A China tem 124 milhões de cães e gatos domésticos, dos quais 28,52 milhões (23%) estão na meia-idade ou terceira idade (7 anos ou mais), em meio a uma tendência de envelhecimento que cresce a um ritmo de 5% ao ano e, nos próximos três anos, deve ultrapassar os 30 milhões de animais, segundo o Livro Branco da Indústria de Pets 2025 e as últimas projeções da chamada “economia dos animais”.
Essa maior expectativa de vida é, justamente, o principal motivo da crescente popularidade da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) no cuidado de animais domésticos, uma especialidade que, embora remonte à antiguidade, a grande maioria da população ainda não faz ideia de que existe.
As tradicionais terapias de acupuntura, fitoterapia (fórmulas herbais tradicionais), moxabustão (aplicação de calor), massoterapia (massagens terapêuticas), tratamentos alimentares e reabilitações pós-operatórias diferenciadas são algumas das práticas da MTC que vêm sendo usadas — cada vez mais — no tratamento de animais, de acordo com a Associação Mundial de Medicina Tradicional Chinesa (WATCM, na sigla em inglês).
Como se sabe, a MTC enfatiza uma abordagem holística do paciente e considera o corpo como um sistema de forças e funções interconectadas, onde, além dos sintomas da doença, aspectos como temperamento, sexo, idade, atividade e ambiente do animal são levados em conta.
“A maioria dos nossos pacientes são animais idosos com doenças crônicas ou problemas de mobilidade. Poodles, bulldogs franceses e corgis são os que mais atendemos”, explica Wu Yingjiu, fundador da Wang Miao Tai Yi Tang (Clínica Médica para Cães e Gatos), a primeira clínica de MTC de Chengdu, na província de Sichuan, onde realizam, em média, 10 consultas presenciais e dezenas de avaliações online por dia.
Para Chen Wu, especialista do Grupo de Cuidados Veterinários New Ruipeng, “muitos tutores de cães e gatos recorrem à MTC quando a medicina ocidental não consegue curar as doenças de seus animais, embora alguns o façam por acreditar em seus princípios preventivos”.
“Outra vantagem da MTC sobre a medicina ocidental é sua capacidade de tratar doenças relacionadas à idade. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas buscam essa especialidade porque, assim como elas vivem mais, seus animais também envelhecem e começam a sofrer problemas típicos da idade”, acrescenta.
“Se há um dado a destacar nesses tratamentos de MTC, é que a localização dos pontos de acupuntura em cães é semelhante à dos humanos, o que torna a terapia muito eficaz”, explica Chen.
Por sua vez, Deng Xurong, outro especialista em MTC da clínica de Chengdu, defende a personalização dos tratamentos e afirma que “em comparação com medicamentos ocidentais, como antibióticos ou esteroides, as fórmulas herbais chinesas oferecem intervenções mais suaves e com efeitos mais notáveis”.
“As doenças tratadas com MTC incluem distúrbios neurológicos, problemas musculares e musculoesqueléticos, vários tipos de ascite (acúmulo de líquido no abdômen), doenças de pele e outros diagnósticos em que os tratamentos ocidentais não foram eficazes a longo prazo”, explica Deng.
Além das diferenças entre MTC e medicina ocidental, é importante destacar que essas práticas não funcionam de forma antagônica, mas sim de maneira coordenada, aproveitando suas próprias forças para o cuidado integral dos animais.
Na China, os profissionais costumam recomendar uma combinação entre as duas especialidades, ressaltando que a maior vantagem da MTC é sua eficácia na fase preventiva, antes que doenças potencialmente letais se manifestem.
“A medicina veterinária tradicional chinesa e a ocidental têm seus pontos fortes, mas nenhuma é perfeita sozinha. Para condições agudas e críticas, recomendo primeiro a medicina ocidental para alívio dos sintomas, seguida da MTC para tratamento a longo prazo. É preciso aprender com os pontos fortes de cada uma e desenvolvê-las de forma complementar. Uma abordagem integrada ajudaria a obter maior reconhecimento internacional da MTC”, afirma Chen Wu, com base em seus 30 anos de experiência como professor.
Nesse sentido, a MTC já está integrada à medicina ocidental em vários países, desde a Sociedade Internacional de Acupuntura Veterinária (IVAS) dos EUA, que opera desde 1974, até o Hospital-Escola da Faculdade de Ciências Veterinárias da Universidade de Buenos Aires (UBA), que oferece acupuntura, moxabustão e massoterapia para animais desde 2001.
Na China, os profissionais vêm organizando treinamentos e campanhas de informação em âmbito nacional, conscientes de que a MTC ainda não está devidamente desenvolvida nos currículos das universidades veterinárias. Eles defendem que a formação acadêmica seja fortalecida o quanto antes, além de leis e regulamentações que apoiem a atividade, segundo um relatório do Diário do Povo.
Para Yan Jinsheng, vice-presidente da Associação da Indústria de Pets da China, “o potencial da profissão de cuidados veterinários é enorme, desde tratamentos não invasivos até massagens e exercícios para ajudar na recuperação de funções, força e mobilidade”.
Como em outros países, a tendência de conviver com animais domésticos na China aumentou desde os anos 90, impulsionada pelo envelhecimento da população, mais lares unipessoais, melhora no padrão de vida e relaxamento gradual das políticas de posse de animais.
Os animais já não são vistos como ferramentas de proteção, como no passado, mas sim como “um apoio emocional indispensável e os únicos companheiros de vida de muitas pessoas solitárias”, segundo a WATCM.
Desde que a proibição de ter cães e gatos em áreas urbanas foi suspensa em 1992, o número de animais nas casas chinesas cresceu exponencialmente, chegando aos atuais 124,1 milhões — um número que supera a população de muitos países.
Os 300 bilhões de yuans anuais (cerca de US$ 41,8 bilhões) movimentados pela “economia dos animais” são uma prova incontestável do novo protagonismo dos animais na vida cotidiana na China. E o crescente desenvolvimento da MTC no tratamento de cães e gatos parece seguir na mesma direção.
Fonte: Brasil 247