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DOENÇA DEVASTADORA

Leishmaniose, a doença dos mais pobres entre os pobres avança sobre os cães de Altamira

Forma mais grave da infecção atinge centenas de animais na cidade e casos crescem também entre humanos sem que exista uma reação do poder público à altura da gravidade da situação

25 de maio de 2026
Lorena de Paula
24 min. de leitura
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Cachorro em tratamento para leishmaniose na Apata, associação que abriga cães de rua em Altamira. Foto: Pablito Aguiar/SUMAÚMA

“Eu amanheci o dia vendo meu cachorro morrer. Aquilo pra mim foi a coisa mais triste do mundo.” As palavras são de Maria Silva, uma mulher cujo sorriso largo é afogado por lágrimas quando fala de seu filho Pitoco. O único filho que ela não pariu do ventre, mas adotou pelo coração. Não importava que lhe dissessem que “era [só] um cachorro”. Nem que não partilhassem sangue ou sequer fossem da mesma espécie. Estavam ligados pelo cordão umbilical do afeto. Foi como filho que Pitoco viveu. E foi nas mãos da mãe humana que ele morreu.

É desse mesmo destino que Aurora luta para escapar. Com cerca de 6 meses, a cadela carrega no olhar o cansaço de quem precisou lutar cedo demais pela vida. Era 20 de março, sol do meio-dia, quando Milka Corrêa a encontrou vagando pelas ruas de Altamira, no Pará. Estava tão habituada à violência humana que, quando foi abraçada e posta no colo, Aurora se urinou de medo. O pequeno corpo era tão magro que os ossos pareciam querer rasgar a pele. “Ela tentou correr, mas tava tão fraca que caiu no meio da avenida, praticamente desmaiou”, lembra Milka.

Aurora e Pitoco não se conheceram. Mas conheceram os sintomas da doença que vitima cães e pessoas em Altamira sem parecer existir uma resposta do poder público à altura da gravidade da situação. Para pessoas, há teste e tratamento garantidos pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Para cães, não. Neste momento, as autoridades responsáveis não sabem quantos dos cães de rua estão infectados nem quantos dos cães que vivem nas casas dos moradores da cidade estão transmitindo a doença.

A Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Altamira, a Sesma, confirmou cinco casos de leishmaniose visceral em humanos entre 2025 e 2026 – dois deles apenas nos três primeiros meses deste ano. A leishmaniose visceral é a forma mais grave da doença e, sem tratamento, pode matar em até 95% das ocorrências. O número de infecções pode parecer baixo, mas, entre 2014 e 2024, a mesma quantidade foi registrada no Datasus, o sistema do Ministério da Saúde que agrega dados de todo o país e é alimentado pelos municípios e estados. Portanto, em dez anos foram cinco casos. E agora, em apenas dois, o mesmo número. Registros de leishmaniose tegumentar, uma forma da doença que causa feridas na pele e nas mucosas do nariz, da boca e da garganta, também cresceram: houve 22 em 2024 e 25 novos em 2025.

Entre os cães, o cenário é pior. Como não existem levantamentos nacionais precisos sobre quantos animais adoecem ou morrem pela doença, cientistas estimam que para cada caso de leishmaniose visceral em humanos existam cerca de 200 cães adoecidos. Em Altamira, onde cinco pessoas foram infectadas, mil animais podem ter ficado doentes.

As estimativas oficiais da Sesma apontam que pelo menos 165 cães testaram positivo para leishmaniose entre 2025 e 2026. Mas quando representantes do órgão mencionaram 100 casos confirmados, em reunião com veterinários do município no dia 9 de abril, os profissionais se agitaram no auditório. Não porque estivessem assustados, mas descrentes. “Só na minha clínica, já atendemos quase esse número”, comentou um deles, seguido por acenos de concordância dos demais. A própria secretaria admitiu que a realidade deve ser mais grave, pois há evidências claras de subnotificação – casos que não chegam aos sistemas, cachorros que perecem sem nunca serem diagnosticados, famílias que choram a perda de seus cães sem a certeza do que os fez partir.

Enquanto não há políticas públicas eficientes para enfrentar uma doença que se tornou tão familiar para os moradores da cidade que ganhou até apelido – “leish” –, as evidências indicam que os casos só aumentam. O cão infectado pode transmitir o parasita ao mosquito vetor, que, ao picar outros seres como cachorros e pessoas, pode infectá-los. Doença letal se não for tratada, a leishmaniose causa muita dor e sofrimento aos cães, que se arrastam pela cidade. São vítimas – e já começam a ser olhados com desconfiança.

