A operação “Acabou a Farra” desarticulou na tarde desta sexta-feira (22/05) um grupo responsável por realizar uma Farra do Boi e perseguir moradores na Costa da Lagoa, em Florianópolis (SC). A ação foi deflagrada pela DPA/DIC (Delegacia de Proteção Animal do Departamento de Investigação Criminal da Capital).
A Costa da Lagoa, ponto turístico da capital, só é acessada por barco ou por uma trilha em mata fechada de aproximadamente 8 quilômetros. Por isso, foi necessário apoio de diversas unidades policiais da Grande Florianópolis, que usaram embarcações da Polícia Militar Ambiental.
Os suspeitos são investigados pelos crimes de maus-tratos a animais, associação criminosa, lesão corporal e coação relacionados à Farra do Boi realizada no fim do mês de Abril.
Nesta sexta, foram cumpridos 28 mandados de busca e apreensão, tanto na região da Costa da Lagoa, como nos bairros Lagoa da Conceição e Ingleses do Rio Vermelho.
As equipes apreenderam diversos equipamentos eletrônicos, como DVRs para recuperação de imagens, e celulares, os quais foram encaminhados para a perícia técnica e continuidade das diligências investigatórias.
A operação contou com a participação de 42 policiais civis e 16 policiais militares, além de oito embarcações e duas motos aquáticas da Polícia Militar Ambiental.
“Um dos nossos principais objetivos é também mostrar a presença do Estado na comunidade, para que, além de criminosos serem responsabilizados, moradores que não compactuam com esses crimes possam retomar as suas vidas com tranquilidade”, destacou a delegada responsável pela operação, Mardjoli Valcareggi.
Moradores foram perseguidos
Como foi adiantado pelo ND Mais, o boi foi levado amarrado até a comunidade, pela água, e sofreu muitos açoites na madrugada no dia 28 de abril. O grupo investigado por associação criminosa se reuniu sob o pretexto de realizar um encontro de lanchas.
Após a prática, o grupo deixou o animal amarrado em um local público e outros moradores da Costa da Lagoa se mobilizaram para soltá-lo. Com isso, eles foram intimidados por não compactuarem com a Farra do Boi. Uma mulher de 23 anos, nativa da região, relatou ter sido agredida fisicamente por dois homens e uma mulher do grupo.
Um dos moradores que denunciaram o caso foi Bruno Porreca Ferreira Cunha, que ajudou equipes do GOR (Grupo de Operações e Resgate Voluntário) a resgatarem o animal no dia 1º de maio.
Segundo a PM, o grupo tentou retirar à força os equipamentos da equipe de resgate e incitaram a população contra os agentes, além dificultar o acesso dos policiais ao local. A equipe do 4º Batalhão, que prestou apoio ao GOR, relatou que os suspeitos até perseguiram as equipes usando barcos e jets skis.
“A gente levou o boi e deixou ele num lugar seguro. Logo em seguida, eu voltei para minha casa e comecei a receber muita ameaça. Mesmo o pessoal sabendo que eu sou advogado começaram a me ameaçar. Eu fui obrigado a deixar minha casa e as pessoas que participaram do resgate, que auxiliaram, que filmaram, começaram a receber ameaça”, afirmou.
Foram cumpridos 28 mandados de busca e apreensão, tanto na região da Costa da Lagoa, como nos bairros Lagoa da Conceição e Ingleses do Rio VermelhoVídeo: Divulgação/Polícia Civil/ND Mais
Segundo Bruno, uma mulher de 23 anos foi agredida fisicamente porque testemunhou a Farra do Boi e foi contra os maus-tratos. Ela registrou boletim de ocorrência e entrou com uma ação na área criminal.
“Uma guria de 23 anos, nativa da Costa da Lagoa, foi espancada covardemente por dois caras e a esposa de um deles justamente por ser testemunha”, completou.
Farra do Boi rende multa de até R$ 20 mil
Embora muitas vezes defendida por participantes como uma tradição de raiz açoriana, a Farra do Boi é considerada crime no Brasil desde 1998, sob a égide da Lei 9.605/1998, que tipifica abusos, maus-tratos, ferimentos ou mutilações de animais.
A prática consiste em soltar o animal em um campo para que ele seja perseguido, provocado e agredido pelos presentes.
A prática, proibida há quase duas décadas, gera estresse extremo e sofrimento físico ao animal. Geralmente, a prática costuma ser realizada durante o período da Quaresma.
Quem promove ou divulga a atividade pode ser multado em R$ 20 mil, além das sanções penais previstas em lei.
A Polícia Militar orienta que qualquer cidadão que presencie movimentações suspeitas ou flagrantes de Farra do Boi denuncie imediatamente através do número 190.
Fonte: Nd+