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AMEAÇA

Plano da Petrobras exclui resgate de peixes-bois na nova fronteira do petróleo

24 de junho de 2026
Fernanda Wenzel
12 min. de leitura
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Peixe-boi-marinho. Foto: acervo da FMA

Em outubro de 2025, a Petrobras começou a perfurar o fundo do mar na região onde o Rio Amazonas deságua no Oceano Atlântico, após um longo e controverso processo de licenciamento ambiental. No centro do debate estavam as preocupações com a fauna única que habita a costa do Amapá e do Pará, bem como as dúvidas sobre a capacidade da empresa de resgatar os animais em caso de derramamento de óleo.

Entre as potenciais vítimas estão aves marinhas, tartarugas e os recifes de coral descobertos recentemente na costa amazônica. Um mamífero marinho ameaçado de extinção, no entanto, causa especial preocupação devido aos desafios envolvidos em um possível resgate: o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus), espécie que pode atingir cerca de 3,5 metros de comprimento e pesar, em média, 700 quilos; alguns indivíduos chegam a 1.600 quilos.

“Manejar e transportar animais com essa massa exige logística complexa e equipamentos de grande porte”, afirmou a bióloga marinha Fábia de Oliveira Luna, coordenadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Com uma população estimada em e uma taxa reprodutiva de um filhote a cada quatro anos, “cada indivíduo removido prejudica a manutenção da população”, disse Luna à Mongabay.

Segundo cientistas, o projeto petrolífero também coloca em risco um código genético único, compartilhado apenas pelos animais dessa região e resultado do cruzamento entre o peixe-boi-marinho e seu parente de água doce, o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis).

O peixe-boi-marinho ocorre em toda a região do Caribe e está classificado como vulnerável na Lista Vermelha da IUCN. A subespécie Trichechus manatus manatus, que habita a zona costeira que se estende das Bahamas ao Brasil, teve sua classificação na IUCN elevada para “em perigo”.

No Brasil, a redução populacional reflete uma cultura de caça que persiste na região Norte do país, onde o animal é visado por sua carne, couro e gordura. Mais recentemente, os animais também passaram a ser expulsos de seus refúgios costeiros pela expansão do setor imobiliário, segundo o pesquisador e veterinário João Carlos Gomes Borges, que afirma ter se encantado pelo olhar indefeso do peixe-boi há 35 anos.

“Embora seja um animal aparentemente grande, quando olho para o peixe-boi, sempre parece que ele precisa de cuidado”, disse Borges, que trabalha com o resgate e a reabilitação da espécie no litoral do Nordeste.

As perfurações da Petrobras estão concentradas no chamado poço Morpho, localizado a 179 quilômetros da costa do Amapá e a cerca de 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas.

O poço faz parte da bacia sedimentar da Foz do Amazonas, uma das várias bacias que compõem a Margem Equatorial. Essa nova fronteira de exploração petroleira se estende Oceano Atlântico adentro, onde a Petrobras espera encontrar 10 bilhões de barris de petróleo. Caso essa estimativa se confirme, as reservas poderão impulsionar o Brasil como uma nova potência petrolífera e abrir toda a Margem Equatorial à exploração.

Em abril, o Brasil aprovou planos de empresas interessadas em explorar outros 19 blocos na região, e a Petrobras solicitou autorização ao Ibama para perfurar três novos poços na área.

O Ibama, porém, alertou que essa área “não encontra similaridade com nenhuma outra bacia produtora do país em termos de riqueza e sensibilidade socioambiental”. Por isso, “é natural que a estrutura de emergência e atendimento à fauna em caso de vazamento de óleo também seja, obrigatoriamente, sem precedentes”, escreveram especialistas do órgão em uma nota técnica publicada em 2025.

O plano de proteção à fauna da Petrobras, que detalha como a empresa pretende atuar em caso de derramamento de petróleo, foi rejeitado cinco vezes pelo Ibama. Sua sexta e última versão também foi considerada insuficiente pelos técnicos da autarquia. Ainda assim, o plano foi aprovado pelo então presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, em meio à forte pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defende publicamente os planos da Petrobras.

“O Plano de Emergência Individual – PEI apresentado pela Petrobras foi considerado insatisfatório por todos os corpos técnicos pelos quais passou”, afirmaram os procuradores da República no Amapá, que assim como os procuradores do Pará buscam a revogação da licença ambiental concedida à Petrobras. Organizações ambientalistas também criticaram a decisão de Agostinho.

Em resposta por e-mail à Mongabay, a Petrobras afirmou que “atendeu a todos os requisitos estabelecidos pelo Ibama, cumprindo integralmente o processo de licenciamento ambiental, o que gerou a obtenção da licença para as atividades no poço Morpho, na Margem Equatorial”.

Especialistas do Ibama, porém, apontaram diversas falhas no plano de resgate de fauna da Petrobras. O peixe-boi-marinho estaria entre as espécies mais vulneráveis, já que a empresa considera “inviável” o resgate de peixes-boi e de tartarugas-marinhas com peso superior a 50 quilos.

