Os javalis, erroneamente chamados de “invasores”, foram introduzidos no Brasil na década de 1960 pela pecuária, em mais um exemplo de intervenção humana irresponsável no meio ambiente. Agora, pagam com suas vidas pelo erro de serem trazidos para um ecossistema que não lhes pertence.
A decisão de controlar sua população através de assassinato – muitas vezes realizado por caçadores – é uma resposta cruel e simplista, que ignora métodos éticos de manejo e reforça a cultura da violência contra os animais.
Ao contrário do que sugere o discurso alarmista, os javalis não “invadiram” o Brasil – foram trazidos para fins econômicos e, devido à falta de controle, se espalharam. Originários da Europa, Ásia e Norte da África, esses animais são vítimas de um sistema que os considera descartáveis. O Ibama, em vez de investir em soluções não letais, optou pela matança autorizada, legitimando a caça sob o pretexto de “controle populacional”.
Embora especialistas reconheçam os impactos ambientais e econômicos causados pelos javalis, a solução apresentada é a mesma de sempre: eliminação em massa. Gustavo Góes, da ONG MAE, admite que “só a arma de fogo não resolve”, mas, mesmo assim, o método predominante continua sendo a caça. O IAT (Instituto Água e Terra) utiliza armadilhas para capturá-los, mas depois os entrega a caçadores para execução – uma prática que, mesmo sob regras de “bem-estar animal”, não esconde seu caráter violento.
Se o problema é a reprodução acelerada, por que não investir em esterilização em larga escala? Se o risco sanitário é tão grave, por que não há campanhas eficazes para proibir o consumo da carne de javali? A resposta é simples: é mais fácil (e mais barato) matar do que buscar soluções éticas. Enquanto isso, caçadores como Leandro Dias de Souza se orgulham de ter abatido “mais de 300 animais”, como se isso fosse um troféu, não uma tragédia.
A justificativa para o extermínio dos javalis repete a mesma lógica aplicada a outros animais considerados “pragas”: em vez de responsabilizar os humanos que os introduziram, transfere-se a culpa às vítimas. Se fossem animais com maior apelo sentimental, como cães ou gatos, a sociedade questionaria o massacre. Mas como são “porcos selvagens”, sua morte é tratada como mera gestão ambiental.
Enquanto o Brasil insistir em respostas violentas para problemas criados pelo próprio homem, a ética animal continuará sendo sacrificada em nome do pragmatismo. É hora de exigir políticas de manejo que respeitem a vida – todas as vidas.