Para aqueles que têm casa e pessoas que os amam, tampouco há garantia de testagem ou de tratamento, ambos de alto custo na rede privada, inviáveis para uma população que, segundo dados do Censo 2022, ganha em média 1,2 mil reais mensais. Sem contar que a doença não tem cura e exige tratamento e atenção por toda a vida. Caso contrário, o cão pode infectar o mosquito transmissor, sofrer recaídas e ter complicações graves que levam à morte.

O ciclo e as chagas da doença

As leishmanioses são classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre as doenças tropicais negligenciadas – um grupo de enfermidades que afeta sobretudo populações pobres de regiões tropicais e subtropicais. São doenças marcadas pelo baixo investimento em pesquisa, vacinas e tratamentos, e que persistem onde faltam saneamento básico, condições dignas de vida e acesso amplo a serviços de saúde.

A OMS estima que até 1 milhão de novos casos de leishmanioses surjam todos os anos no mundo. Quando se trata da leishmaniose visceral, o Brasil responde por 93,5% dos registros nas Américas. Metade das ocorrências do país se concentra no Nordeste, região seguida pelo Sudeste e pelo Norte.

A doença é causada por um protozoário do gênero Leishmania e transmitida pela picada da fêmea infectada dos flebotomíneos, um minúsculo mosquito amarelado, conhecido como mosquito-palha, tatuquira, birigui, asa-branca e outros nomes. Não há transmissão por toque ou mordida de animais infectados, nem pelo contato com sangue ou ferida.

Dependendo da espécie do protozoário, a doença pode se manifestar de formas diferentes. A leishmaniose tegumentar é mais frequente no Brasil. A leishmaniose visceral, também chamada de calazar, é a variante mais letal, que vem crescendo em Altamira. A doença afeta vísceras, gânglios linfáticos e medula óssea. Em pessoas, os sintomas envolvem febre que dura mais de sete dias, tosse seca, perda de peso, anemia, aumento do fígado e do baço, diarreia e hemorragias. O parasita se infiltra e o corpo vai sendo ocupado aos poucos, como uma casa invadida por dentro.

O ciclo de transmissão começa quando as fêmeas do mosquito-palha saem à procura de sangue para maturar seus ovos. Ao picarem um animal infectado, junto com o sangue, ingerem também o protozoário. Em centros urbanos, os cães são as principais fontes de infecção. No ambiente silvestre, roedores, tamanduás, preguiças e raposas também podem infectar a fêmea. Depois de alguns dias, quando o inseto volta a picar outro ser, humano ou mais-que-humano, o protozoário encontra um corpo para habitar e se multiplicar.

A proliferação do mosquito-palha está relacionada ao avanço do desmatamento, à urbanização desordenada, ao acúmulo de matéria orgânica e à falta de saneamento. Em Altamira, a piora dessas condições é associada à construção da Hidrelétrica de Belo Monte. Segundo o projeto Mapbiomas, a cidade está entre os municípios brasileiros que mais desmataram entre 2019 e 2024. Os efeitos da emergência climática – aumento das temperaturas, alteração no volume de chuva, secas e inundações – também ampliam a reprodução e a distribuição dos mosquitos-palha.

“Se você desmata uma área de floresta e permite a ocupação daquela área sem condições sanitárias e de infraestrutura, você está colocando o homem próximo do ciclo de transmissão da doença”, explica o médico especialista em parasitologia Fernando Silveira, do Laboratório de Leishmaniose do Instituto Evandro Chagas e professor doutor do Programa de Pós-Graduação em Doenças Tropicais da Universidade Federal do Pará. “Isso promove a aproximação do homem com o ciclo natural de transmissão das Leishmanias, e o contágio do homem é relativamente fácil.”

A degradação da floresta, lar natural do mosquito, o leva a migrar para perto das casas. Em quintais onde há áreas sombreadas e úmidas, com a presença de animais domésticos, o inseto acha também as condições favoráveis para se adaptar e reproduzir. “Eles se reproduzem em galinheiro, chiqueiro, em fezes, em pomares onde as frutas caem e ficam apodrecendo”, explica Fábio Nogueira, professor doutor em medicina veterinária da Fundação Educacional de Andradina, que há décadas pesquisa a leishmaniose canina no Brasil.

