Cães e gatos em situação de rua reproduzindo sem controle são um grande problema de saúde pública em muitas cidades brasileiras devido à ausência de políticas públicas para os animais.
Em Rio Acima, cidade de 10 mil habitantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte, moradores do Condomínio Canto das Águas decidiram fazer um projeto de controle populacional dos felinos que reproduzem sem controle na região, afetando o equilíbrio da fauna.
Neste sábado, 25 de abril, entre 40 e 50 gatos serão castrados em um castramóvel alugado pelos condôminos. O número total ainda não foi definido porque a equipe de captura está em atividade.
A ação de castração é o ponto alto de uma estratégia montada ao longo de um mês com visita e avaliação dos locais onde os felinos vivem, envolvimento de moradores e trabalho de uma empresa especializada em captura de animais, que começou a ser feita em 22 de abril.
CED
Além da esterilização, todos os gatos receberão vacinação antirrábica antes de serem devolvidos ao seu território de origem. Trata-se do método Captura, Esterilização e Devolução (CED) considerado eficaz por especialistas pois reduz nascimentos, diminui impactos sobre a fauna silvestre e contribui para a prevenção de zoonoses.
O protocolo CED visa não só promover o bem-estar dos animais mas também o equilíbrio e conservação ambiental, especialmente por se tratar de uma área inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), com uma rica fauna silvestre.
“Em áreas ambientalmente sensíveis, como o Canto das Águas, esse tipo de manejo é ainda mais relevante, pois ajuda a diminuir os impactos da superpopulação de gatos sobre a fauna nativa”, assinalou a bióloga e condômina Maria Carolina Lana.
Marcação na orelha
Os gatos castrados serão identificados por meio de marcação padronizada na ponta da orelha esquerda, um procedimento simples, seguro e amplamente utilizado no manejo de gatos de vida livre em todo o mundo.
“Essa identificação visual permite reconhecer, à distância, que o animal já foi castrado. A partir do dia 25, gatos sem essa marcação indicarão que ainda não passaram pelo procedimento e, portanto, deverão ser incluídos nas próximas etapas de captura e manejo, garantindo a continuidade e a eficácia do projeto”, apontou Daniela Araújo Passos, condômina e ativista pelos direitos dos animais.
Vida livre
O levantamento realizado pelo condomínio identificou cerca de 50 gatos de vida livre, distribuídos em diferentes colônias. “Esse diagnóstico inicial foi fundamental para o planejamento das ações e reforça a importância de uma intervenção estruturada e contínua”, destacou Bráulio Pena, subsíndico de meio ambiente do condomínio Canto das Águas.
No primeiro dia da ação, 20 gatos de diferentes colônias foram capturados com segurança por uma empresa especializada.
“As capturas seguem ocorrendo diariamente em diversos pontos, incluindo o entorno imediato do Canto das Águas, e continuarão até o dia da castração. Todos os animais capturados permanecem sob os cuidados do condomínio até a realização do procedimento”, salientou a ativista Daniela.
Engajamento
A ação conta com forte engajamento da comunidade local. Moradores, funcionários e prestadores de serviço participaram ativamente do processo, especialmente na etapa de ceva – alimentação estratégica utilizada para atrair os animais – essencial para o sucesso das capturas.
“A iniciativa demonstra como ações organizadas, baseadas em responsabilidade e cooperação, podem gerar resultados positivos tanto para os animais quanto para o meio ambiente. O trabalho terá continuidade por meio do monitoramento das colônias, garantindo a efetividade do controle populacional ao longo do tempo”, ressaltou a bióloga Maria Carolina.
Proteção à fauna nativa
O CED é uma prática reconhecida mundialmente para o manejo de cães e gatos de vida livre e consiste na captura humanitária, castração, vacinação e devolução dos animais ao local de origem, promovendo uma redução gradual e sustentável da população.
É amplamente recomendado por especialistas por ser uma estratégia ética e eficaz de controle populacional, reduzindo o número de nascimentos, minimizando conflitos e contribuindo para a saúde dos próprios animais.
Segunda a bióloga, os gatos, com instinto de caça inato e apurado podem ser responsáveis pela redução de pássaros, teiús e pequenos mamíferos. “O controle populacional se torna uma medida importante para mitigar esses impactos e preservar o equilíbrio ecológico local”, salientou, ao destacar outros benefícios.
Além da proteção à fauna nativa, o controle sanitário é essencial para a prevenção de zoonoses, evitando a propagação de doenças graves como a esporotricose e a raiva, o que protege tanto os seres humanos quanto os animais domésticos.