O que soa como um ronco ou rugido pode, na verdade, esconder uma comunicação muito mais sutil. Pesquisadores do Projeto Onças do Iguaçu registraram, pela primeira vez, que fêmeas de onça-pintada emitem vocalizações suaves, semelhantes a um miado, ao interagir com seus filhotes. O comportamento, até então não documentado para grandes felinos do gênero Panthera, desafia a ideia de que essas espécies seriam incapazes de produzir sons típicos de felinos menores devido a limitações anatômicas.
O achado sugere a existência de uma “linguagem materna” mais complexa do que se supunha. Em vez do esturro, vocalização grave associada à defesa de território e reprodução, as mães recorrem a sons mais delicados em contextos de cuidado parental. Para a pesquisadora Vânia Foster, do projeto, a descoberta amplia o entendimento sobre a comunicação da espécie em momentos-chave da criação dos filhotes, uma dimensão ainda pouco explorada na literatura científica.
O registro só foi possível graças a anos de monitoramento contínuo no interior do Parque Nacional do Iguaçu (PR), onde uma rede de armadilhas fotográficas, aliada ao uso de colares com GPS e VHF, acompanha diferentes gerações de onças desde 2018. Coordenado pelo Instituto Pró-Carnívoros em parceria com o ICMBio e com apoio do WWF-Brasil, o projeto também envolve instituições internacionais. A combinação entre esforço de campo prolongado e aprimoramento tecnológico tem permitido capturar comportamentos raros, dificilmente observados em expedições pontuais, especialmente em meio à densa vegetação da Mata Atlântica.
Os dados também revelam uma recuperação gradual da população local. Se no início dos anos 2000 havia apenas 11 indivíduos na região, hoje são cerca de 25 onças-pintadas vivendo e se reproduzindo regularmente, um dos poucos núcleos viáveis da espécie no bioma. O avanço está associado à consolidação do Corredor Trinacional do Iguaçu, que conecta áreas protegidas no Brasil, Argentina e Paraguai, permitindo o fluxo genético entre populações.
Apesar dos resultados positivos, a pressão humana segue como principal ameaça. A fragmentação florestal, os conflitos com atividades agropecuárias e a caça ainda comprometem a sobrevivência da espécie. O impacto é agravado pelo ciclo reprodutivo lento: filhotes permanecem até dois anos com a mãe, período em que aprendem habilidades essenciais para a sobrevivência. A perda de uma fêmea adulta, portanto, representa não apenas a morte de um indivíduo, mas a interrupção de futuras gerações.
Nesse cenário, iniciativas de coexistência entre humanos e fauna têm se tornado centrais. O Projeto Onças do Iguaçu atua junto a comunidades do entorno com estratégias de manejo preventivo para reduzir ataques a rebanhos e evitar retaliações. A conservação da espécie depende, cada vez mais, da capacidade de equilibrar a proteção ambiental.
Fonte: O Eco