Segundo a Petrobras, o resgate desses animais, tanto em situações de encalhe quanto na água, exigiria pelo menos oito pessoas, representando riscos tanto para o animal quanto para a equipe. “o animal pode desferir golpes pelos movimentos, principalmente laterais, de sua forte nadadeira caudal, ou com a cabeça, além do risco de autotraumatismo ao tentar se desvencilhar da contenção inadequada”, afirma o plano de proteção à fauna.

A área técnica do Ibama concluiu que o plano “exclui boa parte da megafauna local, a condenando aos efeitos deletérios da contaminação por óleo, que podem levar ao óbito”. Em e-mail enviado à Mongabay, no entanto, a assessoria de imprensa do órgão afirmou que o plano da Petrobras foi “avaliado e considerado apto”. No caso de animais com mais de 50 quilos, as ações de proteção se concentrariam em “medidas de prevenção de acidentes e, em caso de ocorrência, afugentamento dessas espécies”, escreveu o Ibama (leia aqui a íntegra da resposta do órgão aqui).

Barcos encalhados e acidentes

A costa amazônica é a nova fronteira mundial do petróleo, concentrando quase 20% de todas as reservas descobertas recentemente. Guiana, Suriname e Venezuela também têm sido alvos da indústria petrolífera.

Grande parte das preocupações relacionadas à exploração de petróleo na região decorre das condições marítimas e climáticas locais, já que a navegação ao longo da costa norte da América do Sul pode ser desafiadora. A área é conhecida por tempestades frequentes, ventos persistentes e correntes oceânicas três vezes mais fortes do que aquelas observadas na região Sudeste, onde a Petrobras concentra a maior parte de suas operações em alto-mar.

Em duas ocasiões, a empresa enfrentou problemas na região da Foz do Amazonas. Em 2011, as equipes tiveram de abandonar uma plataforma marítima depois que uma broca foi arrastada pelas fortes correntes oceânicas. Em janeiro de 2026, apenas três meses após o sinal verde do Ibama para o poço Morpho, 18 mil litros de um fluido tóxico vazaram durante uma operação de perfuração.

Como etapa final para obter a licença ambiental, a Petrobras precisou demonstrar, na prática, como responderia a um derramamento de óleo. Em agosto de 2025, foi realizada uma simulação de 70 horas, durante a qual a empresa teve de resgatar 17 aves, duas tartarugas e um filhote de peixe-boi-marinho, todos representados por bichos de pelúcia e boias infláveis.

No cenário fictício de emergência proposto pelo Ibama, a equipe da Petrobras precisava responder a um vazamento de fluido sintético em uma situação na qual o resgate aéreo não era uma opção. A complexa operação marítima incluía a transferência dos animais de embarcações maiores, dedicadas aos resgates em alto-mar, para barcos menores que aguardavam no estuário do Rio Oiapoque, e, em seguida, para o centro de reabilitação em Oiapoque, no Amapá.

Para cumprir o prazo de 24 horas estabelecido para o resgate, a Petrobras deixou de seguir sua própria recomendação de segurança, que desaconselhava a transferência de animais durante a noite. Pilotos que navegavam pelo Rio Oiapoque enfrentaram dificuldades para contornar bancos de areia e trechos rochosos, e três acidentes foram registrados. Uma embarcação ficou presa em uma rede de pesca, enquanto outra encalhou em um banco de areia. Em outro incidente, duas embarcações colidiram. Ninguém ficou ferido.

“Os incidentes registrados durante o deslocamento no Rio Oiapoque reforçam a importância da priorização dos critérios de segurança”, escreveram os analistas do Ibama.

Embora a empresa tenha conseguido resgatar a réplica dos animais dentro do tempo previsto, o Ibama observou que as condições meteorológicas durante o exercício foram especialmente favoráveis. “Sabe-se, porém, que esta não é a realidade da região, que comumente apresenta condições climáticas e de mar mais adversas”, escreveram os técnicos.

O órgão também identificou diversas falhas durante o exercício, incluindo a falta de suprimentos básicos, como bolsas térmicas para os animais, que precisaram ser improvisadas com luvas cirúrgicas cheias de água morna. Em determinado momento, as duas embarcações designadas para operar em alto-mar estavam fora da área do acidente, impedindo a realização de novos resgates.

A simulação incluiu o resgate de um filhote de peixe-boi-marinho fictício, supostamente atropelado por uma embarcação. Os analistas do Ibama elogiaram a capacidade técnica da equipe no atendimento à réplica do animal, mas criticaram o tempo levado para transportá-lo até o centro de atendimento veterinário.

“A situação evidenciou falhas na comunicação entre a equipe presente no local do acidente e aquela responsável pela alocação dos recursos”, escreveram.

