Por treze anos a farroupilhense Maria do Carmo Bitencourt, 68, e a cachorra Pantera foram inseparáveis. No início de maio, quando chegou o momento de dar adeus ao animal, que na reta final de vida sofreu com câncer nos ossos, a tutora e seus três filhos fizeram questão que a cadela, da raça cimarron, sentisse, até o último suspiro, o quanto foi amada. Foi essa a razão principal para a família optar por realizar a eutanásia domiciliar, um serviço pouco conhecido, que tem uma médica veterinária caxiense como pioneira.
– Escolhemos a eutanásia para não sermos egoístas diante do sofrimento dela. Era muito doloroso ver a Pantera cair, chorar de dor e não conseguir mais fazer pequenos trajetos para fazer as necessidades dela. Seria cruel prolongar aquilo apenas para mantê-la conosco. Na despedida, pudemos dizer o quanto ela era amada, o quanto faria falta e que jamais seria substituída. Nosso maior conforto foi deixá-la cercada de amor até o último momento de vida – conta Karen Bite1ncourt, 45, filha de Maria do Carmo.
Foi a experiência após a perda de um cachorro, três anos atrás, que fez a veterinária caxiense Caroline Fagundes ver que poderia oferecer a eutanásia a domicílio como um serviço a mais dentro do atendimento especializado em geriatria e cuidados paliativos para cães e gatos que presta junto a clínicas parceiras.
– Por ter o treinamento para isso, eu realizei a eutanásia no meu próprio cachorro, que teve um diagnóstico de câncer e morreu três dias depois. Mas foi a primeira vez que realizei o procedimento em casa, e foi uma experiência completamente diferente: pude reunir a família, deixá-lo deitado na caminha em que ele já estava acostumado, e acho que pude proporcionar a ele a morte mais tranquila possível. Foi aí que pensei que a maioria das pessoas não tinha aquela mesma possibilidade – explica.
Caroline comenta que, embora seja parte do trabalho veterinário, a eutanásia costuma ser um procedimento desconfortável também para a maioria dos colegas, razão pela qual muitos clientes chegam até ela recomendados por outros profissionais.
– Até hoje, nunca vi um veterinário oferecer essa opção de fazer a eutanásia em casa para o tutor. Eventualmente pode ocorrer, se ele já atende o paciente a domicílio, mas não costuma ser uma opção. O que acredito é que o animal vai descansar mais tranquilo com aquela pessoa com quem ele já está acostumado. Sempre sugiro que o cliente esteja junto até o fim, também por ser importante para o tutor ver o animal deitadinho, descansando, quando, às vezes, a última imagem que ele tinha era do bichinho internado e sofrendo – diz a profissional.

Caroline foi a responsável por atender a cachorra Pantera em seus últimos três meses. Tanto a decisão pela entrada em atendimento paliativo quanto a escolha pela eutanásia foram tomadas junto com os tutores.
– É sobre priorizar qualidade de vida num contexto em que não se busca a cura para a doença, mas sim deixar o animal o mais confortável possível, com o mínimo de medicamento possível. A gente sempre parte de uma pergunta: “você ficaria surpreso se o seu cão ou gato morresse daqui a um ano?” Se a resposta for não, é porque ele já se enquadraria em cuidados paliativos, aponta a especialista.
Quando indicar a eutanásia?
Embora a prática seja proibida para humanos no Brasil, a eutanásia em animais é legalizada. O procedimento é feito em três fases e dura cerca de 10 minutos desde a aplicação de um tranquilizante, seguida de um anestésico, até a aplicação de um medicamento que provoca uma parada cardíaca fatal, já com o animal inconsciente.
– Não se trata de ter uma preferência pela eutanásia, mas de reconhecer que, na maioria dos casos, a morte natural não é tranquila, nem bonita. O Código de Ética da profissão indica a eutanásia quando não existe uma cura e quando o animal está em sofrimento, mas considera também outros fatores, como limites financeiros. E tem de ser uma decisão mútua entre veterinário e tutor. A razão principal é trazer um sentimento de libertação, de que a partir daquele momento animal e tutor estarão aliviados e mais confortáveis. Se houver dúvida quanto a isso, neste caso a orientação é sempre não fazer – explica Caroline.
Para a família Bitencourt, por mais difícil que tenha sido se despedir da mascote, poder proporcionar a Pantera um fim digno valeu cada lágrima derramada.
– Nós sabíamos que seria difícil, especialmente para a minha mãe (Maria do Carmo), mas eu disse: mãe, fica atenta aos sinais que ela está dando de sofrimento e segue o teu coração. Na hora tu vais saber o que fazer, que nada mais é do que aquilo que a gente queria poder fazer pelos nossos familiares, se fosse permitido, ou pela gente mesmo, sabendo até onde a gente é capaz de suportar a dor e o sofrimento – afirma Kelly Bitencourt.
Sociedade ainda minimiza luto por perda de um animal, diz psicóloga

