As baleias-de-bossa (Megaptera novaeangliae) vivem em praticamente todos os oceanos do mundo, incluindo em águas portuguesas. Como outros membros desse grupo de mamíferos marinhos, recorrem à sua memória e a indicadores ambientais para saberem quando é a melhor altura para se lançarem nas suas longas migrações.
Contudo, uma investigação publicada na revista ‘Scientific Reports’ alerta que os efeitos das mudanças climáticas, como o aquecimento dos mares, poderão tornar as migrações das baleias-de-bossas menos eficientes.
Essa população todos os anos percorre cerca de 10 mil quilômetros em direção às águas frias e mais produtivas da Antártida, onde as baleias se alimentarão e ganharão peso durante os meses mais quentes do ano. Chegando o inverno, regressam a mares menos frios, onde se reproduzirão e terão as suas crias.
O exato momento em que começam a sua jornada em direção à Antártida é ditado pela detecção das mudanças de temperatura da água que indicam a passagem de uma estação para a outra, mas também pelas memórias dos indivíduos mais velhos, e que no passado já embarcaram nessa migração, sobre as condições que devem encontrar nesses locais de alimentação dada a altura do ano em que estão. Dessa forma, podem fazer coincidir a chegada à Antártida com a explosão sazonal de krill nessa zona, a sua principal fonte de alimento.
Um grupo de cientistas do Canadá, Equador e Panamá acompanhou entre 2009 e 2016, através de dispositivos de GPS colocados nos animais, 42 baleias-de-bossa para perceber o que faz arrancar a migração para sul.
“Elas parecem saber que as mudanças no seu ambiente imediato estão associadas a condições a milhares de quilómetros de distância”, explica, em comunicado, Virginie Millen, investigadora e docente da Universidade McGill (Canadá) e primeira autora do artigo.
“Isso permite-lhes afinar a sua migração, de modo a chegarem no momento em que o seu abastecimento de alimento atinge o pico”, acrescenta.
Contudo, tal como em muitos outros aspetos do nosso planeta, as mudanças climáticas estão a perturbar a ordem natural das coisas. O aquecimento global e as mudanças nos padrões de formação e derretimento do gelo marinho estão a transformar também a vida dos pequenos krills e a altura em que são mais abundantes.
Embora digam que as baleias-de-bossa estão, de alguma forma, a conseguir adaptar os seus calendário migratórios, não se sabe ainda se essa adaptação será suficiente para evitar impactos negativos mais profundos.
“Cada ano desde 2016 tem sido o mais quente desde que há registo, e esse padrão está a acelerar”, diz Millien, avisando que é possível que, a dada altura, a estratégia das baleias-de-bossa de usarem as suas memórias para cronometrarem o início da migração poderá vir a falhar, com os animais a chegarem à Antártida fora dos períodos de maior abundância de alimento.
Além disso, machos e fêmeas diferem na forma como migram. Os machos tendem a chegar primeiro ao destino, fazendo percursos mais diretos e a uma maior velocidade. As fêmeas, por outro lado, especialmente as que são acompanhadas pelas suas crias, tendem a levar mais tempo, optando por rotas mais lentas e mais perto da linha costeira, algo que os cientistas acreditam ser para evitarem os predadores que rumam pelo alto-mar.
Os investigadores argumentam que os resultados deste trabalho tornam clara a necessidade de proteger “corredores migratórios fundamentais”, bem como áreas de alimentação, uma vez que, devido ao aumento do tráfego marítimo, as baleias enfrentam um risco cada vez mais elevado de colisões com embarcações e são afastadas dos seus habitats naturais por causa da perturbação causada.
“Esta investigação fornece os dados necessários para informar os esforços de proteção”, afirma Hector Guzman, do Instituto Smithsonian de Investigação Tropical e um dos principais autores do estudo.
“Não se trata apenas de proteger baleias. Trata-se de preservar o equilíbrio delicado dos ecossistemas marinhos”, salienta.
Fonte: Greensavers