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EVENTOS EXTREMOS

Mar mais salgado aumenta chances de El Niño, diz estudo

Modelos climáticos indicam que a intensidade máxima do fenômeno pode aumentar cerca de 20% quando a salinidade do oceano é considerada

26 de janeiro de 2026
Carina Gonçalves
4 min. de leitura
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Foto: pixabay/ crissequeira89

Um novo estudo, publicado na revista Geophysical Research Lettersindica que níveis elevados de salinidade nas águas do Pacífico ocidental aumentam significativamente a chance de um El Niño intenso. De acordo com a pesquisa, esse fator pode quase dobrar a probabilidade de eventos extremos.

Tradicionalmente, os cientistas explicam o El Niño a partir de variações na temperatura da superfície do mar e nos ventos do Pacífico tropical. Mas a nova pesquisa aponta que a salinidade do oceano, especialmente ao norte do Equador entre março e maio, funciona como um gatilho silencioso capaz de amplificar esse fenômeno climático global.

O El Niño faz parte da Oscilação Sul do El Niño, um ciclo natural de interação entre o oceano e a atmosfera. Durante sua fase quente, águas mais aquecidas se deslocam para o leste do Pacífico, alterando padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em várias partes do mundo. Quando esses eventos se tornam extremos, os impactos incluem secas severas, enchentes, perdas agrícolas e alterações nas temporadas de furacões.

O papel invisível do sal

Na oceanografia, a salinidade se refere à quantidade exata de sal dissolvido nela, um fator que influencia diretamente a densidade da água. Águas mais salgadas são mais densas, o que afeta a organização das camadas oceânicas, o nível do mar e o deslocamento de correntes marítimas.

O estudo mostra que, na primavera, quando as águas equatoriais do Pacífico ocidental estão relativamente menos salgadas e as regiões ao norte apresentam maior salinidade, forma-se um gradiente que altera a “altura estérica” do oceano. Esse nome se refere às variações no nível do mar associadas à temperatura e à salinidade. Tal desnível impulsiona correntes para leste, empurrando águas quentes em direção ao Pacífico central e criando condições ideais para o desenvolvimento do El Niño meses depois.

A influência da salinidade foi historicamente negligenciada porque é mais difícil de medir e simular do que a temperatura. Os pesquisadores identificaram um padrão recorrente de salinidade no Pacífico ocidental a cada primavera, fortemente associado ao fortalecimento do El Niño no final do ano. Isso sugere que o sal não é apenas um coadjuvante, mas um agente ativo na transição do sistema oceano-atmosfera para a fase quente do ENSO.

Impactos globais e previsões mais precisas

A descoberta tem implicações práticas importantes. As previsões do El Niño são particularmente desafiadoras no início do ano, quando os sinais ainda são fracos. Se a salinidade ajuda a “preparar” o oceano para um evento extremo, seu monitoramento pode melhorar previsões sazonais com meses de antecedência.

Isso é crucial porque os efeitos do El Niño se espalham pelo planeta, influenciando regimes de chuva, a produção de alimentos, o risco de incêndios florestais e a disponibilidade de água. Eventos intensos costumam estar associados a chuvas acima da média em áreas subtropicais e a secas severas em países como Austrália e Indonésia.

Em um contexto de mudanças climáticas, no qual os oceanos estão aquecendo e os padrões de circulação estão se transformando, compreender todos os fatores que moldam o El Niño se torna cada vez mais urgente. Ventos atmosféricos, aquecimento global, interações com os oceanos Índico e Atlântico e oscilações climáticas de longo prazo continuam sendo peças centrais desse quebra-cabeça.

Fonte: Revista Galileu

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