado mais frequentes, especialmente em comunidades fechadas que utilizam o Discord para exibir agressões como forma de entretenimento coletivo. Nas palavras do delegado, o que mais chama atenção é a naturalização da brutalidade, tratada pelos participantes como um jogo.
O uso dessas plataformas para a difusão de violência não se restringe a crimes contra animais. Nos últimos dias, o Ciberlab apoiou a Polícia do Rio de Janeiro em uma operação contra um grupo que planejava ataques a adolescentes e pessoas LGBTs durante um show em Copacabana. Em outras ocasiões, investigações apontaram articulações de agressões a moradores de rua e crimes sexuais organizados em comunidades digitais semelhantes.
Dados da Safernet indicam que, no primeiro trimestre de 2025, as denúncias envolvendo o Discord cresceram mais de 170 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre os principais registros estão apologia à violência, incitação a crimes contra a vida, homofobia e pornografia infantil. De acordo com o Ciberlab, o aumento mais preocupante envolve transmissões ao vivo de cenas de extrema crueldade, muitas delas direcionadas a animais.
Pesquisadores que acompanham o avanço de discursos extremistas na internet apontam que a estrutura do Discord favorece esse tipo de prática. A plataforma funciona por meio de servidores fechados, com acesso restrito por convite, o que dificulta o monitoramento externo e a atuação do poder público. Diferentemente de redes voltadas à ampla circulação de conteúdo, esses espaços produzem material para consumo interno, reforçando vínculos e estimulando a radicalização.
Outro fator citado é o modelo de moderação, em grande parte delegado aos próprios administradores dos canais. Para especialistas, isso cria um ambiente propício à perpetuação de abusos, já que quem controla os espaços muitas vezes compartilha das mesmas ideias e práticas violentas exibidas nas transmissões.
Em meio à repercussão dos casos, parlamentares passaram a pressionar por medidas mais duras. Um pedido de suspensão do Discord no Brasil foi encaminhado ao Ministério Público Federal, com base na recorrência de crimes articulados ou exibidos na plataforma. Em resposta, a empresa afirmou manter política de tolerância zero para atividades ilegais e declarou colaborar com autoridades brasileiras, inclusive com ações preventivas.
Apesar das promessas, investigadores e pesquisadores alertam que as cenas mais graves costumam ocorrer ao vivo e não ficam armazenadas, o que dificulta a coleta de provas. Para organizações de defesa animal e dos direitos humanos, o cenário expõe a urgência de mecanismos mais eficazes de controle e responsabilização, diante da transformação da violência contra animais em espetáculo digital.