A cidade de Teodoro Sampaio (SP) ganhou um novo mural de 15 metros de largura por 10 de altura dedicado ao mico-leão-preto, macaco ameaçado que sobrevive apenas no estado de São Paulo. A obra, assinada pelo artista Fernando Berg, ocupa a parede lateral da prefeitura, na praça central, e transforma o espaço público em manifesto visual pela proteção da fauna brasileira.
A pintura foi realizada a convite do Programa de Conservação do Mico-Leão-Preto, iniciativa que deu origem ao Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), organização que há quatro décadas atua pela sobrevivência da espécie e da Mata Atlântica no Pontal do Paranapanema.
“É sempre uma satisfação imensa fazer uma obra como esta. Quando a Gabriela [Resende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto] me convidou para pintar este mural, fiquei muito empolgado porque este é um animalzinho muito importante, que existe apenas no estado de São Paulo. Estou muito feliz em somar e participar desta celebração com um animal tão divino”, afirma Berg. O artista relembra que já havia retratado o primata anteriormente: “Há quatro anos, eu já tinha pintado o mico-leão-preto no projeto do também artivista [artista e ativista] Mundano com as cinzas da Mata Atlântica”.
Para a coordenadora do programa, a obra extrapola o campo estético e assume dimensão política e afetiva. “Esta é uma homenagem à espécie e, também, um presente para os moradores do município que, desde o início do programa, há mais de 40 anos, o abraçaram”, declara Gabriela Rezende. Segundo ela, o mural mostra o reconhecimento da população local na trajetória de proteção do mico.
Enquanto pintava, Berg relatou a interação constante com quem circula pela praça. “As pessoas interagem bastante e todas conhecem o programa [do IPÊ]. Elas também criam expectativas com os preenchimentos que já fiz”, contou. “Tem sido uma troca muito boa, estou aprendendo muito também, tem gente que passa todo dia aqui comigo. Como pintei o Morro do Diabo, no mural, tem gente que comenta que mora aqui há 62 anos, nunca foi até lá e, agora, está curioso e vai”.
Cerca de 1.800 micos-leões-pretos vivem hoje na natureza, distribuídos em aproximadamente 20 localidades entre os rios Tietê e Paranapanema. Estima-se que 65% deles estejam no Parque Estadual Morro do Diabo, uma das últimas áreas contínuas de Mata Atlântica do interior paulista e território diretamente ameaçado por pressões históricas de desmatamento e fragmentação florestal.
Arte como ferramenta de conscientização
Reconhecido por retratar animais nativos com traços que evocam espiritualidade e reverência, Berg utiliza tinta acrílica à base de água, spray e pincéis para transformar muros em chamados à consciência ecológica. No mural, o mico-leão-preto aparece acompanhado de um filhote.
“Na composição, há um mico-leão-preto com filhote. O adulto levanta a pata na direção da cabeça do mais novo, a ideia é de uma benção (algo ainda muito comum no interior), um gesto de cuidado. Em toda pintura que faço, gosto de colocar o personagem principal, o mais vulnerável geralmente, olhando para o espectador. Neste caso, é o filhote porque ele é o futuro. Minha intenção é reforçar a ideia de que é preciso cuidar para ele poder crescer”, explica o artista.
Ao redor dos primatas, araras vermelhas, um araçari-castanho, udus-de-coroa-azul, um gambá-de-orelha-branca, uma perereca arborícola e uma anta brasileira compõem a cena, sugerindo interdependência entre espécies. “As duas araras vermelhas reverenciam os micos. E o mico-leão-preto do outro lado do mural convive em harmonia com três aves”, descreve Berg. “As aves são guias, protetoras e se somam ao mico, trocam informações, se protegem”.
Sobre o araçari, ele comenta o diálogo entre arte e território: “Pintei olhando para um que estava aqui na praça, hoje. No livro, ele parecia um pouco mais claro, mas como este estava aqui na cidade, intensifiquei as cores”.
Da quase extinção à resistência
O mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) foi considerado extinto por cerca de 70 anos, até ser redescoberto em 1970 no Pontal do Paranapanema. Em 2003, entrou na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza como Criticamente Ameaçado. Após décadas de esforços contínuos de proteção, teve seu status reclassificado para Em Perigo em 2008, avanço que, embora significativo, não elimina os riscos.
Ao completar 40 anos de atuação e sucesso, o programa de proteção mostra que a sobrevivência do mico-leão-preto depende da manutenção e restauração da Mata Atlântica, da conexão entre fragmentos florestais e do engajamento permanente da sociedade.