A médica veterinária Cláudia Escalhão, pioneira nos testes do efeito da polilaminina em cães com lesões na medula, defendeu que a cobertura midiática sobre os estudos com a molécula deve deixar mais claro que o funcionamento, seja em animais ou humanos, depende de fatores múltiplos. “Nem todas as pessoas vão se beneficiar, mas algumas vão. Nem todos os cachorros vão ser incluídos, mas alguns vão. E a mídia, às vezes, vende o milagre. Isso não é milagre. Isso é pesquisa”, disse.
A pesquisa fez parte da sua tese de doutorado, defendida em 2015, e orientada pela bióloga Tatiana Sampaio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que lidera a pesquisa da polilaminina na instituição há mais de 25 anos. Na época, 4 dos 11 animais tratados com a molécula voltaram a andar. Outros 3, entre 6 tratados com células-tronco, também apresentaram melhoras.
Cláudia fala, nesta quarta-feira (20), no Congresso Brasileiro da Associação Nacional dos Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa), realizado em Goiânia. Ao POPULAR, ela falou sobre os avanços da pesquisa desde seu doutorado e o andamento do estudo feito hoje. A nova fase começou em 2025 e um dos cães, chamado Teodoro, chegou a dar dez passos, como resultado do tratamento.
Como surgiu a ideia de levar a pesquisa com polilaminina para um modelo clínico veterinário e qual foi o maior desafio naquele momento?
Em 2010, eu fui convidada pela professora Tatiana Sampaio para fazer meu doutorado na Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eu passei nas provas para entrar no doutorado e a professora Tatiana sugeriu fazer a pesquisa em ratos. Mas eu tinha acabado de voltar dos Estados Unidos e já fazia pesquisa com a professora Natasha Olby, da Universidade da Carolina do Norte, que trabalha com lesão medular em cães. Então, sugeri fazer a pesquisa em cães, área na qual eu tinha muito mais experiência. Junto com a dra. Tatiana, conseguimos montar o centro cirúrgico para esses animais na universidade. O maior desafio foi transpor a pesquisa para a medicina veterinária de forma que conseguíssemos os animais certos, porque não foi algo experimental, foi um trabalho clínico. A gente escolheu animais com doença do disco intervertebral toracolombar e animais com fratura toracolombar (ruptura de vértebras na região de transição entre o tórax e a lombar).
Na sua tese de doutorado, vocês trabalharam com cães paraplégicos sem dor profunda há mais de três meses, um quadro considerado difícil de reverter. O que os resultados mostraram de mais promissor?
Na época do meu doutorado, nós fizemos os testes em 11 animais, dos quais 7 melhoraram. Quando a gente fala em “melhorar”, não é o animal voltar a andar, mas há outros parâmetros clínicos e neurológicos que contam. Por exemplo, alguns retomaram a dor profunda, outros tiveram uma recuperação ligada ao padrão do andar, que a gente chama de andar medular. E a gente sabe que a medula é igual ao cérebro. Tudo tem um porquê. No cérebro, a área occipital impacta a visão. E na medula é a mesma coisa, só que a gente sabe muito menos da somatotopia (organização) da medula do que a gente sabe do encéfalo. A gente viu que tinha algumas melhoras em cada caso.
Em sua tese, a sra. fala que 4 dos 11 cães voltaram a andar. Então, esses outros tipos de melhora ocorreram nos outros 3?
Isso, exatamente. Esses quatro andaram novamente, mas com alguns erros. A gente mediu numa escala funcional locomotora e observou que alguns deles ainda caíam, por exemplo. Outros desenvolveram um andar medular. E foi exatamente isso que a gente estudou.
A polilaminina é descrita como um arcabouço para regeneração nervosa. Como explicaria de forma simples o mecanismo da molécula para quem não é da área científica?
A molécula tem o formato de uma cruz. Ela tem três braços curtos e um braço longo. É como se esses braços tivessem mãos e fizessem um caminho para o crescimento dos axônios, que são responsáveis pela parte de sustentação. Então, eles fazem um caminho que a laminina pura não faz.
E, entre os que tiveram melhora locomotora, houve algum caso específico que mudou a percepção sobre o potencial dessa terapia?
Todos mudaram, porque conseguir obter alguma melhora de uma lesão medular, algo que a gente não vê em nenhum medicamento, é considerado um desenvolvimento. Uma porta para novas descobertas.
Qual era a procedência desses cães?
Esses animais eram todos do Hospital Municipal Veterinário Jorge Vaitsman (HMVJ), do município do Rio de Janeiro.
Dez anos depois da sua defesa do doutorado, o que mudou?
Agora a gente está com uma nova pesquisa. Esses cães, sim, são uma esperança porque hoje em dia a gente tem (a tecnologia da) ressonância, que é algo que no passado era mais difícil de conseguir. Temos novas tecnologias e novas maneiras de provar a melhora desses animais. A pergunta sempre foi se esse andar medular não seria obtido de qualquer forma. Existem ainda algumas perguntas sobre a regeneração de lesão e eu sempre falo que ela não ocorre só por causa da polilaminina, é um conjunto de fatores que fazem com que isso dê certo. Há uma fisioterapia por trás, existe todo um estudo genético por trás, que são muito importantes. A gente sabe que o DDB, que é a doença degenerativa do disco, é uma condição conhecida como genética. Isso é bem importante para entendermos tudo o que influi nessa lesão.
Quais são as diferenças tecnológicas da pesquisa que é feita hoje para a que foi feita em 2010?
