Um projeto de SBN (Soluções Baseadas na Natureza) em Recife deve servir como piloto para multiplicação de pequenas obras que podem ajudar a capital pernambucana a lidar com as enchentes causada pelas chuvas. No bairro Cajueiro, que há décadas enfrenta as cheias do rio Beberibe, no limite da cidade com a vizinha Olinda, mudanças em calçadas e praças serão implementadas para conter a água e diminuir a pressão sobre os sistemas de drenagem.
O projeto de R$ 2,4 milhões vai ser realizado com verba federal, concedida pelo edital Cidades Verdes Resilientes, que direciona recursos do Fundo Clima. Segundo a organização responsável pela intervenção urbana, devem ser instalados jardins filtrantes e canteiros drenantes, que funcionam como praças e canteiros de calçada adaptados para absorver mais água da chuva.
“A ideia é que a experiência de SBN diminua a pressão sobre o sistema de drenagem urbana. É a lógica de cidade esponja, de reter a água para diminuir a contribuição aos corpos hídricos [rios e córregos urbanos]”, afirma Mariana Asfora, presidente do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira, órgão de planejamento urbano da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. “Eu não tenho como remover toda a população, renaturalizar todas as margens de rio, então preciso conseguir reter essa água em outras áreas para viabilizar a permanência dessas pessoas”, explica.
Cajueiro enfrenta as cheias do Beberibe há décadas. O bairro se divide entre uma parte mais alta e a baixa, onde se encontra com o rio. O projeto de SBN será implementado na parte alta, para funcionar como uma barreira para a água da chuva que vem descendo as ladeiras da comunidade, diminuindo assim o acúmulo junto ao rio. Paralelamente, na parte mais vulnerável, obras de saneamento estão previstas para escoamento.
“É importante entender que será uma ação integrada. Não vamos resolver a situação com SBN, mas utilizar isso para atacar um problema crônico de drenagem naquela área”, afirma a executiva. “Estamos incentivando isso inclusive em novos empreendimentos, com jardins de chuva, para ser usado na cidade em larga escala. Ali [em Cajueiro] teremos um território piloto para entender a SBN como sistema de suporte.”
A Aries, organização responsável pela implementação das SBN, afirma que o delineamento final do projeto será concluído junto à comunidade, que deve ainda receber capacitação para participar da construção das instalações, e mantê-las após a entrega. Um dos objetivos na renovação do bairro será também interligar as praças locais, formando corredores naturais, usando paredes verdes, arborização e intervenções que permitam um desenvolvimento mínimo da fauna e da flora locais.
“Queremos que Cajueiro seja nosso bairro modelo. Temos experiências de SBN no Brasil, e aqui em Pernambuco temos mergulhado nessa temática. Acreditamos que é o futuro das cidades, especialmente cidades como Recife”, pontua a presidente da Aries, Mariana Pontes.
A entrega do projeto está prevista para 2027, sendo que o planejamento inclui a avaliação da eficácia das SBN instaladas, para que possa servir de parâmetro para intervenções em outros pontos da cidade. Um processo seletivo para capacitação de 12 aprendizes remunerados será aberto para a comunidade. “Esse componente tem potencial de impacto social muito grande. Onde vamos atuar é um cenário de classe média, apesar de o bairro ter uma favela que deve ser removida por obras no futuro. Pretendemos endereçar qualificação para essas pessoas mais vulneráveis”, destaca Pontes.
O Rio Beberibe apresenta transbordamentos anuais, especialmente durante a quadra chuvosa entre os meses de maio e agosto. Esse contexto, aliado à presença de assentamentos precários, torna o Cajueiro altamente vulnerável aos impactos climáticos. Estudos do Plano de Adaptação Setorial do Recife e do Painel de Mudanças Climáticas do Recife indicam um aumento entre 10% e 20% na intensidade das chuvas extremas até 2050, além de apontarem a capital pernambucana como a 16ª cidade mais vulnerável do mundo ao avanço do nível do mar.
Fonte: Um só Planeta