EnglishEspañolPortuguês

TRAGÉDIA AMBIENTAL

Mais de 30 tartarugas são encontradas mortas no litoral do Rio Grande do Sul

Ambientalistas apontam pesca industrial como causa e pressionam pela criação do Parque Nacional do Albardão, área considerada estratégica para a biodiversidade marinha.

8 de fevereiro de 2026
Gustavo Kaye
3 min. de leitura
A-
A+
Foto: Reprodução

Mais de 30 tartarugas marinhas foram encontradas mortas na costa do Albardão, no extremo sul do Brasil, próximo à fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Os animais foram localizados por pesquisadores que monitoram a região, considerada uma das mais importantes áreas costeiras do país para a biodiversidade.

De acordo com a coalizão de ONGs liderada pela SOS Oceano, a principal suspeita é de que as tartarugas tenham sido capturadas acidentalmente por redes de pesca industrial. Como esses animais não podem ser comercializados, acabam sendo descartados no mar e morrem.

O caso reacende o debate sobre a falta de proteção ambiental formal na área e reforça a pressão de ambientalistas pela criação do Parque Nacional do Albardão, proposta que tramita há mais de duas décadas.

Mortes também atingem toninhas e outras espécies

No mês anterior, expedições realizadas na mesma região encontraram 139 toninhas mortas. Em novembro, haviam sido registradas outras 82 carcaças do pequeno golfinho, também conhecido como franciscana, espécie considerada ameaçada de extinção no Atlântico Sul.

Especialistas apontam que a atividade pesqueira se intensifica entre a primavera e o verão, período que coincide com fases sensíveis do ciclo reprodutivo de diversas espécies marinhas. Isso aumenta o risco de capturas acidentais e o impacto sobre populações já vulneráveis.

Segundo a pesquisadora Angela Kuczach, articuladora da aliança de ONGs que participou das expedições, há indícios de descumprimento da legislação. Ela afirma que barcos foram vistos operando a cerca de 1,5 milha da costa, apesar da proibição de pesca de arrasto a menos de 12 milhas náuticas.

Pressão da pesca industrial e falta de proteção

A SOS Oceano informa que embarcações circulam entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, capturando principalmente espécies como corvina, castanha, pescada e pescadinha. Essa atuação, somada à ausência de uma área protegida, tem ampliado os impactos sobre animais ameaçados.

Para Maria Carolina Weigert, bióloga e diretora do Nema, que monitora a região há mais de 20 anos, os dados mostram que o Albardão chegou a um limite crítico. Ela afirma que, ano após ano, aumentam os registros de captura acidental e diminuem os juvenis, essenciais para a reposição das populações.

A região do Albardão faz parte de uma das maiores praias contínuas do mundo e reúne diferentes paisagens, como faixas de areia, dunas, lagoas, banhados e áreas oceânicas que recebem águas tropicais e subantárticas, formando um mosaico de ecossistemas raros.

Parque nacional está em debate há mais de 20 anos

Reconhecida como área prioritária para conservação em 2004, a região tem desde 2008 um processo aberto para a criação de duas unidades de conservação: o Parque Nacional do Albardão, de proteção integral, e uma Área de Proteção Ambiental (APA), que permite uso sustentável.

Ambientalistas afirmam que o modelo proposto pelo ICMBio não inviabiliza atividades já existentes, como a pesca artesanal e a geração de energia eólica, e ainda traria mais segurança jurídica para o desenvolvimento regional.

O governo do Rio Grande do Sul, no entanto, pediu alterações no projeto nos últimos anos, alegando que a área é estratégica para o planejamento energético, especialmente para projetos de energia renovável, incluindo iniciativas offshore.

Impactos econômicos e ambientais no centro da discussão

A pesquisadora Angela Kuczach alerta para a atuação de lobbies empresariais, especialmente dos setores de pesca industrial e energia eólica, que tentam frear a criação do parque. Segundo ela, estudos indicam que áreas protegidas tendem a recuperar rapidamente as populações de peixes.

O Ministério do Meio Ambiente informou que as últimas mudanças solicitadas pelo governo estadual foram incorporadas e que o processo está na fase final, prestes a ser encaminhado à Casa Civil da Presidência.

Já o ICMBio destaca que o Albardão é fundamental para o ciclo de vida de espécies como a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-de-couro, a toninha e o golfinho-de-Lahille, além de tubarões, raias e aves marinhas, e afirma que a criação da área protegida é estratégica para garantir a conservação desses ecossistemas e os serviços ambientais que beneficiam as comunidades da região.

Fonte: Agenda do Poder

    Você viu?

    Ir para o topo