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MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Onda de calor histórica na Austrália foi cinco vezes mais provável por causa do aquecimento global, aponta estudo

Análise da World Weather Attribution traz ainda que, caso o aquecimento global atinja 2,6 °C acima da média pré-industrial, ondas de calor poderiam se repetir a cada dois anos no país

23 de janeiro de 2026
4 min. de leitura
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Mulher se protege do sol forte de Melbourne, na Austrália, com um guarda-chuva em janeiro de 2026. Foto: Getty Images

Esta semana, a cena de uma jovem boleira desmaiando em pleno jogo do Australia Open, torneio de tênis que acontece na cidade australiana este mês, percorreu o mundo. Naquele momento, a temperatura girava em torno de 28ºC, mas a previsão da semana apontava para 35ºC na semana.

A Austrália está passando pela pior onda de calor registrada desde o chamado “verão negro” de 2019 a 2020, de acordo com reportagem do jornal The Guardian. No início de janeiro, os termômetros marcaram temperaturas acima de 40°C em Melbourne e Sydney, as duas maiores cidades do país, e condições ainda mais quentes em algumas regiões dos estados de Victoria e de Nova Gales do Sul, além de calor extremo também afetando a Austrália Ocidental, a Austrália do Sul e a Tasmânia.

O que pesquisadores da World Weather Attribution (WWA) descobriram, segundo o The Guardian, é que as ondas de calor atuais são cinco vezes mais prováveis em razão do aquecimento global provocado pela ação humana. As ondas de calor são definidas como três dias consecutivos em que as temperaturas máximas ficam acima da média. Na Austrália, esses fenômenos já causam mais mortes do que todos os outros desastres naturais somados.

Em Victoria, o episódio de calor antecedeu incêndios florestais que queimaram cerca de 400 mil hectares e destruíram quase 900 edifícios. De acordo com o relatório da WWA, o efeito das emissões de gases de efeito estufa superou a influência de um fraco fenômeno La Niña, que normalmente está associado a temperaturas mais amenas na maior parte da Austrália continental.

Os autores estimam que a crise climática tornou o evento aproximadamente 1,6°C mais quente, enquanto o La Niña provavelmente reduziu as temperaturas máximas entre 0,3°C e 0,5°C.

“Definitivamente houve um sinal de mudança climática induzida pelo ser humano por trás desse evento”, afirmou a professora Sarah Perkins-Kirkpatrick, uma das coautoras do relatório e cientista do clima da Universidade Nacional Australiana ao jornal.

Segundo a pesquisadora, os impactos das ondas de calor nem sempre são imediatos, mas é algo que se manifesta alguns dias depois do evento, e também pode estar relacionado ao agravamento de doenças preexistentes.

Perkins-Kirkpatrick também chamou atenção para limites físicos de adaptação da população. “A mentalidade de ‘aguente firme que vai dar tudo certo’ já não se sustenta mais. O calor está piorando e, gostemos ou não… há, no fim das contas, um limite do que conseguimos suportar fisicamente.”

No cenário climático atual, a análise indica que eventos semelhantes ao registrado em janeiro tendem a ocorrer aproximadamente uma vez a cada cinco anos. O estudo alerta que, caso o aquecimento global atinja 2,6 °C acima da média pré-industrial — patamar que, com base nas emissões atuais de carbono, é projetado para o fim do século —, ondas de calor desse tipo poderiam se repetir a cada dois anos.

A cofundadora da WWA e professora de ciência do clima no Imperial College London, Friederike Otto, destacou a gravidade do avanço desse tipo de evento extremo. “Como o calor extremo é um dos eventos climáticos extremos mais mortais e está mudando muito rapidamente com o aquecimento global… é importante destacar essas mudanças aceleradas, mesmo que os resultados não sejam nada surpreendentes.”

A WWA é uma colaboração internacional de cientistas que utiliza observações meteorológicas e modelos climáticos para analisar o papel do aquecimento global causado pela ação humana em eventos climáticos extremos. Otto observou que, embora as técnicas empregadas sejam consolidadas, “como disponibilizamos os resultados dias ou semanas após o evento, o estudo da [onda de calor] em si ainda não passou por revisão por pares”.

Fonte: Um só Planeta

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