Pela primeira vez no mundo, o DNA de um leão foi usado com sucesso para condenar caçadores, em um caso considerado um marco diante da aplicação de ciência forense na proteção da vida selvagem. A informação foi revelada em reportagem da BBC News.
O episódio ocorreu no Parque Nacional de Hwange, no Zimbábue, após autoridades suspeitarem do desaparecimento de um leão macho monitorado por colar de rádio. A investigação levou à identificação dos responsáveis e à condenação de dois homens a um total de 24 meses de prisão.
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Como a ciência fechou o cerco?
Segundo a BBC, investigadores encontraram uma armadilha com pelos de leão após o colar de monitoramento do animal parar de funcionar. Em seguida, a polícia localizou, na aldeia de suspeitos, três sacos de carne, 16 garras e quatro dentes do felino.
O diferencial do caso foi exatamente a etapa posterior: o cruzamento genético. Amostras recolhidas dos restos do animal foram comparadas com um banco de DNA de leões do país — construído a partir de coletas anteriores de animais monitorados.
Os perfis coincidiram, permitindo identificar a espécie e o indivíduo exato morto. Antes dessa tecnologia, as autoridades conseguiam apenas comprovar que partes pertenciam a leões, o que frequentemente não bastava para condenações.
“Agora conseguimos basicamente vincular aquelas garras ou aqueles produtos ao leão específico que estamos investigando”, afirmou o cientista do Victoria Falls Wildlife Trust (VFWT) responsável pela análise, que pediu anonimato por segurança.
Mudança
No Zimbábue, a simples posse de partes de leão nem sempre configura crime, pois pode ser atribuída a ornamentos tradicionais antigos ou a animais mortos naturalmente. Essa brecha jurídica, no contexto histórico, dificultou processos.
Com a identificação individual por DNA, a ligação entre o animal morto e os suspeitos se tornou comprovável em tribunal.
A prova genética foi apresentada apenas 10 dias após a morte do leão. Para Richard Scobey, diretor executivo da organização Traffic, o caso demonstra que “os países agora têm capacidade forense para levar aos tribunais evidências robustas baseadas em ciência”.
O avanço científico ocorre em um momento de preocupação com a caça de leões. Os últimos dados não são favoráveis e relatam aumento da demanda por ossos, dentes e garras, vendidos como objetos culturais na África, além de usados na medicina tradicional chinesa.
Entre 2010 e 2023, ao menos 426 leões foram mortos em Moçambique em incidentes envolvendo humanos. Grandes apreensões também incluíram a interceptação de 17 crânios de leão em Lusaka (2021) e mais de 300 kg de partes do animal em Maputo (2023).
Fonte: Um só Planeta