A gente está tentando fazer uma coisa muito mais padronizada do que em 2010. Agora nós conseguimos fazer ressonância antes e depois. Na época do doutorado, não existia ressonância veterinária, a gente usava muito mais a tomografia. Então, há recursos importantes hoje que nos dizem muito mais do que antigamente.
Hoje são quantos os cães analisados?
A gente está com 16, mas vamos até 20. Ainda estamos selecionando animais. Para participar, eles precisam ter alguns parâmetros, como uma lesão única em que a gente consiga colocar a polilaminina por fluoroscopia. Em humanos, é tudo em lesão aguda, na veterinária são animais crônicos, tanto de fratura como de doença degenerativa do disco intervertebral.
E já houve algum resultado?
Temos o Teodoro, que já deu mais de dez passos. Há outros casos já bastante evoluídos, mas dos quais ainda não podemos falar. Nesses, foram pequenas mudanças. A pesquisa começou no início de 2025.
Qual é a diferença da pesquisa em animais para a pesquisa em humanos?
A principal diferença é que, nos humanos, estamos lidando com lesões agudas, enquanto nos animais trabalhamos com lesões crônicas. Quando a lesão é muito crônica, seja decorrente de uma fratura ou de outra condição, ela provoca uma lesão secundária que gera uma fibrose importante, dificultando o cruzamento dos axônios naquela região. Já nas lesões agudas, essa fibrose é significativamente menor. Para ilustrar, imagine um corte na pele que sempre tem algo impedindo o seu fechamento completo. Com o tempo, as bordas dessa ferida ficam mais elevadas. Isso é a fibrose, um tecido fibrótico que impede a cicatrização adequada e efetiva do epitélio. Na medula espinhal, ocorre o mesmo processo: os axônios não conseguem atravessar essa região cicatricial. Por isso, é necessário encontrar algum veículo ou substância capaz de transpor essa barreira e permitir a regeneração nervosa.
A pesquisa de 2010 avaliou também células-tronco derivadas de tecido adiposo. Como a sra. compara os resultados obtidos com essas células aos da polilaminina?
As células-tronco derivadas de tecido adiposo desempenharam um papel muito importante na pesquisa. Por serem anti-inflamatórias, sua principal contribuição está na forma como atuam sobre as citocinas inflamatórias, reduzindo sua concentração e promovendo, consequentemente, a diminuição da fibrose na região lesionada. No entanto, trata-se de um trabalho multifatorial, conforme destacado nas conclusões da tese, e ainda são necessários mais estudos para aprofundar o entendimento sobre seus efeitos. Vale ressaltar também que todos os casos analisados até o momento envolveram lesões crônicas. A investigação com lesões agudas (em animais) será contemplada na próxima etapa da pesquisa, no pós-doutorado que está sendo iniciado. É tudo muito difícil de conseguir, nada é muito fácil. Temos de reunir esses cães, falar com os proprietários, conseguir pegar lesões parecidas clinicamente para poder tratar. Isso tem o objetivo de evitar qualquer variação de resposta clínica. Homogeneizar o grupo é bem complicado.
Quando a tese foi defendida, em 2015, a regeneração medular ainda parecia um horizonte distante. Hoje, diante dos avanços recentes divulgados a partir de estudos em humanos, acredita que aquela fase inicial da pesquisa, com animais, abriu caminho para os ensaios clínicos de hoje?
Com certeza. A pesquisa representa sempre uma esperança, uma porta que se abre para novas possibilidades. É possível realizá-la e mensurá-la sem a necessidade de recorrer a métodos experimentais invasivos. Antigamente, havia uma ideia predominante de que era preciso induzir lesões experimentalmente nos animais. Imagine fazer uma lesão num cão saudável, eu acho uma maldade. Nós conseguimos superar essa etapa e partir diretamente para o tratamento clínico, da mesma forma que a professora Tatiana está fazendo com humanos.
E durante o acompanhamento dos animais, quais eram os critérios mais importantes para avaliar a segurança e eficácia do tratamento?
Todo o acompanhamento dos animais foi realizado com suporte de exames laboratoriais, incluindo exames de sangue, hemograma e bioquímico. O principal parâmetro avaliado era o nível das enzimas hepáticas, fundamentais para a detecção de qualquer sinal de toxicidade. Além disso, o hemograma permitia monitorar possíveis alterações hematológicas, como irregularidades na hematopoiese (processo de formação das células do sangue).
E agora, com a divulgação da pesquisa, principalmente em humanos, houve uma grande repercussão midiática. Isso atrapalha ou ajuda?
Acho que ambos. Ajuda e atrapalha, também. Porque a expectativa das pessoas que querem utilizar é muito grande. Todo mundo quer. Ao mesmo tempo, como eu falei, é multifatorial. Nem todas as pessoas vão se beneficiar, mas algumas vão. Nem todos os cachorros vão ser incluídos, mas alguns vão. E a mídia, às vezes, vende o milagre. Isso não é milagre. Isso é pesquisa. E precisa de tempo e recursos para que isso cresça.
O uso da polilaminina para regeneração de lesões em humanos pode ser aprovado pela Anvisa em dois anos. Como está isso em relação aos animais?
Eu acho que vai acompanhar a parte humana. Estamos indo com bastante força agora. Acredito que em dois anos conseguiremos ter alguma resposta.
Como a pesquisa em animais ajuda na aplicação em humanos?
Primeiro, a pesquisa em animais nos permite comprovar que o tratamento não é tóxico. A toxicidade é um fator de extrema importância nesse processo. Também conseguimos observar melhoras concretas nos animais tratados, o que serve de estímulo e respaldo para as equipes que trabalham com a aplicação em humanos. Tanto é que a gente não teve nenhum evento de toxicidade.
Fonte: O Popular