Uma sequência recente de assassinatos e ataques brutais contra cães em diferentes regiões do Brasil mostra uma onda preocupante de violência contra animais, muitos deles comunitários. Os casos, ocorridos em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul, são fruto da segurança frágil dos animais e da resposta ineficiente do Estado diante de crimes que, apesar de previstos em lei, seguem marcados pela impunidade.
Cachorra é arrastada por caminhonete no interior de São Paulo
Não bastasse os casos do cão Orelha e do Abacate, a brutalidade atingiu um nível extremo em Igarapava, no interior de São Paulo. Na noite de domingo (25/01), uma cachorra foi amarrada à traseira de uma caminhonete e arrastada por pelo quilômetros pela cidade. Ela morreu antes de receber socorro e estava grávida de dez filhotes, que também morreram.
O homem que dirigia a caminhonete, Lourival Pereira da Silva, de 65 anos, foi preso em flagrante por abuso contra animais, com agravante pela morte, mas obteve liberdade provisória após audiência de custódia. À polícia, ele alegou que não percebeu a cachorra presa ao veículo e que o neto, de 7 anos, poderia ter amarrado a corda. Testemunhas, no entanto, contradizem essa versão.
O motorista de aplicativo Lucas Fachim relatou que tentou alertar o condutor repetidas vezes, buzinando e gritando para que parasse. Segundo ele, o homem demonstrou estar ciente da situação, afirmando que “a cachorra era dele” e seguindo com o veículo mesmo após os avisos.
Cão comunitário é baleado por policial no Rio Grande do Sul
Na noite de ontem (27/01), em Campo Bom, na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um cão comunitário conhecido como Negão foi baleado por um policial militar durante uma abordagem no bairro Barrinha. O momento foi registrado por uma câmera de segurança.
Segundo o relato da vereadora Kayanne Braga, a Brigada Militar realizava uma abordagem a moradores quando um dos policiais teria pisado na pata do animal. O cão gritou, mas não atacou. Ainda assim, o PM efetuou um disparo.
Negão foi resgatado pela ONG Campo Bom Pra Cachorro e segue internado em uma clínica veterinária.
A região abriga diversos animais comunitários desde a enchente de 2024, que deixou cães desabrigados. De acordo com testemunhas, outros cães estavam no local, todos muito calmos. A Secretaria da Segurança Pública determinou a apuração imediata do caso, que será conduzida pela Corregedoria-Geral da Brigada Militar.
Relembre os casos do cão Orelha e do cão Abacate
Em Florianópolis (SC), a morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, se tornou o maior representante dessa escalada. O cachorro era cuidado por moradores da região quando foi gravemente agredido no início de janeiro.
As lesões foram tão severas que não houve alternativa terapêutica, e Orelha precisou ser submetido à eutanásia. Quatro adolescentes são suspeitos de envolvimento no crime, que segue sob investigação da Polícia Civil.
O Caramelo, outro cão comunitário amigo de Orelha, também foi levado ao mar pelo mesmo grupo de jovens. O cachorro conseguiu escapar e foi encontrado sem ferimentos, mas o caso mostra o padrão de violência direcionada a animais indefesos, tratados como descartáveis mesmo quando protegidos pela comunidade.
No oeste do Paraná, em Toledo, a vítima foi o filhote Abacate, de cerca de sete meses, que foi morto por um disparo de arma de fogo no bairro Tocantins. A bala atravessou o abdômen, perfurou o intestino e causou danos irreversíveis aos rins. Apesar de ter sido socorrido por moradores e levado para cirurgia em um hospital veterinário particular, Abacate não resistiu.
Segundo a equipe de Proteção Animal do município, as lesões eram profundas e incompatíveis com a recuperação, indicando uma ação deliberada. Abacate recebia alimentação, água, abrigo noturno e já estava com a castração programada pelos moradores do bairro. Conhecido pelo comportamento dócil, cresceu cercado de afeto. Até o momento, não há suspeitos identificados, e a investigação segue sem respostas públicas, alimentando a sensação de permissividade diante da violência contra animais.
Grupos de ódio incitam a violência contra os animais na internet
Uma hipótese acredita que morte do cão Orelha, em Florianópolis, pode estar relacionada a um ambiente de radicalização online que estimula a violência extrema contra animais. Especialistas que atuam no combate a crimes digitais explicam que a tortura e o assassinato de animais são práticas recorrentes em comunidades virtuais frequentadas por crianças e adolescentes, fenômeno conhecido como zoosadismo.
Segundo investigadores, esses grupos funcionam em redes sociais, fóruns e plataformas de jogos, onde jovens são incentivados, ou coagidos, a cometer atos de crueldade como forma de pertencimento, desafio ou busca por notoriedade. A violência passa a operar como uma “moeda social” dentro dessas comunidades.
Autoridades alertam que a crueldade contra animais costuma ser apenas a porta de entrada para práticas ainda mais graves, como automutilação, abuso sexual, extorsão e indução ao suicídio. O zoosadismo, dizem especialistas, é um marcador importante de mobilização para a violência.
Para policiais, o consumo excessivo de conteúdos violentos e a exposição prolongada a redes de ódio levam à dessensibilização emocional dos adolescentes, reduzindo limites morais e facilitando a transposição da violência do ambiente virtual para o mundo real.