A maioria das pessoas picadas pelo mosquito, porém, não chega a desenvolver os sintomas. O sistema imunológico vence a batalha e controla a infecção. Embora a doença seja mais frequente entre menores de 5 anos e homens de 20 a 49 anos, velhos, crianças e pessoas com comorbidades estão mais vulneráveis.

Entre os cães, a leishmaniose é uma ameaça ainda mais grave. Muitos animais infectados nem sequer manifestam sintomas, mas ainda podem transmitir a doença. Quando aparecem, os sinais incluem crescimento excessivo das unhas, descamação da pele, feridas que não cicatrizam – principalmente no focinho, nas orelhas e ao redor dos olhos. Os pelos caem, o apetite desaparece e os ossos começam a saltar sob a pele. Quando a doença se agrava, pode causar danos graves ao fígado, rins e baço.

Aurora conheceu alguns desses sintomas antes mesmo de ter um nome. A cadelinha que se urinou de medo quando foi abraçada pela primeira vez agora não sai do colo da tutora. De macacão rosa, ela repousa o focinho no braço de Milka, escutando-a contar sobre o dia em que a resgatou: “Liguei pro meu amigo veterinário e pedi pra ele vir ver ela. Ele chegou e disse: ‘Milka, ela deve estar com leishmaniose’, porque ela estava com as unhas grandes, a pele já caindo pelo. […] Ele fez o teste rápido e foi batata, deu leishmaniose”.

Pitoco nunca teve a mesma certeza. Mas em janeiro suas unhas cresceram. Depois, ele foi perdendo as forças para andar. Logo ele, que sempre acompanhou Maria nas caminhadas; logo ele, a quem nem a patinha quebrada impediu de mancar ladeiras só para ficar ao lado da mãe no trabalho, já não conseguia dar uns poucos passos até a esquina.

Seu xixi ganhou um tom intenso de amarelo e não importava em quantos tapetes a família o colocasse, ele ainda sentia frio. Quando a quinta-feira do dia 2 de abril raiou, Pitoco tinha perdido os pelos, as forças e a vida. Agora, Maria já não faz mais caminhadas. Vai e volta do trabalho sozinha. Em casa, os cômodos refletem o vazio que Pitoco deixou em seu peito ao partir. “Eu cuidei dele até o último dia de vida, eu não abandonei meu cachorro”, diz, e as palavras pesam o tamanho da sua dor.

A doença dos mais pobres entre os pobres

A leishmaniose visceral é uma doença de tratamento difícil. Aos humanos, diagnóstico e medicamentos são garantidos gratuitamente pelo SUS. Com um diagnóstico rápido, o tratamento pode reduzir de forma drástica o risco de morte e levar à cura. O tratamento exige acompanhamento médico e, em alguns casos, internação. Remédios potentes são usados sob supervisão, devido aos possíveis efeitos adversos para o paciente. “O antimoniato de meglumina tem uma toxicidade sobre o coração, o fígado, os rins e o pâncreas. Então, deve ser utilizado com critérios, excluindo a possibilidade de que o paciente […] tenha algum comprometimento desses órgãos”, explica o médico Fernando Silveira.

Na avaliação do veterinário Fábio Nogueira, esse cenário revela uma das realidades mais duras da doença: “Infelizmente, as pessoas que morrem por leishmaniose são as mais carentes. Você não vai ver uma pessoa saudável, rica, nutrida ser infectada com leishmaniose. Quem se infecta é pessoa carente, idoso e criança desnutrida”, diz.

Em 2024, o governo federal lançou dois portais para monitorar as leishmanioses no país. Os sites trariam informações sobre o número de casos, óbitos e a taxa de letalidade por estado. Porém, uma consulta rápida revela que os sites se encontram abandonados: a última atualização de dados ocorreu em agosto de 2024, mesmo ano do lançamento das plataformas.

O perfil das pessoas afetadas, afirma Fábio Nogueira, ajuda a explicar por que a leishmaniose é uma doença negligenciada e recebe poucos investimentos, inclusive para a produção de vacinas – que ainda não existem para humanos –, e para o desenvolvimento de novas medicações. Apesar de a leishmaniose ser conhecida há mais de um século, o tratamento se apoia em remédios antigos, com níveis significativos de toxicidade – uma marca das doenças negligenciadas, porque as corporações farmacêuticas não têm interesse em pesquisar e desenvolver medicamentos melhores. A falta de avanços estaria diretamente ligada às condições sociais das populações atingidas, explica Nogueira: “A Organização Mundial de Saúde define a leishmaniose como a doença dos mais pobres entre os pobres”.

