Uma sequência recente de assassinatos e ataques brutais contra cães em diferentes estados do Brasil mostra uma onda preocupante de violência contra animais, muitos deles comunitários. Os casos, ocorridos em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, são fruto da fragilidade dos animais e da resposta insuficiente do Estado diante de crimes que, apesar de previstos em lei, seguem marcados pela impunidade.
Caso Orelha
Em Florianópolis (SC), a morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, se tornou o maior representante dessa escalada. O cachorro era cuidado por moradores da região quando foi gravemente agredido no início de janeiro.
As lesões foram tão severas que não houve alternativa terapêutica, e Orelha precisou ser submetido à eutanásia. Quatro adolescentes são suspeitos de envolvimento no crime, que segue sob investigação da Polícia Civil.
O Caramelo, outro cão comunitário amigo de Orelha, também foi levado ao mar pelo mesmo grupo de jovens. O cachorro conseguiu escapar e foi encontrado sem ferimentos, mas o caso mostra o padrão de violência direcionada a animais indefesos, tratados como descartáveis mesmo quando protegidos pela comunidade.
A morte de Orelha ultrapassou fronteiras e ganhou repercussão internacional, mobilizando veículos de imprensa, organizações de proteção animal e ativistas nos Estados Unidos. O caso foi noticiado em sites estrangeiros e passou a ser acompanhado por defensores dos direitos animais fora do Brasil, que passaram a cobrar responsabilização dos envolvidos e transparência nas investigações conduzidas pelas autoridades brasileiras.
O jornalista e ativista norte-americano Paul Mueller, publicou um texto em seu Facebook sob o título “Search for justice unites Brazil and U.S. animal advocates for beloved beach dog” (“Busca por justiça une defensores dos animais do Brasil e dos EUA por cão de praia querido”). Na publicação, Mueller relata que amantes de animais dos dois países se uniram após a morte brutal de Orelha, descrito como um cão comunitário conhecido e querido por moradores e visitantes da Praia Brava. O texto explica o caso e destaca que o cão era visto como uma presença gentil e familiar na região, e que sua morte causou comoção profunda na comunidade local.
O cantor norte-americano Jimmy Levy também se manifestou nas redes sociais. Ele publicou um vídeo pedindo que os responsáveis pela morte de Orelha enfrentem consequências legais. Na legenda, Levy afirmou: “Como americano, estou pedindo à administração dos Estados Unidos que expulse as crianças responsáveis pela morte de Orelha para que a justiça possa ser feita”. A declaração foi compartilhada por ativistas e perfis ligados à causa animal, ampliando a pressão internacional sobre o desfecho do caso.
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O ator Paul Wesley, que ficou famoso por seu papel em The Vampire Diaries, compartilhou uma postagem em seu story do Instagram pedindo Justiça por Orelha.
Caso Abacate
No oeste do Paraná, em Toledo, a vítima foi o filhote Abacate, de cerca de sete meses, que foi morto por um disparo de arma de fogo no bairro Tocantins. A bala atravessou o abdômen, perfurou o intestino e causou danos irreversíveis aos rins. Apesar de ter sido socorrido por moradores e levado para cirurgia em um hospital veterinário particular, Abacate não resistiu.
Segundo a equipe de Proteção Animal do município, as lesões eram profundas e incompatíveis com a recuperação, indicando uma ação deliberada. Abacate recebia alimentação, água, abrigo noturno e já estava com a castração programada pelos moradores do bairro. Conhecido pelo comportamento dócil, cresceu cercado de afeto. Até o momento, não há suspeitos identificados, e a investigação segue sem respostas públicas, alimentando a sensação de permissividade diante da violência contra animais.
Cão baleado por policial
Na noite de ontem (27/01), em Campo Bom, na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um cão comunitário conhecido como Negão foi baleado por um policial militar durante uma abordagem no bairro Barrinha. O momento foi registrado por uma câmera de segurança.
Segundo o relato da vereadora Kayanne Braga, a Brigada Militar realizava uma abordagem a moradores quando um dos policiais teria pisado na pata do animal. O cão gritou, mas não atacou. Ainda assim, o PM efetuou um disparo.
Negão foi resgatado pela ONG Campo Bom Pra Cachorro e segue internado em uma clínica veterinária.
A região abriga diversos animais comunitários desde a enchente de 2024, que deixou cães desabrigados. De acordo com testemunhas, outros cães estavam no local, todos muito calmos. A Secretaria da Segurança Pública determinou a apuração imediata do caso, que será conduzida pela Corregedoria-Geral da Brigada Militar.
Preocupação com os animais
Como um padrão entre os casos, animais comunitários ou domésticos, reconhecidos por comportamento dócil e convivência pacífica, se tornam alvos de violência extrema, muitas vezes sem que os responsáveis enfrentem consequências proporcionais à gravidade dos atos. Organizações de defesa animal alertam que a repetição desses crimes consequência de uma cultura que ainda relativiza a vida animal e falha em aplicar, de forma efetiva, a legislação.
A sucessão de casos expõe uma falha estrutural na prevenção, investigação e punição de crimes contra animais. Embora a legislação brasileira reconheça maus-tratos como crime, a sensação de impunidade persiste, especialmente quando os autores respondem em liberdade ou não são identificados.