Quem nunca andou com a cabeça nas nuvens, tentando descobrir nas suas formas rostos, animais ou objetos? O que os investigadores veem, no entanto, está bem distante das nossas fantasias.
À primeira vista, são fenómenos da natureza simples de explicar até para uma criança. Mas a forma como as nuvens são afetadas pelas mudanças climáticas e como isso influencia o aquecimento global é ainda uma área com muitas incertezas para os cientistas que tentam prever futuras tendências do clima.
As metamorfoses das nuvens
As nuvens regulam a temperatura da Terra, refletindo parte da radiação de volta ao espaço e impedindo, assim, que os raios solares aqueçam o solo. Em média, dois terços da superfície do planeta estão cobertos por nuvens.
Mas os investigadores estão agora a perceber que a sua composição, distribuição e quantidade têm vindo a se alterar, com consequências ainda não totalmente conhecidas para o clima.
Uma investigação do Instituto Goddard da NASA revelou, por exemplo, que a cobertura de nuvens reflexivas diminuiu nas últimas duas décadas, permitindo a entrada de mais luz e aumentando o aquecimento global.
Agora, os cientistas têm de investigar o que estará na origem dessas mudanças. Precisam de perceber se estas metamorfoses são uma resposta às alterações climáticas e que impactos podem trazer para o aquecimento do planeta.
Um estudo da Universidade da Califórnia em San Diego, publicado na Nature, sugere que essa alteração pode aumentar o aquecimento global. Entre 1983 e 2009, os investigadores notaram que os topos das nuvens estão mais elevados.
Essa altitude provoca uma maior absorção de radiação solar pela Terra e reduz a emissão de radiação térmica para o espaço, agravando o aquecimento global que, como sabemos, é provocado pelo aumento da concentração de gases com efeito de estufa.
Mudanças a baixa altitude
As nuvens afetam o equilíbrio energético da Terra de formas distintas. As mais baixas refletem fortemente a radiação solar, produzindo um maior efeito de arrefecimento. As mais altas, em contrapartida, provocam um considerável efeito de estufa e contribuem menos para o arrefecimento.
Ao comparar os dados recolhidos desde 1940 e cruzá-los com informações sobre a cobertura de nuvens em várias altitudes, os cientistas concluíram que 2023 foi, no período analisado, o ano com a menor quantidade de radiação solar refletida de volta ao espaço pela superfície e pela atmosfera da Terra.
Não está muito claro, entretanto, por que há menos nuvens baixas. Mas os cientistas desconfiam que o aquecimento global é um dos fatores com maior peso. E, se assim for, podemos esperar um aumento significativo das temperaturas no futuro.
Microplástico e poluição trazem mais cristais de gelo
As nuvens não estão somente a moverem-se ou a desaparecer em altitudes mais baixas. A poluição está também influenciar a sua composição. A equipa da Penn State, nos Estados Unidos, já detetou microplásticos na atmosfera, demonstrando que atuam como nucleadoras de gelo nas nuvens.
O mesmo também está a acontecer, aliás, com a poluição industrial, concluiu um outro estudo de investigadores da Estónia, Canadá e Estados Unidos. As partículas de poluição atuam como sementes que aceleram a formação do gelo nas nuvens, contribuindo para desencadear a queda de neve.
As nuvens de gelo induzidas por poluentes foram encontradas em 67 fábricas de metal, cimento, papel e centrais elétricas na América do Norte, Europa e Ásia. O trabalho, publicado na revista Science, revela ainda que estas nuvens são mais finas, cobrem menos área e refletem menos luz solar.
Soluções temporárias para ganhar tempo
Com o avanço científico, poderia a tecnologia inverter as transformações que estão a ocorrer nas nuvens? Não é uma possibilidade a descartar, mas será prudente manter moderadas as expectativas.
Sombrear artificialmente a Terra poderia ajudar a atrasar o aquecimento global. O branqueamento das nuvens marinhas (Marine Cloud Brightening – MCB) é um dos principais métodos para modificar a radiação solar e compensar os efeitos do aquecimento global enquanto a descarbonização avança.
A técnica está a ser testada na Austrália para tentar reduzir o branqueamento da Grande Barreira de Corais. Mas os efeitos de resfriamento do MCB e as respostas das nuvens aos aerossóis são ainda pouco compreendidos.
Apesar de potencialmente mais eficaz do que modelos anteriores, a inovação é apenas uma mitigação temporária, não uma solução definitiva. Por mais voltas que a ciência e tecnologia possam dar, descarbonizar a economia continua a ser o caminho mais consistente para combater o aquecimento global.
Fonte: Tempo