Os cães, por outro lado, não têm direito a tratamento pelo SUS, embora sejam as principais vítimas da leishmaniose. Entre eles, a doença não escolhe perfil: atinge cães de qualquer raça, idade ou classe social. E não é possível falar em cura, apenas em controlar a doença com medicamentos.

Hoje, o Ministério da Saúde distribui aos estados e municípios testes e coleiras repelentes, priorizando locais com maior risco, transmissão ativa ou sob investigação da doença. A coleira, porém, é indicada apenas para cães maiores de 3 meses que não estão infectados – como forma de prevenir a doença, não de tratar aquele já está doente. Altamira teve acesso aos testes, mas não às coleiras. Segundo o ministério, a distribuição do acessório depende da adesão dos municípios ao programa de encoleiramento, que exige a caracterização da cidade como área prioritária de risco, apresentação de plano técnico e comprovação de estrutura para executar e monitorar o encoleiramento dos animais. Até meados do final de abril, Altamira não aderiu ao programa.

Sem vacinação disponível no Brasil nem tratamento público assegurado, as opções de enfrentamento da leishmaniose canina ficam restritas a quem pode pagar – uma minoria da população. Assim, a maioria das vítimas é condenada a sofrer e a morrer. Enquanto sofrem e morrem, infectam, produzindo mais vítimas, num ciclo contínuo. Quando políticas públicas falham, há temor de que o medo crescente da população desamparada pela falta delas acabe produzindo violência contra os cães, em especial os mais vulneráveis e os menos responsáveis pela tragédia da qual são vítimas. SUMAÚMA questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre a suspensão da fabricação da vacina canina contra a leishmaniose, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Oito mortes em um dia

Até 2016, a eutanásia era compulsória para cães que fossem identificados com a doença. A partir daquele ano, o tratamento da leishmaniose canina foi autorizado no Brasil. Hoje, a legislação permite que o tutor escolha entre iniciar o tratamento estabelecido ou optar pela eutanásia. Caso escolha interromper a vida do animal, o tutor precisa assinar um termo de ciência e consentimento.

Em Altamira, descobrir a leishmaniose canina costuma ser só o começo de uma longa jornada. O primeiro passo quase sempre é um teste rápido, feito em clínicas veterinárias ou em ações de vigilância da prefeitura, que custa em média 150 reais. Um resultado positivo precisa ser confirmado por um segundo exame, mais completo. Se os dois derem positivos, a escolha por salvar a vida do cachorro se torna uma batalha custosa, com várias medicações. O principal remédio disponível no Brasil é a miltefosina, que mata o protozoário no organismo. A venda só é permitida mediante prescrição médica em guia de controle do Ministério da Agricultura e Pecuária. O tratamento também inclui o alopurinol, um medicamento originalmente usado em humanos, que freia a multiplicação do parasita. De forma complementar, podem ser prescritas vitaminas e medicações para estimular o sistema imunológico. Para evitar novas infecções e reduzir o risco de transmissão, o uso de coleira impregnada com inseticida se torna indispensável.

Mas mesmo essa terapia intensiva não garante recuperação ou cura. O objetivo é controlar a doença, reduzir a carga parasitária e melhorar a qualidade de vida do cachorro. Em casos bem-sucedidos, a quantidade de parasitas no organismo do cão pode diminuir bastante, reduzindo também a probabilidade de o mosquito-palha ser infectado se voltar a picá-lo. Ainda assim, como o tratamento não elimina completamente o parasita, o animal deve manter o uso contínuo de coleiras repelentes para reduzir o risco de transmissão da doença.

SUMAÚMA consultou profissionais de quatro clínicas veterinárias de Altamira e verificou que, na cidade, o custo estimado de um tratamento para leishmaniose – incluindo consultas, exames, testagens, medicações e coleira repelente – para cães de até 10 quilos pode chegar a 2,5 mil reais. É ainda mais caro tratar cães de médio e grande porte. Embora as despesas diminuam após a primeira fase do tratamento, este é apenas o custo inicial de um cuidado que vai durar o resto da vida do cachorro.

