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ESTUDO

Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado

Estudo feito na Unesp avaliou 31 espécies de árvores e arbustos na região de Itirapina, centro-leste do Estado de São Paulo

5 de março de 2026
Gabriela Andrietta
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Ouratea spectabilis, espécie nativa do Cerrado. Foto: Amanda Eburneo Martins/Unesp

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que as mudanças climáticas estão alterando o ritmo reprodutivo das plantas do Cerrado. Ao longo de 15 anos de observações mensais (2005-2019), os cientistas constataram que a duração do período de floração e frutificação das espécies diminuiu significativamente, especialmente entre aquelas que dependem de polinizadores, principalmente abelhas, para se reproduzir.

A pesquisa, publicada na revista Functional Ecology, analisou 31 espécies de árvores e arbustos em uma área de vegetação nativa em Itirapina (SP). O trabalho faz parte do Programa de Monitoramento Fenológico de Longa Duração do Cerrado, do Laboratório de Fenologia da Unesp de Rio Claro, coordenado por Patricia Morellato, e é parte da tese de doutorado de Amanda Eburneo Martins, realizado com bolsa da FAPESP.

Segundo Martins, primeira autora do artigo, as espécies que dependem de animais para a polinização apresentaram redução no tempo de duração da floração ao longo dos 15 anos, em resposta à diminuição da precipitação. Já na frutificação, fase em que os frutos se desenvolvem e amadurecem, a duração diminuiu tanto em espécies dependentes quanto independentes de polinizadores, sendo afetada pelo aumento da temperatura média e pela redução da umidade relativa do ar.

Essa diminuição ocorreu principalmente no final do período reprodutivo, já que as datas de início e de pico da floração e frutificação permaneceram estáveis. Isso indica que, embora as plantas continuem iniciando seu ciclo reprodutivo nas mesmas épocas do ano, estão florescendo e frutificando por menos tempo.

“Com menos tempo de floração, há menor disponibilidade de recursos florais para os polinizadores dessas espécies vegetais, como as abelhas. Da mesma forma, a redução na duração da frutificação pode comprometer o estabelecimento de novos indivíduos vegetais e diminuir os recursos alimentares para espécies frugívoras, que se alimentam de frutos e dispersam sementes, o que pode afetar a regeneração das plantas e o equilíbrio do ecossistema do Cerrado”, explica Martins.

Outro resultado relevante é o declínio da cofloração – ou seja, da sobreposição de períodos de floração entre espécies diferentes. Esse padrão foi observado tanto em plantas dependentes quanto independentes de polinizadores. Como a maioria das espécies estudadas é polinizada por abelhas, a redução da cofloração pode aumentar a competição de polinizadores por plantas e de plantas por polinizadores, já que há menos flores disponíveis simultaneamente.

Apesar dessas mudanças, o estudo constatou que o sucesso reprodutivo da comunidade permaneceu estável ao longo do período analisado, indicando que, até o momento, as espécies do Cerrado estudadas demonstram certa resiliência frente às mudanças climáticas recentes. Essa resiliência pode estar relacionada a adaptações evolutivas antigas, desenvolvidas durante períodos climáticos extremos do passado, como as oscilações do Pleistoceno (período geológico que se estendeu de aproximadamente 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás, marcado por intensas mudanças climáticas), e que hoje podem conferir uma vantagem adaptativa diante das mudanças climáticas atuais.

Métodos diferentes

“A metodologia que usamos nos trópicos é diferente daquela aplicada no hemisfério Norte. Lá, eles utilizam o que chamam de first flower [primeira floração] e first leaf bud [primeiro aparecimento de um broto foliar]. Simplesmente anotam essas ocorrências pontualmente, não se tratando, na maioria dos casos, de indivíduos marcados. É apenas uma observação cronológica ao longo do ano”, compara Morellato, que é diretora do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.

“Obviamente, eles têm séries de muitas décadas, mas a fenologia que fazemos aqui é muito mais detalhada. Nós vamos ao campo pelo menos uma vez por mês e marcamos todas as fenofases: o primeiro botão, a flor aberta, o primeiro fruto verde, o fruto maduro, o primeiro broto foliar, a proporção de folhas novas, a produção de folhas e sua queda. Ou seja, observamos muito mais fenofases e acompanhamos continuamente indivíduos marcados. Isso traz um detalhamento e uma sofisticação maior aos dados, embora, é claro, em áreas mais reduzidas. Por outro lado, esse tipo de acompanhamento permite uma análise mais consistente ao longo dos anos”, detalha a pesquisadora.

O Cerrado é uma das regiões mais impactadas pelas transformações ambientais, marcada por uma intensa expansão agrícola. “Essa expansão avança em direção ao norte, formando o chamado ‘arco da devastação’, que representa a fronteira entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, na região central do Brasil. Por isso, é essencial compreender o que está acontecendo com o Cerrado e reconhecer sua importância em toda a sua área de distribuição”, diz Morellato. De acordo com a pesquisadora, dados climáticos mais detalhados, integrados a informações sobre comunidades vegetais e animais, são o foco de um novo artigo que deve ser publicado em breve.

“Estamos realizando análises semelhantes em outros tipos de florestas, como na amazônica e em campos nativos. Já temos séries de dados amazônicos ainda mais longas, e isso será extremamente relevante para compreender os efeitos das mudanças climáticas em diferentes biomas brasileiros”, conclui a pesquisadora.

O artigo Climate-induced shifts in long-term tropical tree reproductive phenology: Insights from species dependent on and independent of biotic pollination pode ser lido em: besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1365-2435.70090.

Fonte: Agência FAPESP

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