No meio da paisagem da Nova Doca, em Belém (PA), uma estrutura metálica coberta por plantas chama a atenção de quem passa. São os chamados “jardins suspensos” — feitos de vergalhões reciclados e sustentados por floreiras — que surgiram como alternativa para gerar sombra nas áreas onde, segundo o governo, não seria possível plantar árvores. A intervenção, feita às vésperas da COP30, conferência do clima das Nações Unidas que será realizada na cidade em novembro, virou, porém, rapidamente alvo de críticas de pesquisadores, lideranças indígenas e movimentos ambientais.
A ideia foi apresentada pela arquiteta Naira Carvalho, da Secretaria de Obras Públicas do Pará (Seop), como solução inspirada em projetos urbanos de Cingapura. “O objetivo foi reduzir as ilhas de calor em Belém. O perfil viário da Doca não dispõe de espaço para plantio de árvores na fase jovem ou adulta de médio e grande porte, somente muda que não estariam gerando sombra no período do evento”, explicou.
Segundo o Governo do Pará, o projeto prevê a instalação de 80 estruturas na Nova Doca e outras 100 no parque linear da Nova Tamandaré – espaços de integração entre os canais e a cidade -, ambos incluídos nas obras de requalificação urbana da Belém para os eventos da COP30. Mas o que seria apresentado como inovação ecológica, rapidamente foi classificado por organizações e especialistas como “aberração ambiental”.
“Você mora numa região tropical, numa cidade da Amazônia, onde há um baixo nível de arborização e diversas iniciativas de reflorestamento poderiam ser aproveitadas. Mas optaram por árvores artificiais de vergalhão com intenção de produzir sombra. Isso extrapolou todos os limites”, afirma o pesquisador Leandro Valle Ferreira, do Museu Paraense Emílio Goeldi.
A polêmica aumentou após o governo inicialmente chamar as estruturas de “árvores artificiais”. Após críticas, o termo foi substituído por “jardins suspensos” nos canais oficiais.
Falta de planejamento
Para Ferreira, o argumento do Governo do Pará de que o solo da região inviabiliza o plantio não se sustenta. “Se está cimentado, quebra. Isso até melhoraria o escoamento de água para os canais, evitando alagamentos. Várias espécies crescem em dois anos. Se tivessem plantado em 2023, teríamos um corredor lindo e com a cara da Amazônia”, afirmou. “Belém precisa de árvores nativas. Essas intervenções não estão preocupadas com o equilíbrio térmico nem com a qualidade de vida do belenense.”
A COP do Povo, coalizão de movimentos sociais que denuncia a exclusão popular no processo de preparação da cúpula climática, também repudiou a obra. “O descaso do governo não se resume aos cuidados com a floresta, mas também à falta de conhecimento sobre a própria Amazônia”, diz nota divulgada pelo coletivo. “A nossa Amazônia é viva. A Floresta é real, não artificial.”
Claudelice Santos, coordenadora do Instituto Zé Claudio e Maria, reforça o descontentamento. “Desde que foi decidido que a COP seria aqui, por que não plantaram árvores? Em vez disso, estão derrubando floresta em Belém e construindo árvores de concreto”, questiona.
Miriam Tembé, liderança indígena do Pará, destaca a ausência de diálogo com os povos originários. “Para o sombreamento, usamos muito o ingá, jambo, a própria manga. Mas isso seria sugestão que poderíamos ter feito se tivéssemos sido consultados. Mas o governo não dialoga com os povos indígenas e não quer nada verde de verdade”, considera.
O pesquisador Leandro Valle Ferreira critica ainda a falta de diálogo com a comunidade científica. Ele aponta que espécies como pau-pretinho, mamorana, ipês e até variedades menores de mangueiras, como a manguita, poderiam ter sido plantadas, se tivesse planejamento. “São espécies que crescem rápido, fornecem sombra, não entopem bueiros, têm raízes que não quebram calçada e ainda produzem frutos. Se tivessem planejado, dariam conta do recado”, critica.