A aptidão de Caroline em lidar com sensibilidade questões envolvendo o fim da vida chamou a atenção da equipe do Luspe, instituto de psicologia voltado para situações de luto e perda que atua em diferentes frentes, desde grupos de apoio a pais enlutados até cursos de qualificação para profissionais de áreas relacionadas ao cuidado. Para a psicóloga Josiane Soares, integrante do Luspe, a dor pela perda de animais de domésticos se enquadra no que a psicologia compreende por luto não reconhecido, quando a pessoa não encontra um espaço legítimo de acolhimento, nem se sente confortável para compartilhar sua angústia, por não sentir que sua dor é validada.
Perder um animal pode ser uma experiência extremamente dolorosa e transformadora para as famílias. Se perde uma companhia, uma rotina de afeto, uma presença cotidiana. Ainda assim, essa dor segue sendo frequentemente minimizada, silenciada ou até banalizada socialmente, o que faz com que o luto seja muitas vezes vivido de forma solitária e invisível. Isso atravessa, também, as equipes que prestam esse cuidado, destaca a psicóloga.
Josiane ressalta a importância do papel que o veterinário pode ter no sentido de ajudar as famílias a atravessar o luto desde o diagnóstico da doença terminal. Razão esta que motivou a aproximação com a veterinária Caroline Fagundes, que atualmente trabalhar com o Luspe na elaboração de um curso, previsto para ser oferecido no segundo semestre. O objetivo é oferecer recursos práticos e emocionais para qualificar o cuidado no ambiente clínico, mas também contribuir para acolher os profissionais que carregam silenciosamente o peso das perdas que acompanham rotineiramente.
– O médico veterinário ocupa um papel profundamente humano e essencial. Muito mais do que cuidar da saúde física dos animais, estes profissionais também testemunham as despedidas e acompanham momentos de sofrimento, tendo a possibilidade de transformar a dor em experiências de respeito, dignidade e validação das necessidades de cada família. Os cuidados paliativos e a eutanásia domiciliar podem representar não apenas conforto e alívio, mas também presença, amor e a possibilidade de honrar o vínculo até o último instante. Mesmo diante da impossibilidade de cura, ainda há muito cuidado possível – destaca Josiane Soares.
O diagnóstico que salvou a vida da cadelinha Mel

Quando procuraram a veterinária Caroline Fagundes, o casal caxiense Greice Borges e Rodrigo Maciel acreditava estar próximo de precisar tomar a decisão mais difícil sobre a cachorrinha Mel, uma maltês de 16 anos. Sem caminhar há uma década e apresentando sinais de confusão mental, ansiedade e inversão do sono, a cadela já comprometia também a rotina do casal, que trocava a noite pelo dia.
– A Mel chegou porque eles estavam na dúvida se era hora ou não de fazer a eutanásia nela. Em função dos sintomas e de não ter o diagnóstico, eles não conseguiam identificar se ela estava ou não em sofrimento. E não apenas ela, como também eles já não conseguiam mais ter qualidade de vida – relata Caroline.
Durante a consulta, porém, a veterinária identificou que Mel sofria de síndrome cognitiva canina, condição semelhante ao Alzheimer em humanos. A partir disso, a cachorrinha passou a receber acompanhamento geriátrico e medicações específicas para controlar os sintomas.
– Com o tratamento correto, hoje nem se conversa mais sobre a possibilidade de eutanásia da Mel – explica a veterinária.
Para o casal, que mora em Ana Rech, o atendimento especializado foi determinante para compreender que, apesar da idade avançada e das limitações físicas, ainda era possível oferecer conforto e bem-estar à companheira.
– A Mel é como uma filha para nós, mas com a idade avançada o que ocorre é a mesma necessidade que um humano tem de receber cuidados que respeitem o fato de já não ter condição de fazer uma cirurgia ou passar por uma fisioterapia mais intensa. A gente cuidou muito bem dela ao longo da vida e para a velhice a gente quer que ela possa viver a sua velhice da forma mais tranquila possível – comenta Rodrigo.
Fonte: GZH