As colisões com barcos são uma grande preocupação para grandes animais marinhos, já que muitas embarcações são necessárias para dar suporte às operações petrolíferas em alto-mar. “O trânsito de embarcações, a meu ver, é um fator de atenção muito maior do que a própria atividade de exploração [de petróleo]”, afirmou o veterinário Borges.

O ruído dos motores também pode dificultar a comunicação entre mães e filhotes de peixe-boi debaixo da água. Uma vez separados de suas mães, os filhotes podem acabar encalhados na costa.

Um tesouro genético em risco

A Petrobras afirmou em seu plano de proteção à fauna que existe uma probabilidade “zero” de um derramamento de petróleo atingir a costa, habitat tradicional dos peixes-boi-marinhos. “A atividade em si seria em um local muito distante, que seria o extremo de probabilidade de uso dos peixes-bois”, disse Borges, que coordena um projeto patrocinado pela Petrobras para a proteção do peixe-boi-marinho na região Nordeste.

Apesar de serem mamíferos marinhos, esses animais precisam permanecer próximos a estuários para beber água doce e dar à luz em águas calmas. Há evidências, porém, de que alguns indivíduos podem explorar áreas distantes da costa, conforme descreveram especialistas do Ibama em uma nota técnica de 2024.

Há até um caso emblemático de um peixe-boi chamado Tico, que foi reintroduzido por um projeto de conservação no litoral do Ceará e nadou 5 mil quilômetros até a Venezuela.

O comportamento desses mamíferos é ainda mais imprevisível nos estados do Pará e do Amapá, onde vive uma população única. Pesquisadores descobriram que os peixes-boi que habitam a área sob influência da foz do Rio Amazonas possuem um genoma distinto, resultado da combinação do DNA do peixe-boi-marinho e do peixe-boi-da-amazônia. Essa variação genética deu origem a indivíduos adaptados a viver em uma região fortemente influenciada pelo Rio Amazonas, o maior rio do mundo em volume de água.

“É um ambiente único, com uma salinidade única, uma quantidade de sedimentos e uma incidência de luz muito diferentes”, afirmou a bióloga Camilla Savicius de Lima, doutora em genética e coautora do estudo. “Os indivíduos híbridos estariam mais adaptados a estas condições do que qualquer um dos outros dois, tanto o amazônico quanto o marinho”, disse ela à Mongabay.

Segundo Lima, esses peixes-boi híbridos tendem a passar menos tempo em áreas estuarinas do que seus parentes do Caribe. No entanto, são necessárias pesquisas mais aprofundadas para compreender melhor o comportamento desses animais e as áreas que ocupam. “Mexer no ambiente antes de entender o ambiente é muito complicado. A gente não sabe quais são os possíveis impactos.”

Também não é possível descartar que eventuais derramamentos de petróleo atinjam a costa, conforme afirma uma nota técnica do Ibama. Segundo o órgão, “quantidades significativas de óleo poderiam se desprender com o passar do tempo e derivar por meses, ressurgindo, inclusive, em áreas costeiras”. O Ibama citou o desastre da Deepwater Horizon, em 2010, quando uma gigantesca plataforma de petróleo no Golfo do México espalhou óleo por até 800 quilômetros, alcançando inclusive o litoral dos Estados Unidos. Pesquisadores estimam que o desastre matou 1 milhão de aves e até 173 mil tartarugas-marinhas.

No caso da Foz do Amazonas, um vazamento que atingisse a costa contaminaria o maior cinturão contínuo de manguezais do mundo — uma área inacessível por terra e com navegação costeira complexa, o que tornaria qualquer tentativa de resgatar peixes-bois ainda mais desafiadora.

Há também o fenômeno da pororoca, quando a maré alta na costa atlântica faz com que ondas de até 4 metros de altura avancem rio acima. “São ondas que adentram os rios e trazem uma limitação de navegação muito importante”, disse Borges.

Segundo Luna, a bióloga marinha, os peixes-bois-marinhos seriam diretamente expostos à camada de óleo quando viessem à superfície para respirar. A contaminação também pode ser transmitida da mãe para o filhote. O petróleo ainda pode dificultar o deslocamento e a orientação dos animais ao obstruir suas vibrissas — os pequenos pelos que cobrem seu corpo e funcionam como sensores. O ruído sísmico utilizado nas atividades de exploração também pode afetar outros mamíferos aquáticos.

Como parte das exigências do licenciamento ambiental, a Petrobras instalou dois centros de atendimento e reabilitação de fauna em Belém, no Pará, e no município de Oiapoque, no Amapá, que, segundo a empresa, estão preparados para atender mamíferos marinhos. A companhia também se comprometeu a apoiar instituições que já atuam no resgate e na reabilitação de peixes-bois no Pará.

A Petrobras suspendeu os trabalhos no poço Morpho por mais de dois meses após o acidente com o fluido ocorrido em janeiro de 2026. A empresa afirma que espera concluir a perfuração do primeiro poço no segundo trimestre deste ano, mas novas perfurações ainda serão necessárias para confirmar a existência das reservas de petróleo.

Fonte: Mongabay

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