Embora a Polícia Civil ainda não confirme a influência direta dessas comunidades no caso de Orelha, especialistas afirmam que o padrão observado é semelhante ao de outros episódios ligados à radicalização digital e defendem maior atenção das famílias e das plataformas ao que crianças e adolescentes consomem online.
Repercussão internacional
A morte de Orelha ultrapassou fronteiras e ganhou repercussão internacional, mobilizando veículos de imprensa, organizações de proteção animal e ativistas nos Estados Unidos. O caso foi noticiado em sites estrangeiros e passou a ser acompanhado por defensores dos direitos animais fora do Brasil, que passaram a cobrar responsabilização dos envolvidos e transparência nas investigações conduzidas pelas autoridades brasileiras.
O jornalista e ativista norte-americano Paul Mueller, publicou um texto em seu Facebook sob o título “Search for justice unites Brazil and U.S. animal advocates for beloved beach dog” (“Busca por justiça une defensores dos animais do Brasil e dos EUA por cão de praia querido”). Na publicação, Mueller relata que amantes de animais dos dois países se uniram após a morte brutal de Orelha, descrito como um cão comunitário conhecido e querido por moradores e visitantes da Praia Brava. O texto explica o caso e destaca que o cão era visto como uma presença gentil e familiar na região, e que sua morte causou comoção profunda na comunidade local.
O cantor norte-americano Jimmy Levy também se manifestou nas redes sociais. Ele publicou um vídeo pedindo que os responsáveis pela morte de Orelha enfrentem consequências legais. Na legenda, Levy afirmou: “Como americano, estou pedindo à administração dos Estados Unidos que expulse as crianças responsáveis pela morte de Orelha para que a justiça possa ser feita”. A declaração foi compartilhada por ativistas e perfis ligados à causa animal, ampliando a pressão internacional sobre o desfecho do caso.
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O ator Paul Wesley, que ficou famoso por seu papel em The Vampire Diaries, compartilhou uma postagem em seu story do Instagram pedindo Justiça por Orelha.
Agência de viagens rompe parceria com hotel ligado ao caso Orelha
Uma agência de viagens ERS Viagens e Turismo, de São Caetano do Sul (SP) anunciou nesta quarta-feira (28/01) o rompimento da parceria comercial com a rede responsável pelo Majestic Palace Hotel Florianópolis, Rede Mar Canavieira e Al Mare Florianópolis. A decisão foi comunicada em nota publicada nas redes sociais da empresa.
Segundo a agência, a rede hoteleira pertence aos pais dos adolescentes investigados pela morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC). Os jovens também são suspeitos de tentar afogar outro cachorro, o cão Caramelo, que sobreviveu.
No comunicado, a agência afirmou que não compactua com atitudes que contrariem seus princípios e valores institucionais. “Somos uma empresa que preza pelo respeito, pela ética e pelo cuidado com todos, pessoas e animais. Não compactuamos com qualquer tipo de ação que vá contra nossos valores”, destacou.
A ANDA agradece a atitude tomada pela ERS Viagens e Turismo. A decisão de romper com a rede hoteleira pertence aos pais de adolescentes investigados pela morte de Orelha foi ética e extremamente importante nesse momento.
Preocupação
Como um padrão entre os casos, animais comunitários ou domésticos, reconhecidos por comportamento dócil e convivência pacífica, se tornam alvos de violência extrema, muitas vezes sem que os responsáveis enfrentem consequências proporcionais à gravidade dos atos. Organizações de defesa animal alertam que a repetição desses crimes consequência de uma cultura que ainda relativiza a vida animal e falha em aplicar, de forma efetiva, a legislação.
A sucessão de casos expõe uma falha estrutural na prevenção, investigação e punição de crimes contra animais. Embora a legislação brasileira reconheça maus-tratos como crime, a sensação de impunidade persiste, especialmente quando os autores respondem em liberdade ou não são identificados.
Os ataques e assassinatos recentes motivaram a organização de protestos em diversas partes do Brasil pedindo justiça pelos cães. Neste sábado (31/01), uma manifestação será realizada em Brasília, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo também terão mobilizações no domingo (1º/02), todas em pedido de justiça e pelo fim da violência contra animais.
Em Brasília, ato está marcado para às 16h e contará com uma caminhada pacífica em homenagem ao cão Orelha. O percurso terá início na CLSW 104, nas proximidades do supermercado Dona, seguirá até a CLSW 300 e retornará ao ponto de partida.
No Rio de Janeiro, a concentração tem início às 10h, no Aterro do Flamengo, em frente ao Monumento aos Pracinhas. A caminhada seguirá até o Copacabana Palace, em Copacabana. Outro protesto também circula nas redes sociais para o mesmo dia, com ponto de encontro no Posto 2 da praia de Copacabana, às 16h, e saída às 16h30 em direção ao Leme.
Já em São Paulo, diferentes atos estão previstos para o domingo. Em Sorocaba, a vereadora Jussara Fernandes convocou uma manifestação às 9h, no PetPlace do Parque Campolim, com a participação de representantes da causa animal de cidades da região, como Piedade, Itapetininga, Tatuí e Itapeva. Já na capital, o protesto será realizado a partir das 10h, no vão livre do Masp, na Avenida Paulista.