Em seu escritório, Milka organiza os remédios de Aurora sobre a mesa. Aos pés da escrivaninha, ela espia a tutora. Adesivos rosa brilham em sua testa, a coleira repelente lhe adorna o pescoço. Todos os itens do tratamento foram adquiridos por meio de doação e vaquinha. Sem ajuda, a comerciante não teria conseguido salvar a cadela. “A gente não tem ajuda dos órgãos daqui, da prefeitura, não tem ajuda de nada”, reclama Milka. “A ajuda é a gente mesmo.”

Na clínica do veterinário Djalma Lima, essa realidade também tem rosto e focinho. Desde 2025, ele já atendeu cerca de 50 cães com suspeita da doença. O local também é abrigo para cerca de 30 cães sem lar, oito em tratamento para leishmaniose.

O veterinário percebe que o medo de cachorros infectados começa a assombrar as pessoas do município. “O cão não é o vilão, é uma vítima”, reforça Djalma. “A doença não tá aumentando por causa dos cães, tá aumentando porque precisa de um suporte melhor para combater o vetor, para combater o mosquito.”

Um levantamento com dados de janeiro a outubro de 2025 identificou que, de 85 cães testados para leishmaniose em Altamira, 66 tiveram resultado positivo para a doença – uma taxa alarmante de 77,6%. O bairro Buriti registrou o maior número de casos, com 25 confirmações. Em segundo lugar, ficou o bairro Jardim Independente I, com sete ocorrências. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde e foram publicados no estudo “Levantamento epidemiológico de leishmaniose visceral no município de Altamira – PA”, do qual a professora e médica-veterinária Bárbara Amorim é uma das autoras.

Bárbara também é a responsável técnica do setor veterinário da Clínica Novos Ventos, da Faculdade Serra Dourada, onde atendeu diversos cães infectados. Mesmo distante do centro da cidade e funcionando apenas durante quatro horas por dia de segunda a quinta-feira, a clínica registrou 19 casos positivos de leishmaniose canina entre fevereiro de 2025 e abril de 2026. “As pessoas estão com medo. (…) Elas já chegam dizendo: ‘Eu quero fazer o teste para aquela doença que estão falando que tá todo animal pegando’.”

Se os tutores recebem o diagnóstico positivo, cada um reage de um jeito, conta a veterinária. Alguns desabam, choram, sem conseguir processar a notícia. “Eles perguntam: ‘O tratamento é disponibilizado pelo SUS? Onde é que eu consigo essa medicação?’. Falamos que, infelizmente, não. O tratamento deve ser custeado pelo responsável do animal”, conta a veterinária. Muitos se agarram ao tratamento particular. Outros prometem que vão tratar, mas voltam depois, sem recursos, para autorizar a eutanásia. “É doloroso pra gente ter que lidar com uma doença que você vai ter que dizer pro tutor que, se ele não tratar, ele vai ter que fazer a eutanásia. É difícil e nem todo profissional tem suporte psicológico pra isso.”

Suporte e infraestrutura também têm faltado à Secretaria Municipal de Saúde de Altamira. Sem centro de zoonoses, a Sesma firmou parceria com a Clínica Novos Ventos para dispor de ponto de apoio para procedimentos. Lá foram feitos alguns testes e parte das eutanásias. Participar dessas intervenções é um dos lados mais duros da medicina veterinária.

“A gente não estuda para fazer eutanásia”, diz Bárbara. Apesar disso, em um único dia, durante ações da prefeitura no bairro Buriti, ela precisou participar de oito desses procedimentos. Um após o outro. Entre eles, o de uma cadela e seus quatro filhotes. A dor não fica no consultório nem consta nos prontuários. “Só a gente sabe como a gente lida depois, quando chega em casa, com aquele momento, com aquela sensação. Não é fácil.”

Durante décadas, no Brasil, um diagnóstico positivo para leishmaniose canina equivaleu a uma sentença de morte. Desde 1963, a política sanitária determinava a eutanásia compulsória dos cães infectados. “No Brasil, os animais positivos eram obrigados a morrer”, resume Fábio Nogueira. Esse cenário começou a mudar em 2016, quando o tratamento da leishmaniose canina foi finalmente autorizado. A decisão abriu uma alternativa inédita para famílias com condições de custeá-lo. A eutanásia, no entanto, ainda consta como uma das medidas de controle da leishmaniose e pode ser adotada quando o tutor não tem condições de arcar com o tratamento, quando o cão está em sofrimento grave sem perspectiva de melhora, ou quando representa risco à saúde humana ou de outros animais e não há quem se disponha a cuidar dele. Já não é mais compulsória, mas, para muitos cães, ainda segue sendo o último destino.

