
As mudanças climáticas podem estar afetando de forma mais profunda a vida dos primatas do que se imaginava. Um estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution indica que secas e períodos de chuvas extremas alteram a dinâmica social dos macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus), tornando os grupos menos eficientes na busca por alimento e contribuindo para comportamentos raros, como o abandono de filhotes pelas mães durante eventos climáticos extremos.
A pesquisa analisou 33 anos de dados de monitoramento de 12 grupos de macacos na reserva de Lomas Barbudal, na Costa Rica, e conclui que a intensificação de fenômenos climáticos, como El Niño e La Niña, pode comprometer o equilíbrio que determina o tamanho ideal dos grupos e sua capacidade de sobreviver em períodos de escassez.
Segundo reportagem publicada pelo Eos.org, parceiro da União Geofísica Americana (AGU), o estudo parte de observações feitas durante a forte seca de 2015, agravada pelo fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENSO). Na ocasião, a antropóloga evolucionista Susan Perry, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), registrou um comportamento incomum entre as fêmeas.
“Em condições normais, as mães [dos macacos-prego] são extremamente dedicadas”, afirmou a pesquisadora. “Mas comecei a ver filhotes chorando de forma desesperada no chão. E as mães apenas olhavam para baixo, como se pensassem: ‘É trabalho demais’, e iam embora, abandonando seus filhotes.”
Para Perry, o episódio representa um alerta sobre os impactos das mudanças climáticas sobre espécies altamente sociais. “Até os macacos-prego têm seus limites”, disse. “E precisamos começar a prestar atenção porque todas as previsões meteorológicas indicam que teremos mais imprevisibilidade e mais eventos climáticos extremos.”
Como o clima afeta a vida em grupo
Os pesquisadores, liderados por Odd Jacobson, ecólogo comportamental do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, avaliaram como o tamanho dos grupos influencia a disponibilidade de alimento, a área ocupada pelos animais e as interações entre diferentes bandos.
Em condições normais, grupos maiores conseguem dominar áreas mais ricas em árvores frutíferas, garantindo acesso privilegiado aos recursos. Em contrapartida, a competição por alimento entre os próprios integrantes também aumenta.
O estudo mostra, porém, que esse equilíbrio muda durante eventos climáticos extremos. Em períodos excepcionalmente secos ou chuvosos, a competição dentro dos grupos cresce ainda mais, reduzindo a eficiência na procura por alimento.
Além disso, os pesquisadores observaram que o comportamento entre grupos também muda. Em secas consideradas típicas, grupos maiores costumam expulsar grupos menores das áreas mais produtivas, especialmente próximas aos rios. Durante secas severas, entretanto, essa estratégia praticamente desaparece.
“Não sabemos exatamente por quê”, afirmou Jacobson ao Eos.org. “Talvez haja menos heterogeneidade na paisagem durante esses períodos de escassez de recursos e, por isso, não existam áreas suficientemente valiosas para que grupos maiores consigam monopolizá-las.”
Eventos extremos podem alterar sociedades animais
Os resultados sugerem que extremos climáticos estão modificando a organização social dos macacos-prego e podem alterar a estrutura populacional da espécie ao longo do tempo.
O etólogo Filippo Aureli, da Universidad Veracruzana, no México, que não participou do estudo, também acompanhou os efeitos da seca de 2015 sobre primatas na Costa Rica. Segundo ele, enquanto os macacos-prego registraram elevada mortalidade de filhotes, os macacos-aranha responderam reduzindo ou interrompendo a reprodução.
“Com as mudanças climáticas, esses eventos extremos serão mais frequentes e mais intensos”, afirmou Aureli. “E não sabemos o que vai acontecer. Até agora, os macacos-aranha resistiram muito bem, mas não sabemos por quanto tempo isso continuará.”
O trabalho reforça que os impactos das mudanças climáticas vão além da perda de habitat ou da escassez de alimento. Eles também podem alterar relações sociais, estratégias de sobrevivência e o sucesso reprodutivo de espécies altamente organizadas, evidenciando como eventos extremos afetam diferentes dimensões da biodiversidade.
Fonte: Um só Planeta




