A Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso suspendeu de forma cautelar a autorização para que o Santuário de Elefantes Brasil receba novos animais. A medida foi adotada após o Ibama abrir investigação sobre as mortes das elefantas africanas Pupy, de 35 anos, e Kenya, de 44, ambas marcadas por uma vida inteira em zoológicos antes de chegar ao santuário, já com a saúde comprometida. A decisão, tomada em dezembro e divulgada apenas agora, não interrompe os cuidados com os elefantes que já vivem no local, mas impede novos resgates enquanto o órgão estadual analisa documentos e protocolos.
O Santuário possui licença ambiental válida e autorização de funcionamento reconhecida pela própria secretaria, além de atuar há mais de uma década sob fiscalização contínua sem histórico de sanções. Segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, a suspensão tem caráter preventivo e não interfere no manejo diário, na alimentação nem no acompanhamento veterinário dos animais.
O Ibama informou que já fiscalizou o local, encontrou estruturas consideradas adequadas e presença de profissionais habilitados. Os laudos de necropsia estão sendo elaborados por uma equipe da Universidade Federal de Mato Grosso e devem ficar prontos em até 30 dias. Até lá, o santuário permanece sob escrutínio, mesmo com atividades essenciais mantidas e com parte da documentação já apresentada em vistorias anteriores.
Em contraste, zoológicos seguem registrando mortes de animais sem que haja interrupção de atividades ou sanções equivalentes. Casos costumam ser tratados internamente, sem medidas públicas proporcionais. Os zoos e aquários continuam em funcionamento mesmo diante de adoecimento, declínio físico e óbitos recorrentes de indivíduos mantidos por longos períodos em ambientes artificiais.
As mortes
Pupy morreu em outubro, poucos meses após deixar um ecoparque em Buenos Aires, onde viveu confinada por décadas. Tinha histórico de fragilidade física, apresentou desconfortos gastrointestinais e colapsou repentinamente, apesar do atendimento imediato.
Já Kenya morreu em dezembro, após diagnóstico de problemas respiratórios e dores articulares. Chegara ao Brasil em julho, depois de percorrer mais de dois mil quilômetros, já debilitada. Em seus últimos dias, mal conseguia se deitar. Quando finalmente conseguiu, não resistiu.
Essas mortes não surgiram do nada. Elas são consequência direta de anos de aprisionamento, pisos duros, isolamento social, ausência de estímulos naturais e estresse crônico.
Ainda assim, quando a morte acontece dentro de um zoológico, ela raramente provoca reações institucionais desse porte. Quando ocorre em um santuário, espaço criado para mitigar danos irreversíveis, a resposta vem rápida, burocrática e punitiva.
O Santuário de Elefantes Brasil não é atração turística. Os animais vivem soltos, longe do público, com o mínimo de interferência humana possível. Não há bilheteria, nem espetáculo, apenas cuidados aos animais. Punir esse modelo, enquanto os zoológicos seguem normalizados, mostra uma inversão preocupante de prioridades.