Era esse fim que Maria temia para Pitoco. Eles viviam no Buriti, o bairro com o maior número de casos de leishmaniose canina em Altamira. Suas histórias se cruzaram cinco anos atrás, quando Maria trabalhava na área da limpeza da Unidade de Pronto Atendimento, a UPA de Altamira, e o antigo responsável por Pitoco deu entrada na unidade após um infarto. Com ele, vinha um cachorro pequenino, de pelos escuros com mechas amarelas. Quando o tutor morreu, os parentes buscaram o corpo dele. Pitoco foi deixado para trás. Maria o encontrou na porta da unidade de saúde, esperando o tutor que jamais voltaria. Ela o colocou numa caixa de papelão, apertou-o no peito e o levou para casa.

Pitoco, carinhoso e obediente, dormia junto com ela no quarto. Companheiro, a seguia pelas ruas e pela casa. Valente e pequeno, enfrentava cães maiores sem recuar, mesmo que isso tenha lhe causado uma fratura na pata. “Ele era criado como uma criança. Para mim, ele era meu filho homem que eu não tive”, diz Maria.

Quando envenenaram outros cães que Maria resgatou, Pitoco sobreviveu. Quando o casamento se fez pó e as filhas bateram as asas do ninho, Pitoco se manteve ali. Quando a solidão falou mais alto e a depressão fez ronda, Maria encontrou em Pitoco companhia, consolo e, de algum modo, cura.

Desde que reconheceu nele os sintomas que vitimavam outros tantos cães no Buriti, Maria sabia o que um teste positivo poderia significar. O tratamento era caro demais, e ela não tinha condições de pagar. Seu salário mal dá para morar, comprar os próprios remédios e se alimentar.

Maria temeu que a prefeitura descobrisse que Pitoco estava doente. Temeu que lhe arrancassem o filho e o sentenciassem à morte sem seu consentimento. “Não deixei ninguém sacrificar meu cachorro”, ela conta, a voz despedaçada. Sob todos os riscos, escolheu cuidar dele, da forma que podia, até seu último dia. Resgatou os conhecimentos da roça, juntou trocados para comprar vitamina, orou a Deus por ajuda. Mas nada disso foi capaz de salvá-lo. “Me tranquei dentro de casa e fiquei com ele. […] Fiquei olhando o jeitinho dele, e ele morrendo na minha mão. Foi a coisa mais triste do mundo. Eu jamais quero passar isso com ninguém mais.”

O sonho de uma aurora sem sentenças

À medida que avança pelas ruas de Altamira, a leishmaniose escancara as fragilidades da estrutura pública encarregada de contê-la. O responsável pelo setor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, Osvaldo Damasceno, reconhece que a capacidade de resposta do município está aquém do necessário. Segundo ele, além dos 29 agentes de endemias da Sesma, o setor de vigilância conta com apenas quatro servidores – entre eles um único médico-veterinário – para lidar com doenças como dengue, zika, Chagas etc. “Uma equipe pequena para uma demanda grande”, diz, e acrescenta desconhecer planos para a contratação de mais profissionais.

A população humana, segundo Damasceno, pode acessar tratamento no SUS e realizar testes rápidos, mediante solicitação médica, em quatro pontos de saúde de Altamira: UBS Buriti, UBS Nova Altamira, UBS Brasília e no Centro de Apoio em Diagnóstico. Para os cães, porém, o cenário é outro. A secretaria afirma não ter estrutura logística para ofertar testagem em massa nem atender à demanda de tutores interessados em testar animais com sintomas da doença.

A Sesma pretende iniciar uma nova etapa da vigilância em junho, instalando armadilhas de captura do mosquito-palha nos bairros Buriti, Independente II e Ibiza. O objetivo é monitorar o ciclo de reprodução do inseto e desenvolver estratégias de controle da proliferação. Até lá, a recomendação é que a população coloque coleiras nos animais de estimação e faça limpezas periódicas no quintal, onde o mosquito-palha tende a procriar. O valor das coleiras repelentes, porém, é alto demais para os mais pobres.

