Mesmo em áreas de proteção integral do Pantanal, como a Estação Ecológica de Taiamã, pesquisadores já encontraram microplásticos, fragmentos de até 5 milímetros resultantes da degradação de resíduos maiores. O levantamento, disponível neste link, feito por cientistas da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), analisou 42 pontos em rios, córregos, áreas alagadas e até nascentes da região.
Embora a maior concentração esteja perto da área urbana de Cáceres (a 221 km de Cuiabá), o material apareceu em todas as regiões analisadas, inclusive na unidade de conservação localizada a cerca de 100 km da cidade. Para os autores, os resultados mostram que a contaminação já se espalhou pela bacia, alcançando inclusive áreas consideradas remotas e preservadas.
“O dado mais inesperado foi encontrar microplásticos até em Taiamã. É um lugar com pouquíssima interferência humana direta, mas as partículas chegam mesmo assim”, explica um dos autores do estudo, o professor Ernandes Sobreira Oliveira Junior, do Centro de Pesquisa de Limnologia, Biodiversidade e Etnobiologia do Pantanal (Unemat).
O estudo aponta que a densidade de microplásticos aumenta conforme diminui a distância até centros urbanos. Nos córregos Sangradouro e Fontes, que passam por Cáceres, a média chegou a 144 partículas por metro quadrado, com picos acima de 5.600. Já na Estação Ecológica de Taiamã, a densidade caiu para cerca de 2,5 partículas, mas ainda assim indica contaminação difusa.
Oliveira Junior explica que a principal rota dos resíduos é a própria hidrografia pantaneira. As partículas, por serem leves e minúsculas, permanecem em suspensão e percorrem longas distâncias com as cheias. “Os rios funcionam como um corredor. Mesmo longe de cidades, a água leva consigo aquilo que recebeu lá atrás”, afirma.
Eventos extremos como enchentes, variações no pulso de inundação e alterações no fluxo aceleram ainda mais esse transporte. O pesquisador destaca que até nas nascentes os fragmentos apareceram, o que mostra que a poluição já se espalhou por toda a bacia, desde o início do trajeto das águas.
Impacto crescente para a população e para fauna
A presença de microplásticos preocupa pesquisadores por seu efeito sobre peixes, aves e invertebrados. As partículas podem ser ingeridas direta ou acidentalmente, causando bloqueios no sistema digestivo, inflamações e redução da capacidade de absorção de nutrientes. Isso interfere no crescimento, no comportamento alimentar e na reprodução.
Além disso, os fragmentos funcionam como “esponjas” que adsorvem outros poluentes, como pesticidas e metais pesados. “Assim, eles viram vetores de contaminação química dentro do organismo”, diz Oliveira Junior.
Embora o estudo não tenha analisado tecidos de animais, pesquisas anteriores da mesma região já encontraram microplásticos em macroinvertebrados e até dentro de crustáceos de água doce, indicando que o processo de bioacumulação está em curso em níveis mais baixos da cadeia.
Sobre possíveis riscos para comunidades que consomem peixe local, Oliveira Junior afirma que ainda não há dados diretos para o Pantanal, mas alerta para a tendência observada em outras regiões. “Se um microplástico visível ao microscópio consegue viajar tão longe, imagine compostos muito menores, como hormônios ou fármacos. Esses podem causar efeitos mesmo em fauna distante das fontes de poluição”, afirma.
Segundo ele, é urgente ampliar o monitoramento em peixes consumidos pela população ribeirinha, especialmente nas áreas mais próximas de centros urbanos. “A contaminação já está instalada. Falta mensurar quanto disso chega aos organismos que fazem parte da dieta humana”, diz.
Pressão urbana avança sobre a planície
Os autores reforçam que os maiores índices de microplásticos aparecem nos pontos urbanos, que recebem esgoto, lixo e águas pluviais carregadas de resíduos. “Quanto mais negligenciadas as águas urbanas, maior o impacto em áreas distantes, mesmo em unidades de conservação”, diz o pesquisador.
O estudo indica que a poluição já atingiu um nível de dispersão capaz de atravessar a planície pantaneira, afetando trechos considerados preservados. Para os cientistas, é um sinal de que políticas públicas de manejo de resíduos e saneamento precisam ser fortalecidas nas cidades que margeiam o bioma. “A presença de microplásticos em Taiamã mostra que o problema não está restrito às cidades. Ele está correndo pelos rios e alcançando o coração do Pantanal”, afirma Oliveira Junior.
Fonte: Rede Sucuri