Pará ignorou diretrizes
Apesar da urgência climática e da visibilidade internacional trazida pela COP30, o Governo do Pará ignorou diretrizes técnicas já consolidadas no próprio município, afirmam especialistas. Em vigor desde 2013, o Manual de Arborização Urbana de Belém estabelece orientações detalhadas para o plantio de árvores, inclusive em calçadas estreitas, passeios pavimentados e áreas com pouca permeabilidade do solo.
O documento recomenda a adaptação do calçamento, o uso de espécies nativas de crescimento rápido e a criação de canteiros verdes como formas viáveis de arborizar espaços urbanos. Especialistas apontam que, com planejamento adequado e respeito a essas diretrizes, seria possível criar corredores de sombra com árvores reais, ao invés de improvisar estruturas metálicas às vésperas do evento climático.
Além disso, o “Guia de Seleção de Árvores Ornamentais: Paisagismo Urbano para a Amazônia”, lançado em janeiro de 2024 pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, amplia a diversidade e os benefícios da vegetação urbana. Ele apresenta uma matriz com 151 espécies recomendadas para o paisagismo, sendo 89 adequadas a vias urbanas e 54 a áreas verdes. Algumas são classificadas como de extrema beleza, outras por oferecerem sombra abundante, perfume ou frutos.
Para que seus benefícios sejam efetivos, o também pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi Rafael Salomão reforça que é necessário planejamento. “A escolha das espécies deve considerar o ambiente urbano onde serão inseridas, suas características ecológicas e seu potencial paisagístico. É possível fazer isso sem abrir mão da floresta”.
Segunda cidade mais quente do mundo
Belém deve se tornar, até 2050, o segundo centro urbano mais quente do planeta. A projeção é de um estudo da ONG CarbonPlan em parceria com o jornal americano The Washington Post, divulgado em 2023. Segundo os dados, a capital paraense pode chegar a registrar 222 dias de calor extremo por ano, um salto alarmante em relação aos anos 2000, quando a média era de 50 dias.
O pesquisador Rodrigo Rafael, da Universidade do Estado do Pará (UEPA), explica que esse cenário extremo é consequência direta do modelo de ocupação da cidade. “Belém, desde o início de sua ocupação, não foi construída com um planejamento ambiental urbano. Pelo contrário, a construção das vias e bairros se deu a partir da supressão de áreas verdes”, afirma.
A verticalização desordenada, com prédios erguidos às margens da Baía do Guajará, bloqueia a circulação dos ventos fluviais e agrava o fenômeno das ilhas de calor. E as obras recentes, projetadas para a COP30, segundo o pesquisador, continuam a seguir esse caminho. Ele cita a construção da Rodovia Liberdade, que atravessa uma Área de Proteção Ambiental, e a nova estrada entre as avenidas Augusto Montenegro e Centenário, que suprimiu parte da floresta do Parque Ecológico Gunnar Vingren. Somente essas duas intervenções já removeram hectares de floresta madura com mais de 40 anos de existência.
Com a vegetação substituída por concreto e asfalto, a cidade retém mais calor, especialmente nas regiões periféricas, onde faltam infraestrutura e serviços básicos. “Essas áreas reúnem as condições ideais para a formação de ilhas de calor. E é justamente onde vive a população mais vulnerável, que sofre também com alagamentos e enchentes no período chuvoso”, alerta Rodrigo. Ele prevê que, com o agravamento da crise climática, a sensação térmica na capital pode ultrapassar os 45 °C nos meses mais secos, entre junho e setembro.
Com isso, as “árvores artificiais” do Governo do Pará são uma resposta apressada a uma demanda urgente: reduzir as ilhas de calor de Belém. Mas, para os especialistas ouvidos pela reportagem, a solução deveria vir do básico: plantar árvores de verdade, adaptadas ao bioma amazônico, com planejamento urbano pensado para o futuro e não apenas para o evento climático de novembro.
Fonte: Um Só Planeta