Sobre a prática da eutanásia dos cães, Damasceno é firme ao falar que nenhum animal de estimação passa pelo procedimento sem autorização do responsável. “Não somos nem seremos exterminadores de animais”, reitera. Mas na falta de políticas públicas de prevenção, detecção e tratamento de cães infectados, o avanço da leishmaniose se agrava. Segundo Damasceno, a principal lacuna continua sendo a falta de um Centro de Controle de Zoonoses. Sem o espaço, testagens, monitoramento contínuo e procedimentos clínicos ficam comprometidos.

O Ministério Público do Estado do Pará ingressou, em 2018, com ação civil pública para obrigar a Prefeitura de Altamira a implantar um Centro de Controle de Zoonoses. A ação ocorreu por denúncias sobre o aumento do número de animais abandonados após o regresso de trabalhadores da Hidrelétrica de Belo Monte às suas terras natais. À época, a Promotoria apontou que a omissão do poder público diante da crescente população de cães e gatos nas ruas representava risco direto à saúde coletiva, inclusive pela disseminação de doenças como a leishmaniose visceral.

Oito anos depois, o caso segue em aberto. Em fevereiro de 2025, a Justiça do Pará sentenciou o município a implantar o centro de zoonoses até agosto deste ano. Mas, segundo o Ministério Público, uma vistoria realizada em novembro de 2025 identificou que as obras estão paralisadas. A decisão também previa a entrega de relatórios trimestrais e de um plano de medidas paliativas para proteção dos animais – segundo informações do MP, porém, até abril nenhum dos documentos havia sido apresentado pela prefeitura.

Questionada sobre as informações da Sesma e do Ministério Público do Estado do Pará, a prefeitura respondeu, em nota, que realiza vigilância epidemiológica, monitoramento, vacinação e ações de castração de animais. Alegou ainda que a criação do Centro de Controle de Zoonoses é uma demanda antiga que “deverá ter um desfecho em breve”. Apesar de questionada, não respondeu sobre a paralisação das obras, o descumprimento dos relatórios judiciais, a ausência do plano paliativo e tampouco apresentou data de previsão para a entrega do centro.

A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará, a Sespa, informou que, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), os casos de leishmaniose visceral entre humanos caíram no Pará nos últimos anos. Em nota, a secretaria afirmou que apoia os municípios por meio de capacitações e descentralização do diagnóstico. A reportagem de SUMAÚMA solicitou a série histórica detalhada dos casos de leishmaniose nos municípios paraenses, assim como uma entrevista com a coordenação do programa de Leishmaniose, mas não foi atendida.

Em nível federal, os dados do Ministério da Saúde indicam redução significativa no total de casos no Brasil, na Região Norte e no Pará. O Ministério informou que distribuiu mais de 1,8 mil testes rápidos para humanos desde 2025, além de enviar medicamentos e outros insumos conforme demanda dos estados e municípios. Para o estado do Pará, disse que forneceu mais 500 testes para cães e 1,7 mil coleiras com inseticida para cinco cidades, sendo elas Cumaru do Norte, Parauapebas, Canaã dos Carajás, Redenção e Belém, na Ilha de Cotijuba – as únicas cujas prefeituras teriam aderido à estratégia de encoleiramento de cães para prevenção da leishmaniose. Como Altamira ainda não aderiu, está fora da política de prevenção.

SUMAÚMA questionou o ministério sobre a criação de mecanismos de monitoramento da leishmaniose em animais e quais os valores que teriam sido repassados à área de vigilância epidemiológica do Pará e do município de Altamira, mas não houve resposta para isso nem para a desativação dos painéis de monitoramento das leishmanioses.

Entre notas incompletas, estruturas prometidas e decisões judiciais pendentes de cumprimento, a leishmaniose avança. Muito mais rápido do que a resposta do Estado.

Deitada junto aos pés da tutora, Aurora encontrou segurança contra a hostilidade das ruas e as agruras da doença. Uma semana depois de ter ganhado um lar, ela também ganhou 2 quilos. Sob os pelos cor de caramelo, seus ossos já não estão mais aparentes. Os olhos ainda pesam de cansaço, mas ela já late, corre e segue Milka por todos os lados. Agora, ela tem uma cama para dormir e se restabelecer. Enquanto dorme, a cadelinha pode sonhar com a aurora do dia em que o poder público faça políticas públicas e a leishmaniose não condene nem cães nem gentes.

Fonte: SUMAÚMA

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