Depois da inauguração da Via Mangue – corredor de 4,5 km na Zona Sul do Recife –, dia 13 deste mês, uma personagem pouco comum nos dias atuais foi vista “transitando” no que restou da mata ciliar da Bacia do Pina. Habituada a andar em grupo, a capivara estava sozinha. Ainda que houvesse outras escondidas por perto, o passeio solitário retrata bem a condição do maior roedor do mundo, cuja população no Nordeste vem sendo reduzida, ano após ano, pela perda do habitat e caça indiscriminada.
“Em muitos municípios da região elas não são mais encontradas. Foram extintas localmente”, informa o biólogo Edson Leal, coordenador do Laboratório de Ecologia e Biodiversidade do Instituto Tecnológico de Pernambuco (Itep). Ele explica que a capivara é muito cobiçada por caçadores porque, além de aproveitarem a gordura e o couro, a carne do roedor tem sabor semelhante a do porco, com a vantagem de ser mais magra. “Elas também são mortas porque se alimentam em plantações de milho”, diz.
Edson Leal lembra que a espécie já foi tão abundante em Pernambuco que o Rio Capibaribe recebeu este nome em homenagem a ela – significa Rio das Capivaras (Caapiuar- y-be ou Capibara-ybe) em tupi. O ciclo de devastação do habitat do animal, que vive nas matas ciliares de rios e lagoas, começou no século 16, com a exploração da canade- açúcar e a construção dos engenhos. Depois, olarias se instalaram nas margens dos rios e começaram a escavar a área para produção de tijolos e telhas, necessários para a construção das cidades. “Por fim, com o processo de desenvolvimento urbano, foram as grandes edificações que engoliram as matas ciliares”, pontua o biólogo.
Hoje, os roedores estão restritos ao que restou do manguezal e da vegetação nativa. Segundo Edson Leal, obras como a Via Mangue contribuem para reduzir ainda mais o habitat dos roedores, pois exigem a supressão de parte da mata. “Elas ficam mais vulneráveis porque usam essas áreas para se alimentar e se reproduzir”, explica, informando, entretanto, que moradores de prédios nas margens dos rios, no Recife, têm registrado a presença de uma ou outra capivara.
A única forma de garantir a perpetuação da espécie é preservar o manguezal que ainda resta e recuperar a mata ciliar dos rios, segundo o biólogo. Ele ressalta que nem todo projeto urbano tem impacto negativo e cita o Parque Linear Caminho das Capivaras – proposta de ocupação das margens do Rio Capibaribe desde a Várzea até a Ponte Velha, no Centro do Recife – como uma obra que pode ajudar a proteger os mamíferos, pois inclui a preservação de áreas verdes.
O Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) dessa obra constatou que, nesses 30 km de trecho urbano do rio, vivem 18 espécies de anfíbios e répteis, 59 de aves, oito de morcegos e 28 de mamíferos terrestres. Entre eles, a capivara.
Curiosamente, enquanto o mamífero escasseia no Nordeste, nas regiões Sul é Sudeste ele se multiplica por falta de predadores naturais, como as onças e os jacarés. Essa situação contrastante é uma mostra do desequilíbrio ambiental, provocado por um desenvolvimento que está longe de ser sustentável.
Fonte: Clip TV News