O crescimento das cidades não transforma apenas a paisagem e a rotina humana; também altera, de forma profunda e duradoura, a maneira como os animais interagem entre si. Essa é a principal conclusão de uma revisão científica internacional que analisou como a urbanização influencia o comportamento social de diferentes espécies ao redor do mundo.
Neste novo trabalho, foram analisados 227 estudos científicos. Os resultados, publicados na revista científica Biological Reviews, mostraram que 92% dos artigos revisados relatam um efeito significativo da urbanização no comportamento social animal.
“As cidades interferem nas relações sociais dos animais muito mais fortemente do que se supunha anteriormente”, disse uma das autoras, Avery L. Maune, que é pesquisadora da Universidade de Bielefeld, da Alemanha, em comunicado.
“O comportamento social influencia se os animais se reproduzem, encontram alimento ou evitam predadores.”
O comportamento social, destacado por ela, engloba todas as interações entre indivíduos, como cooperação ou competição.Nas cidades, o que acontece é que os animais são expostos aos chamados estressores urbanos, que são pressões criadas pelo homem, incluindo ruído do trânsito, luz artificial à noite, abrigo limitado ou poluição química.
A revisão demonstra que esses fatores de estresse podem alterar a forma como os bichos se comunicam, o seu nível de agressividade e a estabilidade dos seus grupos sociais. Os efeitos do ruído são particularmente bem estudados, pois podem mascarar cantos, chamados de alarme ou sinais de cortejo.
O trabalho ainda revelou um forte desequilíbrio nos grupos de animais estudados. Cerca de 62% dos artigos analisados se concentram em aves, enquanto répteis e insetos receberam menos atenção.
Essa diferenciação é relevante porque as respostas à vida urbana variam conforme o estilo de vida das espécies. Por exemplo, animais mais móveis podem evitar áreas densamente urbanizadas, enquanto outros acabam confinados dentro das cidades.
E as mudanças nas relações sociais não se limitam ao comportamento cotidiano. Em muitos casos, afetam diretamente o sucesso reprodutivo, levando ao surgimento de novas estratégias de acasalamento e à fragmentação ou a instabilidade de grupos. Ao longo do tempo, esses processos podem comprometer a viabilidade de populações inteiras.
“Nossas descobertas não são relevantes apenas para a biologia”, enfatizou a pesquisadora Isabel Damas-Moreira, da Universidade de Bielefeld.
“Elas também trazem implicações importantes para a conservação e o desenvolvimento urbano sustentável. As cidades do futuro devem ser habitats, não apenas para humanos.”
Fonte: Um só Planeta