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RECOMEÇO

Jornada rumo à liberdade: onça que vivia acorrentada em Roraima se recupera para voltar à natureza

Adotada pelo Distrito Federal, filhote de onça-pintada que era criada como doméstica foi resgatada pelo Ibama em Roraima e segue para Corumbá de Goiás, onde inicia mais uma etapa rumo à introdução na natureza, na Amazônia

16 de março de 2026
Gabriella Braz
5 min. de leitura
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Foto: Marcelo Ferreira

Mais de 3 mil quilômetros separam a onça Phi do lugar onde nasceu. Com cerca de um ano e meio, essa onça-pintada ainda é uma adolescente, mas já viveu grandes aventuras, e um novo capítulo dessa história iniciou na quinta-feira (12/03). A jovem felina foi transferida para um novo recinto no Instituto Nex, em Corumbá de Goiás (GO), após quase um ano de reabilitação na unidade do Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Brasília. A transferência para um lugar maior representa mais uma fase do processo de reinserção do animal, que veio do Norte, para a natureza.

Em janeiro de 2025, com pouco mais de um mês de idade, Phi foi resgatada de uma residência em Caroebe, sul de Roraima, onde permanecia acorrentada, criada como um animal doméstico e alimentada com restos de comida. “Quando foi resgatada, ela estava extremamente magra, com um score corporal bem baixo, tinha pneumonia, vários parasitas, pulga, carrapato”, conta Júlio César Montanha, chefe do Cetas, que acompanhou a onça por cerca de um ano.

O felino foi trazido para Brasília, unidade especializada em reabilitação e soltura de felinos, após dois meses no Cetas de Roraima. No DF, ganhou peso, alimentação adequada e passou por um check-up completo até ir para o Instituto Nex. Embora ainda não esteja solta, o novo espaço apresenta maior contato com a natureza e enriquecimento ambiental em um recinto de 500m². Na nova casa, Phi conta com ampla vegetação, um laguinho para beber água e, além da alimentação ofertada pelos veterinários, conta com presas vivas espalhadas pelo ambiente para estimular as habilidades de predadoras.

“A tendência, agora, é ela ter mais dificuldade de encontrar esse alimento, buscando com o uso de olfato e audição, captando o barulho que os animais vão fazer na mata”, explica. Segundo o veterinário, Phi mostra as habilidades de caçadora e apresenta um comportamento mais arisco e selvagem. À primeira vista, isso pode parecer ruim, mas na verdade, é uma característica comum das onças-pintadas essencial para a sobrevivência na natureza.

Para o retorno à vida selvagem, é essencial que esses animais não tenham os seres humanos como referência. Daniela Gianni, uma das responsáveis pelo Nex, explica que onças muito adaptadas a esse convívio dificilmente conseguem sobreviver na natureza. “O ser humano não pode ser a referência desse animal para nada, principalmente para alimentação, porque uma vez que esse animal tem a referência do ser humano, quando a gente solta, ele vai procurar áreas habitadas por seres humanos para se alimentar”, pontua. Um dos riscos, explica, é que eles passem a procurar alimentos em fazendas nos arredores, o que representa um perigo para os humanos e para eles.

Apesar do protocolo de reabilitação ocorrer no Cerrado, após alguns meses no Nex, Phi será levada de volta para a Amazônia, habitat natural dela. É um processo longo, mas de uma riqueza inestimável para a biodiversidade. Para Júlio e todos os profissionais envolvidos, a sensação é de dever cumprido. Ainda assim, não negam que a jovem onça vai fazer falta. “Não sei se ela vai chorar à noite, mas eu vou”, brinca o veterinário.

Refúgio de felinos

Phi está só de passagem pelo Instituto Nex, mas para 27 felinos, esse é o lar definitivo. O Instituto Nex é uma entidade sem fins lucrativos especializada em felinos de grande porte, especialmente das onças-pintadas, espécie ameaçada de extinção. “O ápice do nosso trabalho é conseguir devolver esses animais para a natureza, é o lugar deles, é de onde eles não deveriam ter saído”, afirma Daniela.

Além de atuar como parceira do Ibama no processo de reabilitação, o local funciona como um santuário para animais que não têm condições de voltar para a natureza. Um desses casos é o da onça Amanaci. Vítima nos incêndios que devastaram o Pantanal em 2020, ela sofreu queimaduras graves nas patas e perdeu os tendões, além de não conseguir mais utilizar as garras.

“Aqui serve como abrigo desses animais que não podem voltar para a natureza. A gente dá qualidade de vida, proporciona enriquecimento ambiental, alimentação e suplementação adequada, tratamento veterinário, tudo que o animal precisa para manter uma qualidade de vida adequada, é mais como um refúgio mesmo”, explica a veterinária.

Esse também é o caso de Merlin, resgatado em 2016 após ser atingido por um tiro e que mora no recinto desde 2020. “Um caçador deu um tiro no meio da testa dele e ele ficou cego dos dois olhos, foram quatro anos de tratamento”, relata. “Hoje, ele vive bem aqui no Nex, tem um ambiente adequado para as condições dele, mas ele não sobreviveria em vida livre”.

Já o Ousado, que veio junto com Amanaci em 2020, foi um caso de sucesso no Nex. A onça também sofreu queimaduras nas patas, mas não ficou com as garras comprometidas. De volta ao Pantanal, ele se tornou um símbolo do bioma e faz sucesso pelo jeito singular de surpreender as presas. Em vez de ficar na beira da água à espera da presa, Ousado nada e surpreende jacarés que estão na beira do rio, ofensiva que já rendeu vários cliques nas redes sociais.

Ayní, a pioneira

Além da celebridade pantaneira, o Nex foi o responsável peça introdução da primeira onça nascida em cativeiro no Brasil. Ayni nasceu em 2021 no Instituto e é filha de Jaci, uma onça amazônica que precisou continuar no local devido a fraturas. Em 2025, ela foi transferida para o Parque Nacional de Iberá, na Argentina, onde segue com os cuidados da Fundação Rewilding Argentina. O projeto, que atua na proteção do maior felino das Américas, é responsável por introduzir cerca de 16 onças-pintadas no país, onde a espécie é altamente ameaçada, chegando a ter somente 200 a 250 indivíduos em 2018.

Fonte: Correio Braziliense

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